Orindiúva no chão em 29/9/2014. Foto Luis Fernando Pechiore Bastos.
A estação de Orindiúva, na linha-tronco da antiga Mogiana e hoje linha de passagem de cargueiros da FCA, no município de Casa Branca, SP, foi demolida no último mês de setembro. Desta vez, foi mesmo, depois de alguém levantar a bola há poucos meses atrás e logo em seguida tendo aparecido outro que desmentiu.
Desta vez não há o que desmentir. Está no chão, há várias fotos. E, por elas, até a plataforma, que geralmente é deixada no local por ser mais difícil de destruir, foi também. Só resta remover o entulho - se já não foi removido (se é que um dia o será).
Orindiúva no chão em 29/9/2014. Foto Luis Fernando Pechiore Bastos
.
Quem terá sido o autor disto? É sempre difícil de saber. Geralmente, é alguém que conseguiu arrematar o edifício no espólio da RFFSA e não o queria ali, talvez por estar ameaçando cair em cima de, geralmente, drogados ou vagabundos de estrada, e ficar com a culpa. Pode ter sido também a prefeitura - mas duvido que Casa Branca, município decadente há décadas e que tem essa estação como a mais distante de sua sede, se importa a mínima com o prédio e também duvido que fosse ela a dona do mesmo. Concessionária atual do trecho? Pode ser, mas é difícil de saber, pois ela não admitiria - não era dona nem usava o prédio. Finalmente, pessoas que moravam perto e não queriam más companhias, mas a impressão que tenho é que ninguém mora perto dali, local bastante isolado e difícil de chegar de automóvel - aliás, eu visitei o local em 1999 e cheguei lá quase por acaso na época. Nunca mais tive a oportunidade de voltar.
É curioso que em volta dessa estação, assim como a de Miragaia, a estação seguinte no sentido Campinas-Casa Branca, não haja nada em volta. São locais que nunca se desenvolveram? Ou podem ter tido algumas construções na primeira metade do século que desapareceram com o êxodo rural?
A estação em 1999. Foto deste autor.
Pesquisando em jornais, não se encontra absolutamente nada sobre essas duas estações. O nome de Orindiúva, que é também o de um tipo de madeira ou árvore (que provavelmente existia na região em profusão, daí o nome?), é visto quase sempre ou como o da madeira ou, mais ainda, como o de um município paulista homônimo que fica na região ao norte de São José do Rio Preto e muito próximo da antiga linha da E. F. São Paulo-Goiaz, linha esta extinta em 1969. Bem longe dali.
A estação de Miragaia em 26/9/2014. Uma retificação em 1961 tirou-lhe os trilhos. Foto Luis Fernando Pechiore Bastos
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Miragaia, por sua vez, aparece sempre como sobrenome, ou então, como parte de horários de trens, na época em que estes eram publicados em jornais (virada do século XIX parao XX). Aliás, para quem se lembra, Miragaia foi um dos sobrenomes que formou o MMDC, dos 4 estudantes mortos em 23 de maio de 1932 em São Paulo (Martins, Miragaia, Drausio e Camargo). Mas o nome da estação nada tem a ver com este Miragaia. A estação nasceu já com esse nome em 1912. Talvez de alguma família dona das terras próximas.
A estação de Miragaia, menor que a de Orindiúva, ainda está de pé - mas abandonada e com rachaduras que vão terminar com sua queda mais dia menos dia - a não ser que algum demolidor a alcance primeiro.
Mais um pedaço da história ferroviária e de São Paulo que desaparece. Daquia pouco tempo, não haverá mais nada.
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sábado, 13 de dezembro de 2014
terça-feira, 23 de setembro de 2014
O (MAU?) EXEMPLO DO ENTRONCAMENTO FERROVIÁRIO DE GUAXUPÉ
Pátio de Guaxupé. Sem data. Foto cedida por Wanderley Duck e atribuída ao Comandante Monteiro, do Aeroclube de Passos. Três ramais chegam e um sai
.
Guaxupé fica em Minas Gerais e faz divisa com o Estado de São Paulo. Era um dos maiores entroncamentos da Companhia Mogiana. Quatro linhas ali se juntavam. Mesmo em território mineiro, era de uma empresa ferroviária paulista.
