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segunda-feira, 14 de novembro de 2016

VENCESLAU BRAZ VAI A PIQUETE - 1918

A estação de Piquete - que, na realidade, se chamava Rodrigues Alves - em 2006, 88 anos depois da visita de Venceslau Braz.

Era maio de 1918. A Primeira Guerra Mundial, ou Guerra do Kaiser, como minha avó a chamava, comia solta na Europa e o Brasil já havia declarado guerra aos alemães, sem, entretanto, ter mandado ainda nenhuma soldado para lá.

O presidente brasileiro era o mineiro Venceslau Braz (na época, Wenceslau) e ele decidiu fazer uma visita à  fábrica de "pólvora sem fumaça" de Piquete, no Vale do Paraíba, divisa com o sul de Minas.

Se fosse hoje, ele pegaria o avião presidencial e desceria no aeroporto mais próximo, onde um carro o estaria esperando (ele e mais os seus acompanhantes, ou papagaios de pirata, como queiram-nos chamar). Naquele época, porém... a solução era o trem da Central.

O trem presidencial partiu da estação do Campo (a da Central, que passaria a ser chamada de Dom Pedro II a partir de 1925) e seguiu para o Vale do Paraíba. Na baixada fluminense, o trem parou em três estações: Deodoro, Maxambomba (Nova Iguaçu) e Belém (Japeri). As primeiras notícias, que seriam publicadas nos jornais do dia seguinte vinham exatamente de Belém. O presidente não desceu do carro em nenhuma delas, "em palestra com o ministro da Guerra e com o da Viação, o diretor da Central e o general Mendes de Moraes". A imprensa apareceu por lá também e cumprimentou o presidente pelo "modo magnífico com que iniciara a viagem". Puxa-saquismo puro, próprio de uma época. O que eles esperavam? Um descarrilamento com mortes? Venceslau manteve com eles "cordial palestra".

Ali, eles descobrem que no carro do Estado, estava o presidente; no carro dos ministros, os dois ministros; havia carros de luxo e dormitório onde viajavam os "officiaes de gabinete" e os representantes da imprensa; fora estes, o carro administração, o do chefe do trem e o bagageiro.

Às 4hs20 o carro cruzou a divisa estadual, em Queluz. Nesta estação, o presidente foi "recebido com manifestações por parte do povo, que ergueu enthusiasticos vivas ao chefe da Nação". Também foram mostrar que estavam vivos o prefeito, o juiz de direito da comarca, o "tiro 490" e os escoteiros fazendo continência. Ao som de vivas, o trem deixava a estação em seguida. Ah, se fosse hoje...

Em Cachoeira, o trem passou às 5 horas. Neste momento, anunciava-se que a linha de tiro 432 seguiria para Lorena.

Em Lorena, o trem entrou na gare da estação "sob delirantes acclamações dos presentes" às 6h30. Na gare, estavam os membros da Camara Municipal e do diretório político local; mais ainda autoridades, o comandante do 53o Batalhão de Caçadores, o 4o de engenharia, o tiro 432, o tiro 180, um contngente da Força Publica e todo o Gymnasio São Joaquim (alunos, suponho), o Secretário da Justiça, o da Segurança Publica e tenente-coronel Eduardo Lejeune, uma delegação da Liga Nacionalista de São Paulo, além do diretor da fábrica de pólvora e da "massa popular", que não tinha mais nada para fazer. Na verdade, aqui o presidente foi obrigado a descer, pois havia baldeação para o trem que seguia para Piquete - a bitola era menor.

Somente às 6h50 (só vinte minutos?) o trem do ramal seguiu para Piquete. E olhe que o trem ainda parou na Fazenda Amarella, sede do 4o Batalhão de Engenharia.

O trem chegou a Piquete às 7h50. Na estação da cidade, ainda se juntou mais gente à comitiva: um deputado federal, um juiz de direito, os comandantes de três outros batalhões e dois correspondentes de jornais e mais cinco pessoas. Antes de seguir para a fábrica, foram todos tomar café na casa do diretor.

Depois, todos regressaram ao trem, que seguiu para a fábrica - a linha entrava nas dependências da fábrica na verdade. Chegaram ali às 8h50. Depois, a visita - que acabou às 11 horas, o almoço, e longos discursos que não diziam, no duro mesmo, coisa alguma que fosse interessante.

