E eu pergunto: por que o assunto trens e ferrovias tem sido tão mal administrado, para usar um termo leve, nos últimos sessenta anos no Brasil? A ideia corrente desde os anos 1950 que ferrovias e trens são coisas do passado, obsoletas, que apenas serviam no século XIX, continua viva na cabeça de muitos administradores governamentais. Vale ressaltar que no mundo inteiro, principalmente na Europa e na América do Norte, os trens são utilizados para transporte de cargas e de passageiros sem nenhum problema. Não se usam trens apenas porque algumas pessoas deles gostam. Usa-se porque são necessários.
Segundo Antonio Pastori, esses carros serviram por muitos anos aos passageiros dos trens de
subúrbio do Rio em diversos momentos operados e por empresas distintas: Central
do Brasil, CBTU, Flumitrens e Supervia. Um dos motivos de leilão é que, além do
obsolescência do material rodante, os carros estão ocupando grandes espaços nos
depósitos da Supervia em São Diogo e Deodoro, que precisam ser liberados para
receber novos trens. Uma pena que após prestarem relevantes serviços tenham fim
tão medíocre: virar sucata.
Ainda segundo Pastori, estes carros poderiam ser reformados e/ou adaptados para usos mais nobres, como
por exemplo, bibliotecas, salas de educação para cursos de informática,
oficinas de artesanato, escolinha de música, carpintaria, anfiteatro, café
cultural, museu ferroviário, ponto de informações turística e mais uma dezena
de usos - cadeia pública -, em face a enorme durabilidade, solidez e
resistência ao tempo das suas caixas de ferro e aço, permitindo que durem ainda
mais de meio século, mesmo se expostas ao tempo.
Pastori ainda adiciona que, segundo o Governo do Estado do Rio, os recursos arrecadados deverão ser
reaplicados em melhorias no sistema de trilhos do Estado, o que será muito
pouco vis a vis às demandas de investimentos bilionários que o modal
ferroviário requer. O que será arrecadado nos leilões será muito pouco,
pois cada carro pesa entre 15 e 20 toneladas e será vendido a
preço de sucata de ferro (R$ 0,70/kg), dando um total inferior a 1 milhão de reais. Seria muito mais interessante a SETRANS reservar alguns deles para
uso mais nobre, conforme exemplificado nas fotos abaixo.
Após reforma, poderia ser utilizados como Centro de Informações Turísticas
e/ou Centro Cultural para preservação da memória ferroviária em cidades do
Estado do Rio. O leilão deverá acontecer daqui a algumas semanas.
Uma carta foi enviada por ele ao Secretário de Estado dos Transportes, Sr. Carlos
Roberto de Figueiredo Osório, depois de receber diversos e-mails de entidades preservacionistas, indignadas com o fato de esse material ter sido considerado, erroneamente, como
inservível, devendo ser vendido a preço de sucata de ferro.
Ledo engano, pois essas velhas caixas metálicas com rodas de
metal têm durabilidade secular - que o digam os ingleses, com seus
tesouros ferroviários preservados e em operação até hoje. Eles podem, na verdade, ter
serventia bem mais nobre do que serem irremediavelmente picotas pelo maçarico.
Saiba, senhor Secretário, que uma das maiores dificuldades para
implantação de dezenas de projetos de TTR-Trens Turísticos e Regionais, assim
como projetos culturais, é a falta de material rodante. E o Governo do Estado
está contribuindo para o agravamento desta dificuldade.
Para reforçar os argumentos acima, solicito a leitura do pequeno artigo
abaixo.
Antonio Pastori é pesquisador ferroviário e Vice-Presidente da AFPF-Associação Fluminense
de Preservação Ferroviária, Mestre em Economia e pós graduando em Engenharia Ferroviária.