De Casa Branca, São Paulo, linha-tronco da CM, saía um ramal que se bifurcava em São José do Rio Pardo. Para o norte ele seguia até Mococa e prosseguia mais seis quilômetros até uma estação no fim-do-mundo chamada Canoas. Esta ficava também em Mococa, São Paulo, numa área rural que até hoje tem baixíssima população. Ali também era divisa com Minas, no município mineiro de Arceburgo.
De São José do Rio Pardo a linha também seguia para Guaxupé, cruzando o rio Pardo e passando por estações pequenas, todas rurais, até chegar a Guaxupé, cruzando a divisa estadual. A estação ficava no então limite da área urbana, como soía acontecer. Só que era um grande pátio onde a linha se dividia em três.
Mapa dos anos 1940. Do sul vem a linha de Casa Branca, Para leste, a de Tuiuti. Para oeste, a de Biguatinga e a de Passos
.
Uma era curta e dirigia-se, com três estações apenas, para Biguatinga.
Outra linha seguia até Tuiuti, depois Jureia, onde se encontrava com a linha da E. F. Muzambinho, que, continuação da velha E. F. Minas and Rio e a partir dos anos 1930 tudo da Rede Mineira de Viação, permitia que se atingisse cidades como Varginha, Três Corações, São Lourenço e Cruzeiro, na Central do Brasil no Vale do Paraíba paulista.
Entrando por outras linhas ali no caminho, atingia-se cidades menores, várias delas "afogadas" com a linha em 1964 com a construção da represa de Furnas; mas também se podia chegar a Lavras e atingir Belo Horizonte, bem como por outro caminho chegar a Barra do Piraí no Vale do Paraíba fluminense e dali à capital do país, na época a cidade do Rio de Janeiro.
A terceira linha que saía de Guaxupé saía dali para o norte, em São Sebastião do Paraíso, e dali virava à direita, até Passos.
Enfim, uma rede de linhas que, por mais tortuosas que fossem, ajudavam o Brasil a se comunicar e a se desenvolver durante muitos anos.
Hoje em dia pouca coisa disso existe. Apenas a linha São Paulo-Rio da velha Central, citada acima em Cruzeiro e em Barra do Piraí, segue operando com cargueiros (exceto a parte urbana São Paulo-Mogi das Cruzes, atendendo trens metropolitanos da CPTM e a Japeri-Dom Pedro II, operada pela Supervias no Rio de Janeiro também transportando essa carga viva que tanto incomoda nossos governos de hoje - o povo).
A linha Cruzeiro a Varginha, que sobrevive até hoje, é um exemplo do milagre brasileiro: sem ser concessionada a nenhuma das operadoras de carga, exceto a Três Corações-Varginha à FCA, mas já abandonada há pelo menos três anos, se não mais, o resto dela serve em pequenas porções isoladas à fazedora de verdadeiros milagres chamada ABPF - Associação Brasileira de Preservação Ferroviária - ,que já operou o trecho Cruzeiro e Rufino de Almeida (trecho paulista) e que hoje opera Manacá a Passa-Quatro e Soledade a São Lourenço. O que não está sendo usado é mato com estações abandonadas. A ABPF pode fazer milagres, mas não é mágica.
O resto do que falei, Casa Branca a Mococa e a Guaxupé e os ramais que saíam dali - viraram pó.
Vejam as fotos do pátio de Guaxupé e o mapa do entroncamento de linhas que açi se juntavam para ver o que era infra-estrutura.
E hoje, o governador de São Paulo diz que vai construir linhas para termos trens da Capital a Americana, a Sorocaba e a São José dos Campos e que tudo isso começará a ser construído em 2015, para operar em 2020.
Para quem já ouviu histórias como essas aos montes nos últimos quinze anos, isso não representa nada em termos de garantia de construção. E, curiosamente, nos primeiros cinco anos desses quinze anos (1996-2001), essas linhas existiam e funcionavam (embora aos trancos e barrancos) com trens de passageiros. Curioso também é que eles não falam em "reconstruir" linhas, mas em "construir", como se elas jamais houvessem existido. Quem as extinguiu? Nossos governos. Aliás, do mesmo partido do atual governador. Que, aliás, ainda nem sabe se estará sentado na cadeira no ano que vem.
