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quinta-feira, 9 de outubro de 2014

O VELHO RECIFE, PERNAMBUCO - 1975

Casarão - 1975 - VEJA
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Fui ao Recife apenas três vezes em minha vida. As duas últimas foram visitas curtas, de 1 a 2 dias, a trabalho. Isto nos anos 1990. Não deu para ver nada que havia visto em 1965, quando fiquei, com meus pais e meus 13 anos de idade, hospedado no centro da cidade, que ainda tinha o comércio vivo e os melhores hotéis.

Mas apesar disso, pouco me recordo. Lembro-me de que sempre que íamos ao local em que meu pai estava dando aulas nesse tempo, pegávamos uma avenida comprida e reta, a avenida Caxangá. Não me lembro se a cidade ainda tinha bondes, mas recordo-me do Capiberibe e de suas pontes. E de que alguns dias íamos à praia, que não eram tão próximas. Uma era a da Boa Viagem.
Casarão - 1975 - VEJA
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No nosso hotel estavam também hospedados as delegações do São Paulo e do Corinthians, que participavam, naquele mês de janeiro, de um torneio pentagonal de futebol com o Náutico, Santa Cruz e Sport Recife na cidade. Fomos assistir a uma rodada dupla numa noite no estádio dos Aflitos. Uma vez encontramos na praia alguns jogadores do Corinthians da época. Eles saíram da água e nos viram jogando futebol. E quiseram participar do jogo - imaginem vocês. Foi muito, digamos, interessante.
Teatro Apolo - 1975 - VEJA
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Entre esse longínquo 1965 e o não tão próximo 1990, descobri nos meus arquivos algumas fotos, publicadas numa edição da revista VEJA de 1975 - 2 de março, mais especialmente, que mostram uma Recife que talvez, pelo menos em parte, não exista mais. Sei que o forte e a velha estação de Brum, esta desativada já antes da minha primeira visita à cidade, ainda existem - porém, os outros prédios, muito bonitos e em más condições nas fotos, muito provavelmente não mais sejam parte da cidade, conforme previsto na revista de 1975.
Forte Brum - 1975 - VEJA
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O Brasil inteiro vem perdendo sua história já há muito tempo. Especialmente nessa época, onde apenas se começava a falar em preservação, ou seja, começava a se achar que manter construções antigas e bonitas era coisa de louco: tudo deveria ser renovado e o velho deveria ser posto abaixo.

Estação ferroviária de Brum, 1975 - VEJA
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Enfim, apreciem as fotografias e se alguém souber se algum dos dois casarões e o teatro conseguiram sobreviver, que me avisem.

sábado, 6 de setembro de 2014

A MEMÓRIA BRASILEIRA E O TREM DAS ONZE



Adoniran na estação do Jaçanã. Essa fotografia teria sido tirada logo após sua desativação em 1965
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O Trem das Onze. Quem não conhece esta música? Composta por João Rubinato, mais conhecido como Adoniran Barbosa, foi lançada em 1964. Com ela ele ganhou o Primeiro Prêmio de Músicas Carnavalescas do IV Centenário do Rio de Janeiro. Vinicius de Moraes sempre chamava São Paulo de Túmulo do Samba, mas desta vez ele se enganou... feio.


A Música do Trem das Onze fala de um cidadão que está uma noite com a namorada de repente descobre que está atrasado e tem de deixá-la. Ele tem de pegar o trem que passa às onze horas na estação (qual?) e, se ele o perdesse, não chegaria no Jaçanã (bairro da zona norte da cidade de São Paulo) a tempo - a alternativa seria pegar o trem na manhã do dia seguinte - e a mãe dele "não dorme enquanto eu não chegar".

Ele teria dito que o nome da estação de Jaçanã havia sido colocado na letra para rimar com "só amanhã de manhã". Muita gente diz que esse trem, que chegaria à estação do Jaçanã às onze horas, onde, aliás, ele não morava, não existia - ou melhor, esse horário não existia para o trem da Cantareira, onde estava a estação e o bairro. Outros, como Werner Vana, estudioso da Cantareira, disseram que ele existiu, sim.

Mas, afinal, o que importa isso hoje? Afinal, a velha estação do Jaçanã ficou rapidamente famosa. E, apesar disso, foi demolida.

A música é de 1964; a Cantareira fechou em maio de 1965 (quando fechou, o trem ainda parava nessa estação); a estação foi demolida em junho do ano seguinte, 1966, com festas. Alguns poderão pensar: a música era muito nova e a estação não chegou a ficar famosa tão rápido. No entanto, ela era, como prova uma reportagem publicada no dia 21 de junho de 1966 (ver logo abaixo a manchete), que fale em "festa", "comício político", :palmas dos presentes" e a execução dos discos das músicas "Adeus Cantareira", de Frederico Rossi, e Trem das Onze", de Adoniran.

Folha de S. Paulo, 21/6/1966
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Adoniran Barbosa não estava nessa "festa". Talvez nem tenha sabido dela. Talvez, vá saber, não tenha nem se importado com o fato.

Houve "vários oradores" e também "a despedida dos moradores do bairro". O vereador Molina Jr. ressaltou os melhoramentos e da necessidade de dotar os bairros da Zona Norte dos serviços públicos essenciais". Curioso. O bairro havia perdido o único meio de transporte mais rápido que tinha (apesar da lerdeza dos trens da Cantareira) e a estação, que foi o símbolo do que deixou o bairro famoso no país inteiro. E estavam todos felizes.

Não sobraram traços da estação, da plataforma, nada. Hoje em dia as reportagens sobre o tema falam da "saudade que o povo tem da estação, não deviam tê-la deixado ser demolida".

Porém, naquele dia, todos bateram palmas. Por que? Em que a demolição do prédio ajudaria em fazer melhoramentos para o bairro?

Nossa memória é mesmo uma piada.