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quarta-feira, 14 de março de 2012

O INÍCIO DAS TREVAS

O belo Trem R da Paulista entre São Paulo e Campinas. Anos 1960. Foto Leonardo Bloomfield

Há exatamente onze anos atrás, partiu de Campinas o último trem de passageiros de longa distância oficial do Estado de São Paulo. Eu me lembre do fato e da data. O ano era 2001. Dia 14 de março. Era para eu ir até Campinas para tomar esse trem, mas compromissos inadiáveis de trabalho não me permitiram comparecer. Não houve festa alguma. A maior parte dos passageiros foi apenas porque era o último trem. Havia um ou outr político, entre os quais o prefeito de Campinas na época, ele que foi assassinado alguns meses mais tarde.

Quem conduzia esses trens desde 1999 era a Ferroban, obrigada pelo contrato de concessão a manter os poucos trens de passageiros ainda restantes nas linhas da ex-FEPASA. Ela o fez inicialmente a partir do início de janeiro desse ano; no dia 16, ela anunciou que não havia mais condições de continuar, pois "as linhas estavam em péssimo estado". E parou. Quando retornou à força, fê-lo em agosto, sete meses mais tarde. Não voltaram, por algo não explicado, os trens da Sorocabana (ou seja, o São Paulo-Presidente Prudente). Os trens passaram a sair de Campinas e não mais da Barra Funda.

O único que não saía de Campinas era o Sorocaba-Apiaí. Segundo entendi, já esstava sendo puxado pela ALL, que a essa altura já tinha a concessão das linhas da ex-Sorocabana em São Paulo (no início era a FERROBAN). Todos, de qualquer forma, acabaram em 14 de março de 2001, mas já em estado lastimável.

Relatos dos poucos aventureiros que se dispuseram a tomar esses trens contam histórias do arco da velha. Como ele não tinha horário afixado ou publicado em lugar algum nem era anunciado em cidade alguma, as pessoas pensavam que ele nem existia. Muitos trafegavam vazios. Lembro-me de uma reportagem no Jornal Nacional que mostrava um deles chegando a Jaú sem passageiro nenhum. Era um trem fantasma.

Quando ele chegava a Bauru, anunciava: "se não houver mais passageiros seguindo para Panorama, voltaremos daqui. Se houver, oferecemos para eles, se quiserem, uma viagem de táxi até seu destino entre Bauru e Panorama. Se insistirem em ir de trem, nós seguiremos".

Um colega meu, em 2000, estava num desses trens semi-vazios quando ocorreu um desastre entre as estações de Bauru e de Garça. Outro presenciou um assalto ao trem em Adamantina. Ele estava sozinho com o chefe do trem, indo para Panorama.

As estações não tinham ninguém, já estavam abandonadas. Uma vergonha total. Enquanto eram da FEPASA, até dezembro de 1998, algumas poucas estações ainda estavam abertas (lembro-me de Torrinha e Rincão funcionando, nesse ano). Os banheiros eram ruins mas funcionavam. O carro restaurante servia sanduíches e refrigerantes quentes. Com a Ferroban não havia nada disso. Nem as locomotivas elétricas tracionavam mais. Foram desativadas em janeiro de 1999 e a fiação aérea logo em seguida começou a ser retirada. Quando andei de Sorocaba a Apiaí em maio de 1998, a estação de Itapeva, embora em frangalhos, estava aberta, bem como a de Apiaí e algumas outras no caminho.

Triste e vergonhoso fim para um transporte que funcionou por136 anos e foi o maior responsável pelo desenvolvimento, povoação e crescimento do (ainda) Estado mais rico da nação.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

UM TREM CORR(IA) PARA O OESTE

Parapuã

Parece que a lista de estradas de ferro abandonadas no Brasil é infindável. O pior é que, como já escrevi aqui, muitas delas foram dadas em concessão e mesmo assim não são utilizadas. Parafraseando Fernando de Oliveira, um trem NÃO corre mais para o oeste.

Marília

O velho tronco oeste (também chamado por muitos anos de "Ramal de Jaú") da Companhia Paulista de Estradas de Ferro ligava Itirapina, na região de São Carlos, a Panorama, numa extensão de 536 quilômetros, maior que o tronco principal (Jundiaí-Colômbia), este com 506 km.

