segunda-feira, 2 de junho de 2014

CURUMATAÍ, MG, POR REINALDO TAVARES


Curumataí, a estaçãozinha na qual eu, menino, desembarcava, foi demolida. Dela acho que apenas eu tem saudades; redigi, então, esta singela homenagem, a ela e ao meu trem, que publiquei por aí:

Eu menino.

Lembro-me bem do "trem de ferro". Sou da era "diesel", locomotiva azul e amarela, com buzina grave de navio. Trem da "Central do Brasil", vagões de madeira, "primeira", "segunda", "leito". Eu embarcava em Belo Horizonte junto ao meu avô ,"seu" João Paculdino, senhor feudal tardio dos sertões do meio caminho de Montes Claros.

Gente chique na estação a atravessar o portão principal de ferro batido, vislumbro de olhos úmidos as minhas pegadas miúdas no ladrilho gasto, chão sagrado repisado pelos meus ancestrais.

"Carro leito" estonteante, beliches com lençóis alvíssimos, apenas isolados do corredor pelas cortinas douradas. E eu já reparava as passageiras que se esforçavam para alcançar o leito superior, expondo-me, criança, as coxas. Do lado de cá, civilização, mulheres, converseiro, fumaça de cigarro, farofa de galinha, guaraná "Brahma" com tampa de rolha. Do outro lado da janela intransponível, a selva e as feras imaginárias com suas mandíbulas arreganhadas.

Vindo de baixo, o ruído rítmico das rodas a passar de um trilho para outro, e o ruído entrecortado das intercessões de linha.

Em ponto desconhecido iniciavam-se postes de luz, fraquinhas, que alumiavam e assombravam um pequeno círculo ao chão, e anunciavam o ponto divisor dos trilhos, Corinto, cidade ferroviária deste tamaninho. À direita, Diamantina, à esquerda, Pirapora, a meu ver, lugares distantes e desconhecidos, desinteressantes, à frente, o estreito caminho da plenitude.

De madrugada, o fim da viagem, o caminhão "F-600" soltando vapor pela descarga enquanto nos espera em meio a poças de lama; ruído lindo do motor V8 em marcha lenta, amalgamado com o outro, severo, da locomotiva estanque.

Eu ouvia o assobio seqüencial das válvulas de alívio dos freios, hoje silenciosas, mas que ainda me ferem os ouvidos. Então descia.

Estação de Curumataí, pequenininha e linda, com rampa e varandinha, igualzinha às outras, telégrafo batendo em frenesi e sino pendurado do lado de fora, para 'chamar' o trem. O chefe da estação, de roupa meio que preta, desbotada, quepe da "Central", distante e respeitável, ele que puxava os meninos da beira da linha. Gente conhecida e desconhecida entrando e saindo, indo e ficando, malas cobertas com saco branco e latas de banha cheirosas, entupidas de farofa. O rio ao lado direito, águas pretas que gelam as madrugadas, ao esquerdo, vagões inertes, silenciosos, ao abandono, estufados de algodão.

Insensíveis, tristes filhos de Toval Sampaio, derrubaram o entrave ao movimento de seu gado, derrubaram a estaçãozinha de Curumataí. Sequer removeram os escombros, insepultos que ficaram pelas cercanias.

Pois bem, imagino a vida pós morte não como a proximidade de Deus, mas como uma mobilidade pelo tempo viabilizadora da realização dos sonhos e do fim da saudade, mobilidade capaz de voltar-me à aurora da minha vida, para sentir os sons do trem e o cheiro do óleo diesel malqueimado, misturado com o da manga espada dos quintais do Coronel. Da minha infância querida, que os anos não trazem mais".

(Reinaldo Ferreira Faria Tavares, Belo Horizonte, dezembro de 2002).

Um comentário:

  1. Ralph bom dia, existe em algum lugar onde eu possa encontrar um diagrama das linhas do metrô de são paulo, incluindo os desvios, entroncamentos e etc....?

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