Agora, com a quase certa saturação das rodovias - que não são poucas - prevista para 2020, eles querem arranjar uma alternativa para esse povo chato que insiste em viajar e trabalhar poder continuar fazendo isso.
Acho que é por isso que, outro dia, eu, esperando o trem para Barueri em Presidente Altino, vi o trem chegando e li no seu frontispício: "Itararé". Juro que li. Olhei de novo - era Itapevi, como se esperava. Será essa uma visão futurística... ou do passado apenas, um "deja-vu"? Afinal, o trem para o sul do Brasil passou por ali, seguindo para Itararé, e dali pela RVPSC para o Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul até ser "cassado" em 1979.
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Guaxupé fica em Minas Gerais e faz divisa com o Estado de São Paulo. Era um dos maiores entroncamentos da Companhia Mogiana. Quatro linhas ali se juntavam. Mesmo em território mineiro, era de uma empresa ferroviária paulista.
De Casa Branca, São Paulo, linha-tronco da CM, saía um ramal que se bifurcava em São José do Rio Pardo. Para o norte ele seguia até Mococa e prosseguia mais seis quilômetros até uma estação no fim-do-mundo chamada Canoas. Esta ficava também em Mococa, São Paulo, numa área rural que até hoje tem baixíssima população. Ali também era divisa com Minas, no município mineiro de Arceburgo.
De São José do Rio Pardo a linha também seguia para Guaxupé, cruzando o rio Pardo e passando por estações pequenas, todas rurais, até chegar a Guaxupé, cruzando a divisa estadual. A estação ficava no então limite da área urbana, como soía acontecer. Só que era um grande pátio onde a linha se dividia em três.
Mapa dos anos 1940. Do sul vem a linha de Casa Branca, Para leste, a de Tuiuti. Para oeste, a de Biguatinga e a de Passos
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Uma era curta e dirigia-se, com três estações apenas, para Biguatinga.
Outra linha seguia até Tuiuti, depois Jureia, onde se encontrava com a linha da E. F. Muzambinho, que, continuação da velha E. F. Minas and Rio e a partir dos anos 1930 tudo da Rede Mineira de Viação, permitia que se atingisse cidades como Varginha, Três Corações, São Lourenço e Cruzeiro, na Central do Brasil no Vale do Paraíba paulista.
Entrando por outras linhas ali no caminho, atingia-se cidades menores, várias delas "afogadas" com a linha em 1964 com a construção da represa de Furnas; mas também se podia chegar a Lavras e atingir Belo Horizonte, bem como por outro caminho chegar a Barra do Piraí no Vale do Paraíba fluminense e dali à capital do país, na época a cidade do Rio de Janeiro.
A terceira linha que saía de Guaxupé saía dali para o norte, em São Sebastião do Paraíso, e dali virava à direita, até Passos.
Enfim, uma rede de linhas que, por mais tortuosas que fossem, ajudavam o Brasil a se comunicar e a se desenvolver durante muitos anos.
Hoje em dia pouca coisa disso existe. Apenas a linha São Paulo-Rio da velha Central, citada acima em Cruzeiro e em Barra do Piraí, segue operando com cargueiros (exceto a parte urbana São Paulo-Mogi das Cruzes, atendendo trens metropolitanos da CPTM e a Japeri-Dom Pedro II, operada pela Supervias no Rio de Janeiro também transportando essa carga viva que tanto incomoda nossos governos de hoje - o povo).
A linha Cruzeiro a Varginha, que sobrevive até hoje, é um exemplo do milagre brasileiro: sem ser concessionada a nenhuma das operadoras de carga, exceto a Três Corações-Varginha à FCA, mas já abandonada há pelo menos três anos, se não mais, o resto dela serve em pequenas porções isoladas à fazedora de verdadeiros milagres chamada ABPF - Associação Brasileira de Preservação Ferroviária - ,que já operou o trecho Cruzeiro e Rufino de Almeida (trecho paulista) e que hoje opera Manacá a Passa-Quatro e Soledade a São Lourenço. O que não está sendo usado é mato com estações abandonadas. A ABPF pode fazer milagres, mas não é mágica.