Até o final da FEPASA, em dezembro de 1998, tinha trens de passageiros bastante cheios, pois passava por uma região (entre Bauru e Panorama) que surgiu em razão desta linha. Mesmo cargas eram ainda levadas pela FEPASA nessa época, embora já em quantidade não tão grande quanto antes.

Assumiu em 1999 a Ferroban, que largou de vez. Obrigada a manter o trem de passageiros por dois anos, entregou em péssimas condições um trem sem horário, duas vezes por semana, sujo e sem banheiros e carros- restaurante em março de 2001. Fiscalização por parte do governo, zero. Cargas desapareceram. O porto de Panorama, com formidável infraestrutura, foi completamente largado, no rio Paraná. A ALL assumiu a linha em 2006 e o máximo que fez foi chegar uma vez ou outra no ano para transportar açícar de Tupã, muito antes de Panorama.

Iacri

A linha virou mato. De quando em vez, um trem de capina química passa pela linha para inglês ver. Uma vergonha, como tudo na ALL paulista.

Rafael Asquini esteve na região nestes últimos dias e mandou fotografias de alguns locais: Marília, Iacri, Osvaldo Cruz e Parapuã. Nem nos tempos finais da FEPASA a situação era tão de abandono quanto hoje. O fato é que as prefeituras em geral também pouco se preocupam com a situação: não limpam, deixando isso para as concessionárias, que também não o fazem. E pelo visto o povo não reclama também.

Osvaldo Cruz

Somente em Osvaldo Cruz, das quatro localidades visitadas, a limpeza é razoável. Em Marília, mato, enquanto a estação, hoje centro de saúde, é mesmo assim muito mal cuidada, sendo que, do lado da plataforma, juntam-se dezenas de drogados durante todo o dia, pois as janelas do centro são vedadas para este lado.

domingo, 29 de agosto de 2010

MENTIRAS E SONHOS

Trem da E. F. Juruti, em operação há cerca de um ano no interior do Pará. Iniciativa privada, apenas 55 km. Créditos na própria foto.

Douglas Hidalgo, de Osvaldo Cruz, enviou-me há poucos dias a notícia que dá conta que a empresa que administra o porto modal da cidade de Panorama, cidade e estação terminal do tronco oeste da extinta Companhia Paulista de Estradas de Ferro, está desativando as instalações por absoluta falta de uso.

Depois de esperarem por mil promessas ainda do tempo da Fepasa e depois das sucessoras Ferroban e ALL, ela resolveu cuidar da vida e desmontar tudo, enviando boa parte para a cidade mineira de Araguari (não me perguntem por quê).

Claramente, esse é um dos indicadores da falência da privatização das ferrovias brasileiras, feitas entre doze e catorze anos atrás. Por que afirmo isto? Bem, a privatização foi feita para que as ferrovias sucateadas e apenas parcialmente operantes com materiais obsoletos do tempo da FEPASA e da RFFSA pudessem voltar a trabalhar em níveis decentes, melhorando significativamente a infra-estrutura do País (junto com rodovias, aerovias, dutos, portos), reativando e modernizando o que não estava sendo utilizado.

Nada disso ocorreu. Das ferrovias ainda em operação na RFFSA e FEPASA na época da privatização, diversas foram desativadas, algumas até com trilhos retirados e roubados. Nenhuma nova entrou em operação, com exceção de trechos da Ferronorte e da Norte-Sul, além de mini-variantes regionais. Os portos continuam trabalhando mal.

Em termos financeiros, a privatização foi um ótimo negócio para o governo federal. Agora, em vez de bancar prejuízos enormes com as ferrovias que ele operava, ele recebe parte do faturamento das concessionárias que as operam. Para estas, são um bom negócio, pois dão lucro com investimentos muito pequenos. Para a infra-estrutura nacional, no entanto, péssimo negócio, pois a quilometragem operada diminuiu, e bastante.

O tronco oeste da ex-Paulista é uma das ferrovias que não estão sendo operadas desde a privatização. Bom, parte dela está: o trecho entre Itirapina e Bauru. De Bauru a Tupã, só durante a safra de açúcar. De Tupã a Panorama, de vez em quando uma composição para matar mato. Por isso, o porto de Panorama não opera.

Anuúncios na mídia há muitos: Ferrovia Norte-Sul de Tocantins a São Paulo, Ferrosul, Ferrofrango, Transnordestina, reativação deste ramal, daquele outro, Oeste-Leste na Bahia... mas obras, mesmo, nada. E lá se vão já catorze anos de mentiras e sonhos.