segunda-feira, 5 de novembro de 2012

UM PASSEIO EM INTERLAGOS HÁ (QUASE) 65 ANOS

Mapa publicado pela Folha da Manhã em 1949 - está fora de qualquer escala e não é norte-sul; porém, dá uma boa ideia do trajeto

(Nota: texto original alterado por postagem posterior)

De um artigo publicado no jornal Folha da Manhã em fevereiro de 1949, dá para se saber algo sobre alguns caminhos na São Paulo de então. Passaram-se já quase 65 anos e muita coisa mudou na cidade.

O articulista propunha fazer um passeio do centro da cidade até o "Recanto dos Lagos Paulistas". Não, não era tão longe: apenas 28 quilômetros, todo em asfalto, tanto na ida como na volta. Na sua descrição, ele sugeria sair da Praça da Sé, mesmo, citando ainda que se poderia usar o bonde até Socorro e dali, um ônibus até o autódromo e os "lagos" - que nada mais eram do que as represas Guarapiranga e a "Represa Nova", a Billings.

Somente um desavisado - ou aventureiro - faria o mesmo caminho hoje. Há de concordar comigo quem vir o trajeto descrito a partir de agora. Saímos (em 1949) de automóvel do marco zero, na Praça da Sé, em frente à catedral ainda inacabada e sem suas torres, para a Praça das Bandeiras. Ali tomamos a Nove de Julho, passando pelo túnel, até a avenida Brasil. Ali viramos à esquerda (sim, podia-se virar à esquerda ali. Não era fantástico?) e seguimos até a Brigadeiro Luiz Antonio. Ali fomos até o início da "Estrada Nova" de Santo Amaro. Notar que a Brigadeiro tinha duas mãos; hoje, não seria possível fazer este caminho. A Estrada Nova nada mais é hoje do que o eixo República do Líbano - Indianópolis, entrando depois pela Moreira Guimarães e a Washington Luiz.

Seguimos a Estrada Nova - que, segundo o relato estava com asfalto ruim, "desde que passou a pertencer ao município" (a Auto-Estrada de Santo Amaro, como era originalmente chamada, era de uma firma particular, que cobrava pedágio por seu uso. Isto durou até meados dos anos 1940) - até que cruzamos a linha do bonde de Santo Amaro (cuidado!), que era a atual avenida Ibirapuera, com linha exclusiva para os trilhos e toscos caminhos de terra estreitos e paralelos ao leito férreo para atender às residências que existiam a partir daquele ponto no sentido de Santo Amaro.

Seguimos pela estrada e subimos até encontrarmos, no topo, uma curva para a direita. Se não fizéssemos a curva, teríamos de seguir pela avenida Araci, em terra batida, e cair lá no Jabaquara. Esta "Araci" nada mais era do que a continuação da atual avenida Indianópolis - que passou mais tarde a ser todo o trecho da avenida Ibirapuera até a avenida Jabaquara. Ali no alto não existia o viaduto de hoje: a Estrada Nova descia para o leito da atual Moreira Guimarães (que todos chamam erradamente naquele trecho de Rubem Berta). Pelo que eu particularmente me lembro, nessa época ainda deveria ser pista única, duplicada somente nos anos 1960. Ao lado esquerdo dela, o "Hospital das Crianças", aquele belo prédio antigo que hoje é a Cruz Vermelha, e, logo depois, o aeroporto.

Depois dali o asfalto continua, mas em mau estado. Citou nosso escritor os hangares do aeroporto, que ainda existem, e, do lado direito da estrada, um "edifício abandonado que se destinaria a ser um estúdio cinematográfico". Era onde hoje está o prédio de concreto do Supermercado Extra, ex-Jumbo Aeroporto. A partir daí, a estrada se estreita, e, logo depois, surgiu uma "estrada asfaltada para o Brooklyn". Creio ser esta a rua Joaquim Nabuco.

Passamos então por um posto de gasolina do lado esquerdo (existirá ainda?) e logo depois o "núcleo residencial do Jardim Prudência", recém-loteado então. Logo depois, o Lago das Carpas (lago, ali? Coisa antiga, mesmo!). Ao longe, vimos um cartaz (placa) indicando à esquerda, a estrada para Interlagos e, para a direita, para Santo Amaro (é a continuação da Estrada Nova, que deixamos então). Este é o atual enorme cruzamento da Avenida Interlagos com a continuação da Washington Luiz, naquele trecho ainda em pista única até hoje, espremido entre os muros da Chácara Flora e as ruas estreitas do Jardim Marajoara.