O resto do que falei, Casa Branca a Mococa e a Guaxupé e os ramais que saíam dali - viraram pó.
Vejam as fotos do pátio de Guaxupé e o mapa do entroncamento de linhas que açi se juntavam para ver o que era infra-estrutura.
E hoje, o governador de São Paulo diz que vai construir linhas para termos trens da Capital a Americana, a Sorocaba e a São José dos Campos e que tudo isso começará a ser construído em 2015, para operar em 2020.
Para quem já ouviu histórias como essas aos montes nos últimos quinze anos, isso não representa nada em termos de garantia de construção. E, curiosamente, nos primeiros cinco anos desses quinze anos (1996-2001), essas linhas existiam e funcionavam (embora aos trancos e barrancos) com trens de passageiros. Curioso também é que eles não falam em "reconstruir" linhas, mas em "construir", como se elas jamais houvessem existido. Quem as extinguiu? Nossos governos. Aliás, do mesmo partido do atual governador. Que, aliás, ainda nem sabe se estará sentado na cadeira no ano que vem.
Agora, com a quase certa saturação das rodovias - que não são poucas - prevista para 2020, eles querem arranjar uma alternativa para esse povo chato que insiste em viajar e trabalhar poder continuar fazendo isso.
Acho que é por isso que, outro dia, eu, esperando o trem para Barueri em Presidente Altino, vi o trem chegando e li no seu frontispício: "Itararé". Juro que li. Olhei de novo - era Itapevi, como se esperava. Será essa uma visão futurística... ou do passado apenas, um "deja-vu"? Afinal, o trem para o sul do Brasil passou por ali, seguindo para Itararé, e dali pela RVPSC para o Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul até ser "cassado" em 1979.
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segunda-feira, 1 de setembro de 2014
MAIS UMA ESTAÇÃO FERROVIÁRIA SE VAI
A estação que fotografei em 1999. Esse era o lado da fachada. Os trilhos dese lado já haviam sido retirados, mas se mantinham - e ainda hoje se mantêm - do outro lado
.
Hoje fiquei sabendo que recentemente a estação de Orindiúva, uma das poucas estações da arquitetura típica da Mogiana do princípio do século XX, foi demolida.
Porém, logo depois de fazer o upload, recebi uma notícia de que não, ela ainda está de pé. Esteja como estiver, no entanto, a situação é muito precária, como se vê na foto mais abaixo de 2013.
A estação por volta de 1910
.
Orindiúva estava abandonada desde a época em que lá estive, no já distante ano de 1999. Ficava na linha-tronco, no único trecho da Mogiana original que nunca foi retificado e portanto ainda mantinha o leito do final do século XIX - o trecho Mato Seco-Lagoa Branca.
A estação nos anos 1990. Foto Wanderley Zago
.
Ficava no município de Casa Branca, SP, entre as estações de Engenheiro Mendes e Miragaia. Cargueiros da FCA mantém seu percurso passando por lá até hoje.
A estação em 2013, fotografada por Reginaldo Zimbres
.
Quando lá estive, não notei nenhum bairro por perto. O local era bem ermo e cheio de mato. As fotos que dui recebendo durante os anos que foram passando mostravam a sua decadência.
O Brasil perde um pouco mais de sua história. E, afinal, quem demole - ou quer demolir, se ela realmente ainda estiver de pé - estas estações? O dono das terras em volta? A prefeitura? Moradores próximos - se é que os há? A concessionária? Fica o mistério e o descaso.
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Hoje fiquei sabendo que recentemente a estação de Orindiúva, uma das poucas estações da arquitetura típica da Mogiana do princípio do século XX, foi demolida.
Porém, logo depois de fazer o upload, recebi uma notícia de que não, ela ainda está de pé. Esteja como estiver, no entanto, a situação é muito precária, como se vê na foto mais abaixo de 2013.
