terça-feira, 21 de abril de 2015

ESTAÇÃO DE TATU: LEMBRANÇAS

Estação de Tatu nos anos 1970, com o trem de passageiros puxado pela lendária V-8.  chegando de São Paulo. Foto Roque Batista
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Eu já estive na estação de Tatu, um pequeníssimo bairro rural do município de Limeira, no Estado de S. Paulo, muitas vezes. Em todas as vezes, ela estava cada vez pior. Numa das últimas vezes, há uns três anos, cheguei a dar uma entrevista para uma televisão, indo com eles desde São Paulo até lá especialmente para isto. A reportagem acabou nunca sendo mostrada.

Era uma estaçãozinha inaugurada em 1876, quando o bairro possivelmente nem existia, mas, mesmo com a construção de uma subestação elétrica ali nos anos 1920 (para a eletrificação da via) e tendo sido sede de uma pedreira da própria Companhia Paulista, pedreira que tinha uma linha de bitola de 60 cm para carregar o material produzido e trazê-lo para os vagões, jamais se desenvolveu a ponto de pensar se tornar uma cidade. Durante muitos anos, uma linha corria da estação até a pedreira, em boa parte paralelamente à linha principal. Decauvilles iam e vinham do lado oeste da linha, operando pelo sistema de caixas baldeáveis.

A partir dos anos 1960, o abandono foi se acentuando; a pedreira fechou, depois a subestação foi desativada e por fim, a estação também. O pequeno distrito de Tatu ainda conserva muitas de suas casas antigas. Atualmente, a estação até que está em boa forma externamente. Das casas e armazéns, algumas estão servindo de moradia, outras fechadas.

Rodrigo, velho amigo meu que quando mais jovem andava para lá e para cá no que restava dos trens da Paulista, contou-me que "eu me lembro da primeira viagem de trem que fiz sozinho, quando  inocentemente comprei uma passagem de acordo com o dinheiro que eu tinha que, pelos meus cálculos, dava para ir até Tatu, e eu nem sabia como era ali. Então, peguei o trem das 8:05 que saía da Luz e quando cheguei em Tatu fiquei desolado porque não era uma cidade e sim uma vila ferroviária, então fiquei quietinho no trem e só desci em Limeira. Ah, que saudades das intermináveis conversas com os ferroviários velhinhos que me contavam as velhas e boas histórias da Paulista, quanta coisa foi vivida... A mobilização para se preservar um trecho da ferrovia era evidente".

Batista Batistella, morador da casa mais bonita da vila, falou comigo em 2000. Alguns anos depois, faleceu: "Mudamos para cá em 1935, quando eu era moleque. Meu pai comprou a casa de um espanhol, que havia acabado de construí-la: aí, a mulher dele morreu, ele ficou desgostoso e foi embora. Meu pai era dono da fazenda aí na frente, depois vendeu. Ele morreu e eu fiquei morando aqui. Tatu era muito mais bonito, a ferrovia tinha vários armazéns que hoje estão fechados ou invadidos. As passagens de nível funcionavam com ferrolho automático, e fechavam ou abriam com a aproximação do trem. A área da estação e da linha eram cercadas com arame, era tudo bem cuidado. Às vezes, eu e meus amigos íamos brincar na estação, passando a cerca; aí, mexíamos em alguma coisa, e à noite, vinha uma carta de reclamação do chefe da estação para os nossos pais. Aqui em Tatu existiam várias fábricas de facas e de canivetes; hoje, tem só uma ou duas. Outro dia, mudou-se para um armazém um sujeito que dizia que era da ferrovia, e começou a juntar tudo que era de ferro, tirar coisas da linha e dos vagões; ele levava tudo para a cidade para vender como ferro-velho. Aí veio a polícia e o pegou, levando-o preso. Esses vagões, que estão ali nos desvios, estão ainda cheios dessa sucata".

Outro relato é o de Júlio Cezar, nesta mesma época: "Enquanto fotografava a estação, um grupo de 5 crianças ficou à minha volta perguntando tudo. Perguntei sobre se já havia passado algum trem hoje e eles afirmaram que por volta das 9h30 passou um com destino a Limeira e que que por volta das 11h30 passaria outro com destino a Campinas. Não deu outra. As 11h50 lá vem 03 Dash-9 apitando adoidado, que belo apito, puxando 80 vagões de alumínio. Fotografei velhos vagões de carga e serviço na beira da linha. A cabine de controle da antiga CP ainda esta lá com aquele montão de alavancas. Não deu para subir no piso superior porque não ha piso, ruiu. Segundo a molecada, os trens de passageiros passam por Tatu e para se pegar o trem e só levantar a mão que o trem para. Que nem ônibus. Segundo um dos moleques, o pai dele afugentou um bando de vagabundos que morava na estação na base do revólver. Um dos vagabundos até urinou nas calças (imagino) e nunca mais voltaram. Dá até para acreditar, pois encontrei no interior da estação, além das costumeiras fezes, uma panela cheia de arroz e outra com feijão semi prontas. A gota d'agua, foi o fogo que eles estavam fazendo com parte das janelas da estação. Radical mas deu uma sobrevida a estação".

Em 2015, a estação, a cerca de 135 quilômetros de carro da Capital, continua mais morta do que nunca.Não serve mais para nada. Quem mora ali deve se sentir meio eremita. Iam antigamente de trem para a cidade, trem que não existe mais há quase quinze anos e a estrada que corre paralela à linha é horrível. Já a estrada de acesso que vem da Anhanguera é bem mais curta do que vir da cidade, mas nunca foi pavimentada.

4 comentários:

  1. Não está em ruínas , continua do mesmo jeito desta foto de 2014 https://www.flickr.com/photos/jeffersonconti/14648720105/ .

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  2. Obrigado, Jefferson. Corrigi no próprio texto. Abraços

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  3. O melhor caminho para ir ate Tatu, para quem deseja conhecer, é atraves de Americana, pela estrada da Balsa, ate a ponte que faz a divisa entre os municípios a estrada é asfaltada.

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  4. Como eu disse, é bem mais curto vir da Anhanguera - pelo menos para quem vem de SP - pela estrada de terra. Já fiz o outro caminho.

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