Logo em seguida, uma estrada de terra para Nova Caledônia (bairro do qual jamais ouvi falar) e, logo em seguida, uma cerâmica. Subimos a estrada de Interlagos, bastante estreita, em meio a bosques de eucalipto até que atingimos um cruzamento onde havia uma estrada que à esquerda seguia para Pedreira e, para a direita, Santo Amaro - era a Estrada da Pedreira (trata-se hoje da avenida Nossa Senhora do Sabará).

Logo depois, passamos pelas "obras de terraplanagem da Sorocabana para construir a linha que levará até Engenheiro Marsilac" - a atual linha 9 da CPTM, que seria aberta somente oito anos depois. E cruzamos a ponte de concreto sobre o canal do rio Grande. Logo depois da ponte, a nova antena da Rádio Tupi (ainda existe ali?).

Pudemos ver à esquerda a "povoação operária de Pedreira ao pé da barragem da represa nova". Ao longe, o lago. À direita, saía uma estrada de terra batida e, mais adiante, chegamos ao "balão final da estrada" (Pelo que imagino, o fim da atual av. Interlagos em frente ao autódromo). Na faixa final do asfalto, vimos à esquerda a pista de corrida e, à direita, o Hotel Interlagos, "onde há praia e recantos para passeios, repousos, lanches, etc.". Ainda pudemos avistar do outro lado do lago a seção de iatismo do Tenis Clube. "Em frente, a Ilha dos Amores; à esquerda, as pontas vermelhas do Castelo, edifício plantado entre eucaliptos e ciprestes, em parque que se encontra contornando o lago". Os ingleses da colônia britânica os usavam sempre.

Do balão citado, saía uma estrada de terra batida que seguia para o Clube de Campo - hoje, a avenida Teotônio Vilela, ex-estrada de Parelheiros. Para o retorno, estrada de terra até a rua Manoel Preto, dali até a avenida De Pinedo, atravessando o coração de Santo Amaro (na verdade, aqui ele se enganou: ali sempre foi o centro do bairro do Socorro). Atravessamos então a ponte do canal do rio Pinheiros, "onde se encontra, do lado esquerdo, a ponte de concreto, ainda não acabada, para bondes", chegamos ao balão final do bonde de Santo Amaro (hoje próximo à avenida Victor Manzini) e chegamos à estrada velha de Santo Amaro (hoje, a avenida Adolfo Pinheiro, naquele trecho a partir do largo Treze de Maio até o Borba Gato, que não existia então - depois disso, avenida Santo Amaro, hoje). O piso bem conservado, exceto em pequenos trechos. Fomos até o largo do Bibi (hoje, entroncamento das avenidas Santo Amaro e Brigadeiro Luiz Antonio e ainda rua Joaquim Floriano, chamado praça Gastão Liberal Pinto).

Finalmente, pela Brigadeiro, regressamos ao centro... ainda em 1949.

11 comentários:

  1. "...um cruzamento onde havia uma estrada que à esquerda seguia para Pedreira e, para a direita, Santo Amaro..." - creio que essa estrada é a atual avenida Nossa Senhora do Sabará. Antigamente havia uma rotatória nesse cruzamento (conhecida na década de 1960 como "trevo"), depois foi colocado um semáforo com diversas fases para permitir as várias conversões. Hoje creio haver um viaduto lá. Faz mais de vinte anos que não vou para aquelas bandas...

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    1. Verdade, pode ser, mas eu interpretei como sendo o outro, logo antes da ponte, que leva para os mesmos lugares. E agora?

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  2. Antes tivesse um viaduto no cruzamento da Sabará com a Interlagos!! Esse farol hoje é um horror para os motoristas! rsrs

    Também fiquei em dúvida sobre a qual dos cruzamentos esse trecho se refere.

    (Acompanho sempre seu blog, é realmente muito bom! Parabéns!)

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    1. O local onde está o Extra-Aeroporto, antigo Hipermercado Jumbo-Eletro, era sim um estúdio cinematográfico. Cito alguns trechos do livro Campo Belo - Monografia de um bairro, de Maria Aparecida Weber e Sergio Weber:

      "...com capital inicial de dez mil contos de réis...escolheram, para construir uma vila cinematográfica, as terras de um dos sócios, Dr.João Manuel Vieira de Moraes...O terreno se situava dentro do bairro de Campo Belo, nas margens da futura av.Washington Luiz, em frente a terras a serem ocupadas pelo futuro Aeroporto de Congonhas...a 31 de maio de 1936, lançava-se a pedra fundamental de uma grande construção cujos trabalhos durariam até 1940 e nunca ficaram completos...com o nome de Cia.Americana S.A. de Filmes...o maquinário fora importado da Alemanha...os equipamentos pesavam 28 toneladas...O primeiro trabalho foi um longa metragem chamado Eterna Esperança...com a falência da Cia.Americana, a Cia.Cinematográfica Vera Cruz, criada em 1949 alugou as instalações enquanto aguardava a construção de sua "Hollywood Paulista" em S. Bernardo do Campo...tendo comprado também as máquinas da falida companhia. A Vera Cruz ali funcionou durante 7 anos... em 1949 a Caixa Econômica montou no local um clube recreativo para seus funcionários..em 1957 as lojas Mappin alugaram o prédio e montaram um grande depósito... em 1971 o Pão de Açúcar... (por Carlos Augusto Leite Pereira)