A estação por volta de 1910
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Orindiúva estava abandonada desde a época em que lá estive, no já distante ano de 1999. Ficava na linha-tronco, no único trecho da Mogiana original que nunca foi retificado e portanto ainda mantinha o leito do final do século XIX - o trecho Mato Seco-Lagoa Branca.
A estação nos anos 1990. Foto Wanderley Zago
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Ficava no município de Casa Branca, SP, entre as estações de Engenheiro Mendes e Miragaia. Cargueiros da FCA mantém seu percurso passando por lá até hoje.
A estação em 2013, fotografada por Reginaldo Zimbres
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Quando lá estive, não notei nenhum bairro por perto. O local era bem ermo e cheio de mato. As fotos que dui recebendo durante os anos que foram passando mostravam a sua decadência.
O Brasil perde um pouco mais de sua história. E, afinal, quem demole - ou quer demolir, se ela realmente ainda estiver de pé - estas estações? O dono das terras em volta? A prefeitura? Moradores próximos - se é que os há? A concessionária? Fica o mistério e o descaso.
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segunda-feira, 9 de abril de 2012
MOCOCA NO MEU BINÓCULO

“Levantei-me cedo nesse dia. Deixando o ambiente morno de minha casa, de portas e janelas fechadas, atirei-me à neblina de uma manhã invernosa, dirigindo-me à estação da Mogiana. A vida de Casa Branca despertava-se ali. O barulho das máquinas, do carregamento de mercadoria para os vagões, o vozerio de um bate-papo vespertino, caracterizam seus primeiros bocejos. Algumas pessoas, envolvidas em couraças de agasalhos, defendendo-se da imagem impertinente, passam afoitamente por mim, à procura de um lugar no carro, que leva uma placa: Canoas. A máquina do nosso trenzinho arrastava um vagão, uma plancha repleta de lenha, um carro de passageiros subdividido em duas partes, correspondentes à primeira e segunda classes; um outro vagão servindo de escritório e oficina de uma companhia de publicidade. Nosso meio-carro transformou-se, dentro em pouco, numa improvisada sala de visitas, sendo que a maior parte das pessoas, entretidas em conversas, pertencia ao corpo funcional do Asilo-Colônia-Cocais. Em poucos instantes chegávamos àquela localidade, ficando, daí por diante, privado da companhia de tão amáveis pessoas. Desceu aquele bloco de gente, quase num só ímpeto, numa algazarra de passarinhos contentes, que não ajuntam em celeiros.
A máquina suspirou... O trenzinho partiu de novo. Ia lerdo, parando de estação em estação, comendo e expelindo, penosamente, uns grãozinhos de mercadorias pondo na morosidade dos gestos de metal a alma do funcionário público.
Seis horas depois, Mococa.
Mococa, no meu binóculo!...
Que esplendor de céu! Quanta luz na terra! O sol focalizava, esplendidamente, a beleza impressionante do painel, onde se desenhava, em linhas perceptíveis, Mococa à distância. Dois braços abertos, de ruas, recebem carinhosamente o visitante, conduzindo-o à parte central da cidade, que não se conformou em permanecer no perímetro estreito da baixada; atirou-se, morro acima, num amontoado de construções, separadas, aqui e acolá, por enormes ilhas de frondosas palmeiras. As torres das igrejas levantam-se além, muito além dos telhados em aglutinação. (...)”.
O texto acima, transcrito de um jornal de Casa Branca, “O Município”, de 24 de junho de 1944, portanto há 68 anos, e escrito por Apolônio de Tiana, encompridava-se descrevendo a cidade de Mococa, mostra que uma viagem num trem misto na época, de apenas 63 km, indo de Casa Branca a Mococa, podia demorar seis horas!... Era esse o ramal de Mococa, que terminava sete quilômetros depois, em Canoas, à beira do rio.