Assim era a vida em 1918.


sábado, 2 de agosto de 2014

CONSELHEIRO LAFAYETTE, MG

Conselheiro Lafayette, VEJA, 28/10/1970
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Eu não gosto de escrever sobre locais que não conheço ou conheço muito pouco. Da cidade de Conselheiro Lafayette, em Minas Gerais, por exemplo, somente conheço o pouco que há sobre ela no meu site de estações ferroviárias, cuja página pode-se ver aqui.

A estação ferroviária de Conselheiro Lafayette já se chamou Queluz, mas a um determinado momento, teve o nome, que era o da sede do município, alterado para o atual. Nos anos 1940, o município acabou adotando o nome da estação. Ela ficava afastada do centro do município, cerca de 1 km. Hoje, tudo já se juntou e o nome de Queluz ficou mesmo com o município paulista que fica na divisa com o Estado do Rio de Janeiro.

E era na estação de Lafayette, como é mais comumente chamada hoje e que fica na antigamente chamada Linha do Centro da Central do Brasil (esta linha começava - e ainda começa - na estação Dom Pedro II, no Rio de Janeiro, e segue até Monte Azul, no norte de Minas e bem próximo à divisa com a Bahia) que a linha passava de bitola larga (1,60 m) a mista, ou seja, um terceiro trilho fazia com que trens de duas bitolas (larga e métrica - 1,00 m) passassem a percorrer o trecho dali até a estação de Miguel Burnier (chamada também, por duas vezes, com outro nome, São Julião). Aí, acabava a bitola mista e dali para a frente,  somente trens de bitola métrica podiam trafegar até Monte Azul.

Os trens de passageiros, no entanto, partiam de Burnier para o "sertão" e não de Lafayette.

No entanto, a linha métrica de Lafayette até a estação de General Carneiro foi completamente abandonado durante a privatização de 1996/7. Os trens de passageiros que partiam de Burnier (e mesmo de Lafayette, por algum tempo) desapareceram nos anos 1980.

O fato, entretanto, que me levou a escrever sobre o local é que em 1970 houve um fato que teria colocado a cidade em polvorosa: a Rede Ferroviária Federal, que nunca primou pela racionalidade em suas decisões, principalmente quando se tratava de eliminar trechos ferroviários "anti-econômicos", como se os chamava na época, decidiu eliminar a linha mista do pátio da estação de Lafayette até a estação de Joaquim Murtinho, mantendo somente a de bitola larga.

Na época, pela reportagem que li na revista Veja desse ano, a cidade tinha 50 mil habitantes e sua economia dependia em 50% da fábrica "de vagões e de carros ferroviários" da Santa Matilde, que era atendida por um desvio ferroviário que saía da linha métrica e ficava um pouco à frente da estação. Perderia, portanto, a fábrica, o seu desvio e seu acesso ao sul do país. O terceiro trilho e o desvio seriam retirados eno final de janeiro do ano seguinte.

Segundo a prefeitura e os empregados da fábrica, isso reduziria drasticamente os impostos pagos, a oferta de emprego cairia e a produção da fábrica era somente de carros e vagões de bitola métrica. Segundo a RFFSA, a retirada do terdeiro trilho seria para atender "às necessidades da nova sinalização automática" da linha e que a solução seria simples: transferir a fábrica para Três Rios, no estado do Rio de Janeiro.

Eu realmente não sei o que aconteceu. Todos os políticos estavam preocupados, bem como os habitantes, inclusive os que não trabalhavam na fábrica. Alguns garantiram que tal não ocorreria, pois haviam feito promessas para Nossa Senhora Aparecida. Apenas as prostitutas pareciam não se incomodar: "nós nos mudaremos para Três Rios, uai"!

Mais um exemplo de como a RFFSA pensava apenas no suposto prejuízo de suas linhs (que eram muito mal administrdas) e não em toda a economia que girava em volta dessas ferrovias, que em muitos casos era altamente lucrativa.

Enfim, se alguém souber mais sobre este rumoroso caso que ocorreu - ou que iria ocorrer e talvez não tenha acontecido - há quase quarenta e cinco anos, que se manifeste.