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  3. Curioso... então o Mappin também mantinha um grande depósito na rua João Cachoeira, bem em frente ao Instituto de Educação Costa Manso, onde estudei entre 1969 e 1975. Por volta de 1984 o Mappin transformou esse depósito num hipermercado. Não sei no que se transformou esse hipermercado depois da falência da empresa.

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    1. Hoje esse local é um supermercado Extra!

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    2. Eu também estudei no Costa Manso, desde 1964 até 1969. Em 1964 o prédio novo, na rua João Cachoeira, foi inaugurado e o nome mudou para Colégio Ministro Costa Manso (depois mudaram o nome para Instituto de Educação que na prática nunca existiu porque lá nunca teve o curso Normal). Antes o Ginásio Costa Manso só funcionava à noite no prédio do então Grupo Escolar Aristides de Castro que existe até hoje na esquina da Urussuí com a Leopoldo Couto de Magalhães (na época rua do Porto). Como não houve cerimonia de inauguração do prédio novo, em 1965 o governador Ademar de Barros foi inaugurar a nova quadra poliesportiva. Para isso ele desceu com o helicóptero na quadra de basquete dos funcionários do depósito do Mappin, que ficava ao lado do córrego do Sapateiro (hoje canalizado sob a av.JK. Acho que o Mappin não teve 2 depósitos, foi o depósito que ficava na Washington Luiz que mudou-se para o Itaim-Bibi. Depois o depósito deu lugar ao Mappin Itaim e quando o Mappin faliu, supermercado Extra.

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  4. "À direita, saía uma estrada de terra batida e, mais adiante, chegamos ao "balão final da estrada" (Pelo que imagino, o fim da atual av. Interlagos em frente ao autódromo)."

    Acho que esse balão é lá em baixo, bem depois do Autódromo, onde começa a Av. Professor Papini, que cai na Av. Atlântica. Ali tinha um projeto de ser uma "praia" e até a construção de um Hotel que nunca foi concluído. E tinha também um clube de tênis.

    "Do balão citado, saía uma estrada de terra batida que seguia para o Clube de Campo - hoje, a avenida Teotônio Vilela, ex-estrada de Parelheiros."

    Um antigo morador daqui da região disse que parte do traçado da Av. Atlântica era diferente (teve mudanças no começo dos anos 80), mas caía na tal estrada de Parelheiros. Acredito que ele se refere à esse trecho que sai do balão. A Teotonio começa da Av. Interlagos mas ao lado da sabesp e na frente do portão principal do Autódromo.

    O Clube de Campo (Vila São José - antes uma vila rural santamarense de colonos alemães e hoje um conglomerado de casas, comércio e trânsito) é aqui perto de casa. Lá chegava-se pela Estrada do Paraventi, hoje chamada de Av. Carlos Oberhuber.

    Espero ter ajudado.

    Parabéns pelo blog!

    Abçs

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  5. Em 02.09.1950 o Estadão publicou um anúncio sobre o loteamento do Jardim Prudência:
    http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19500902-23100-nac-0005-999-5-not

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    1. As ruas do mapa continuam com o mesmo nome, com exceção da Sotavento que agora chama-se Madre Emilie de Villeneuve e claro a auto estrada de Santo Amaro que é a avenida Washington Luiz. A rua das Flechas só mudou a grafia (era com x) e a Maraípe saiu invertida (Mairape).

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  6. Ralph, do outro lado da rua das Flechas (em relação ao Jardim Prudência) fica o bairro de Nova Caledônia onde existe uma rua das Carpas. As ruas Adolfo Casais Monteiro, Takeo Yoshimura e das Carpas contornam a área onde, em 1958, havia um lago, conforme aerofoto do Geoportal. Esse lago deve ser o tal lago das Carpas citado na reportagem. Na década de 1950 havia carpas coloridas no lago da praça da República. Talvez essas carpas fossem criadas aí. Como as carpas são criadas, comumente, por japoneses, talvez o tal Takeo Yoshimura tenha sido o dono do lago. Pura suposição minha porque não achei nada, no Google, sobre Takeo Yoshimura. Apenas que essa rua fica na Vila Nova Caledônia.

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