Ele descreve bem a chegada a Mococa, que tinha a sua estação no ponto mais alto na entrada da cidade: dela se podia ver boa parte dela, no vale e além dele, como o autor descreve. Hoje, as filas de palmeiras ainda estão lá; os trilhos não. A antiga estação, descaracterizada como depósito da Prefeitura, cercada por grades e muros no meio de outras construções, ainda está hoje junto a uma das entradas da cidade; mas a magia do trem, descrita acima e em vários outros relatos, esta desapareceu para sempre da região. Eu me lembro de meu filho, que, indo a Mococa anos atrás, perguntou a um morador onde ficava a antiga estação ferroviária, e a resposta foi algo como “mas aqui nunca teve trem!”.
E, quanto à estação de Canoas, mais à frente, foi transformada em estábulo... mas ainda está lá.
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sexta-feira, 6 de abril de 2012
CASA BRANCA
A estação de Casa Branca - a "velha" - em 2008Outro dia, conversando com amigos, saiu o nome de Casa Branca. Cidade que conheço, embora estando lá não frequentemente. O suficiente, entretanto, para gostar muito dela. Simpática, pequena, agradável e calma, agradaram-me bastante as minhas sempre curtas estadas em Casa Branca.
Pelo que li sobre ela, já foi mais importante e movimentada no passado. Um dos principais centros da Mogiana, de lá saía o ramal de Mococa, que levava a São José do Rio Pardo, Mococa e Guaxupé. Grandes armazéns de café, que trouxeram anos de glória à cidade, até hoje estão lá, infelizmente abandonados. Mas houve tempos em que houve que se construir uma estação auxiliar na entrada da cidade, a qual chamaram de Papagaios, dado o enorme movimento de cargas que sufocava a estação principal. E esta ficava na parte mais alta da cidade, longe do centro, e para alcançá-la com mais facilidade, foi construída uma linha de bondes, puxados a burro, dois deles, que levavam pela rua principal os passageiros da praça central à estação. Na volta, o bonde descia sozinho, e os burricos eram soltos das rédeas para também sozinhos retornarem à estrebaria na rua de trás. Eram, realmente, outros tempos.
Mas o tempo passou, e os trens da Mogiana acabaram, a própria Mogiana acabou. Antes disso, porém, a estação foi transferida para fora da cidade, para o Desterro, para uma melhor facilidade de circulação dos trens. Depois acabou o ramal de Mococa, foram-se os trilhos; foi-se Papagaios, demolida; foram-se os trens de passageiros, a estação velha virou sede da Prefeitura e a estação chamada por muito tempo de estação nova ficou às moscas, foi incendiada e saqueada. Depois reformada.
Acabou-se o movimento de Casa Branca. Mesmo assim, uma amiga dizia que embora não conhecesse a cidade, gostava dela. “Acho que deve ser algo relativo ao nome da cidade - sonoridade, ou semântica - porque eu também sempre senti algo especial por Casa Branca... nunca estive lá, quer dizer, passei por ela uma vez, numa viagem de trem quando ainda era bebê, só que cresci ouvindo meu pai falar que estava escalado para levar um trem para Casa Branca, ou que tal composição estava partindo de lá, enfim... de tal modo que se entranhou na minha cabeça esta estação em particular, tanto que quando vi fotos dela há alguns meses, no estado de abandono, parecia que as imagens não batiam. Acho que acabei criando uma Casa Branca particular...”, Um grande amigo, o Rodrigo, por sua vez, comentava que tinha “um gosto especial por esta cidade. Quando tive meu primeiro contato com o trem, em Evangelina, creio que em 1978, lembro-me que o maquinista me disse que o trem em que eu estava ia para Casa Branca. Bem, durante anos e anos eu falava que queria morar em Casa Branca. Essa era a minha Canaã... engraçado... coisas de criança”.
E então eu me recordei do velho Jorge, já falecido, um senhor que embora nascido em Porto Ferreira, cresceu em Casa Branca. Foi enterrado lá. Na sua cidade. Casa Branca, da qual ele sempre falava quando eu conversava com ele e ele dizia que “isto me faz lembrar um caso que aconteceu comigo quando eu morava em Casa Branca...” e lá ia ele contando mais uma história, que eu ouvia e não anotava... uma pena. Aécio, seu genro, quando ouvia essas histórias e dizia que “eram conversa para fazer lagartixa cair da parede”... O velho Jorge ria e continuava contando.
