sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O CASTELO DOS ABUTRES

Hoje recebi um anúncio sobre o Encontro Regional de Preservação e Revitalização Ferroviária, que acontecerá no dia 08 de outubro próximo, em Leopoldina, Minas. Haverá palestras, almoços, etc. Não fui convidado (acho que eu nada represento para a conservação histórica das ferrovias no Brasil, embora eu saiba por terceiros que meu nome é sempre citado nesse tipo de congressos e encontros), recebi o convite também por meio de terceiros.

Independente disso, acho curioso que o tal encontro seja realizado numa cidade que conseguiu liquidar com tudo o que havia de ferroviário nela, mesmo tendo sido ela o ponto de origem da Estrada de Ferro Leopoldina. Deviam se envergonhar do que fizeram depois que o trem deixou de ir para a cidade, em 1964.

Embora fosse um curto ramal de doze quilômetros que partia de Vista Alegre, na linha do Centro da Leopoldina, foi ela o primeiro objetivo da ferrovia a partir de Porto Novo. A linha chegou à cidade em 1877. Mais tarde, acabou se transformando em ramal, com o enorme crescimento da ferrovia e alteração de prioridades. Em 1965 o ramal foi extinto e a estação desativada. Foi depois demolida e os trilhos arrancados.

Ao contrário do que se pensa, a ferrovia não deve seu nome à Imperatriz Leopoldina, primeira esposa de D. Pedro I e mãe de D. Pedro II. A cidade, anteriormente chamada de Feijão Cru, homenageou a segunda filha de Pedro II, também Leopoldina, e não a Imperatriz. A ferrovia, por sua vez, homenageou a cidade, que, por sua vez, liquidou, como já dito acima, seu passado ferroviário tão importante historicamente.

Deve ser a praga que caiu sobre os Habsburgos. Os Habsburgos, como se sabe, eram uma dinastia austríaca que teve o seu primeiro Imperador (Kaiser) em 1291, ainda como regente do Sacro Império Romano-Germânico, e se perpetuou com poucas exceções até o final desse Império, em 1806, quando os Habsburgos tomaram para si o título de Imperadores da Áustria. O nome vem de Habichtsburg, ou seja, “castelo dos abutres” em alemão. Daí vem o abutre (e não águia) de duas cabeças do brasão da família. Nome sinistro? Dizem que existia uma maldição sobre eles, que os levava a diversas tragédias.

A dinastia acabou em 1918, logo após o final da Primeira Guerra Mundial, não sem antes trazer diversas tragédias à família do Imperador Francisco José, que governou de 1848 a 1916. Morreu em plena guerra, logo ele, que pensava que vivia num conto de fadas, como era o Império no século XIX. Sua esposa, a Imperatriz Elisabeth, também chamada de Sissi (que apareceu em quatro filmes de Hollywood, sempre representada por Romy Schneider), morreu assassinada em 1898, quando já estava separada do marido havia um bom tempo. Ou seja, o romance que aparecia nos filmes de Sissi não deu muito certo.

Seu filho Rodolfo suicidou-se com a amante no episódio de Mayerling, em 1889. O irmão do Imperador, Maximiliano, foi assassinado no México em 1868. Seu sobrinho, Francisco Ferdinando, herdeiro do trono austríaco, foi assassinado em Serajevo (1914) com a esposa, em fato que foi o estopim da Primeira Guerra Mundial. Seu sobrinho-neto, Carlos I, foi coroado Imperador em dezembro de 1916 e foi destronado menos de dois anos depois, tendo falecido em 1922, bastante jovem.

O que tem a Leopoldina com isto? Bom, a Imperatriz Leopoldina era a irmã do Imperador Fernando I da Áustria e prima de Francisco José. A princesa Leopoldina era sua neta. Morreu muito jovem. Tanto esta como D. Pedro II, destronado em 1889, eram Habsburgos. A maldição estava neles.

Parece que a maldição passou para a ferrovia da cidade com o nome da princesa. O castelo dos abutres atacou mais uma vez.

5 comentários:

  1. Bem, Sr. Ralph, esses Habisburgos eram os Kennedys do passado!!!!

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  2. Que aula de história!

    É de se estranhar mesmo que um encontro de interessados em preservação do patrimonio ferroviário recaia sobre uma cidade que não tem muito interesse nisso.


    Grande abraço e boa semana!

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  3. Ou seja, indiretamente a ferrovia foi nomeada em homenagem à imperatriz, pois, como você falou, a ferrovia foi nomeada em homenagem a cidade de Leopoldina, a cidade em homenagem a princesa Leopoldina e esta em homenagem a imperatriz Leopoldina, sua avó.

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  4. Bom, aí vamos longe. Certamente Leopoldina, a imperatriz, foi nomeada em homenagem a antepassadas ou antepassados seus, já que Leopoldom tmbém foi nome de imperadores germânicos...

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  5. Excelente matéria e mais uma vez, parabéns e pêsames para a cidade de Leopoldina que não teve sequer a sensatez de manter pelo menos a estação de pé como aconteceu em todos os lugares. Não gosto daquela cidade, talvez seja por isso e nem sabia.

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