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segunda-feira, 2 de maio de 2011
NO FIM DO MUNDO, ENGENHEIRO MENDES
Eis a única fotografia da estação de Engenheiro Mendes que conheço. É do Album da Mogiana, publicado por volta de 1910. O título desta postagem leva a um outro quase igual, sobre a estação ferroviária de Engenheiro Maia, na Sorocabana, região de Itararé e que escrevi em 4 de dezembro último.
No trabalho que desenvolvo há quinze anos já, cataloguei por volta de 5 mil delas no Brasil todo. Desde Belém do Pará até Rio Grande, no RS, de São Paulo à Madeira-Mamoré em Rondônia, há estações diversas delas, nas mais variadas condições. Muitas abandonadas, poucas ainda com o uso original a que se destinaram... algumas prédios suntuosos, outras paradinhas sem nenhuma cobertura.
Curiosamente, é mais fácil se arranjar fotografias que histórias que contam o passado dessas estações. E, assim como há algumas delas que das quais até hoje não consegui fotografia alguma, há outras das quais não consegui qualquer informação que seja.
Muitas delas estão não muito longe de minha "base" de atuação: São Paulo. Querem ver exemplos? Na estação de Engenheiro Mendes, da Mogiana, jamais consegui chegar. Ela fica na linha original dessa ferrovia, logo depois da estação de Aguaí, sentido Casa Branca. A essa estação estava previsto um futuro bem diferente do que se tornou - um pequeno ponto de parada no meio do nada. Mas era dali que se recebia toda a carga de café que vinha de Poços de Caldas, chegando por carros de boi, carroças e o que fosse possível na distante década de 1880, quando ainda não havia sido construído o ramal de Caldas, que hoje liga Aguaí a Poços.
O dono das terras não quis ceder nada para a construção do ramal, que deveria se entroncar ali com a linha principal (o nome da estação em 1880 era Caldas, pois dali se chegava à cidade mineira). Com isso, os engenheiros e diretores da ferrovia resolveram fazer o ramal partir de Cascavel, onde nada havia, nem estação. Resultado: Cascavel cresceu, mais tarde virou Aguaí e cidade. Engenheiro Mendes foi esquecido.
Tão esquecido que nas várias vezes em que estive pela região jamais consegui chegar ao local da estaçãozinha. Ninguém sabe, ninguém viu. Nunca recebi fotos dessa parada, esteja ela demolida ou não - nem disso se tem certeza. Triste destino!
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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
PONTES QUE DURAM UMA VIDA

A linha da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro iniciou sua construção nos anos 1870. Em 1875 abriu seus dois primeiros trechos: Campinas a Mogi-Mirim e Jaguari (Jaguariúna) a Amparo.
Em 1878, a linha foi prolongada de Mogi-Mirim até Casa Branca. Nesse trecho aberto, foi construída uma ponte sobre o rio Mogi-Guaçu, cruzando-o na cidade homônima. Esta ponte foi utilizada até 1904; neste ano, a Mogiana entregou uma nova para substituir a anterior, agora em ferro importado. A própria ponte já deve ter chegado pronta do fabricante, geralmente norte-americanos.
Detalhe com a pedra mostrando a data.As bases, como se costumava fazer, eram de pedra. Uma obra de arte, mesmo. Numa das pedras, foi colocada uma inscrição com a data de finalização.
A ponte hoje, asfaltada. Cortesia Luiz SouzaEm 1979, a ponte foi abandonada pela ferrovia, pois a variante que foi construída passando por fora da cidade exigiu uma nova, em outro ponto do rio, além de uma nova estação. Ponte e estação antigas deixaram de ter funções ferroviárias.
Hoje a velha ponte centenária serve para o tráfego rodoviário. Conservaram-se as bases de pedra e a estrutura em ferro. No lugar dos trilhos e dormentes, retirados, o asfalto cobre hoje seu leito, da mesma forma que cobre o velho leito da linha que cruzava a cidade. O trem passa por fora.
A ponte hoje. Cortesia Luiz SouzaAs fotos mostram o passado e o presente da velha ponte da Mogiana.
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