quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

MAIS UMA ESTAÇÃO PARA O CHÃO: VARGEM GRANDE DO SUL, SP

A estação já em faze final de demolição. Não foi difíil, estava tudo podre. A foto é do dia do início da demolição. Foto da Gazeta de Vargem Grande.

Na sexta-feira de manhã, dia 14 de fevereiro último, mais uma estação ferroviária, esta inativa havia já cinquenta e dois anos, foi demolida. Foi a de Vargem Grande do Sul, ponta de um ramal de uma estação só e que saía da estação na linha-tronco da Mogiana, Lagoa, mais tarde Lagoa Branca, situada num bairro rural do município de Casa Branca. Eu soube da notícia no mesmo dia, logo depois de tratores iniciarem o seu arrasamento.

Mandaram-me um e-mail com o link de um jornal virtual da cidade que dizia que a Prefeitura hacia declarado a estação de "utilidade pública" em 1911. Não sei exatamente qual era a intenção, não era nada claro. A família que a comprou (veja abaixo) te-lo-á feito logo depois disso? A estação era da Prefeitura ou já era da família? De qualquer forma, não era um tombamento.

Desde que visitei a cidade pela primeira vez, em 2000, a estação estava em péssimo estado. Tenho até um amigo que mora na cidade desde essa época que cansou de "brigar" na cidade para arrumar interessados, políticos ou não, e tentar salvar o prédio. Desistiu, já há algum tempo.
A estação no dia anterior à demolição (13 de fevereiro de 2014). Foto da Gazeta de Vargem Grande.

É o típico exemplo de cidade que, embora não tenha nascido ao redor da estação ferroviária, fez muito dinheiro e deu muitos empregos na região por causa da existência da linha. O ramal foi construído e aberto em 1909 pela Mogiana e tinha pouco mais de dezenove quilômetros.

Chegou-se a estudar nos primeiros anos seguintes à abertura do ramal um prolongamento da linha até a vila do Espírito Santo do Rio do Peixe, passando por São Sebastião da Grama. Mas não saiu.
A estação logo após a inauguração em 1909.

Enquanto havia café na região e estradas ruins, o ramal foi bem. Nos anos 1950 a situação do ramal já era ruim, com pouquíssima carga e já se falava no fechamento da linha. Finalmente, no último dia de 1960, o ramal teve o trem correndo nele pela última vez. Na época, a Mogiana continuou a usar o prédio como "agência rodoferroviária", ou seja, para receber e enviar cargas eventuais para a estação mais próxima (podia ser Lagoa Branca ou Itobi, ou mesmo Casa Branca). Porém, funcionou por muito pouco tempo e fechou.

Quando lá estive em 2000, o prédio, ou parte dele, era usado por uma oficina mecânica, mas também mantida como se fosse uma favela. Logo depois veio o abandono de vez. A prefeitura parece jamais ter se interessado por ele. Foi um verdadeiro milagres o prédio ter ficado em pé por todos esses cinquenta anos.

Há algum tempo, uma família o adquiriu. E agora o derrubou. Ela tinha esse direito. O que vai fazer lá, nem procurei saber. O último resquício da ferrovia se foi. Não era um prédio bonito: era longo, acomodava tanto a estação de passageiros quanto o armazém, mas a arquitetura era bem típica das estações mais pobrezinhas da velha Comapnhia Mogiana. Provavelmente foi construído e entregue junto com o ramal, não deve ter havido "estação provisória".

Como eu comentei nas redes sociais, para mim, a cidade demoliu mais de cinquenta por cento de sua história. Uma tragédia que parece não ter incomodado a esmagadora maioria dos 39.200 habitantes da cidade. Daqui a poucos anos, quando se perguntar algo do tipo "onde era a estação ferroviária?" vai-se ter como resposta "aqui passava trem?" Triste. A cidade não tem futuro, vivendo de agricultura e com poucos empregos. Nos sites da Prefeitura e da Wikipedia não é citada a data de fundação. No da Prefeitura, nem a história da cidade é contada. Falar em ferrovia? Nem pensar.

O pior é que isso vem acontecendo sem parar. Dentro de cidades, fora delas, estações de fazendas, está tudo vindo ao chão, demolidas ou "caídas" por ação do tempo. Não temos memória, não temos história, não temos uma nação.

Um comentário:

  1. Caro amigo Ralph: triste. Ver abaixo o patrimônio, a memória e um pouco da história me deixa estupefacto. Minha sogra mora a três quadras do referido prédio. Tirei fotos e mandei para o seu blog (tempos atrás) juntamente com a foto da estação de Itobi. Continuemos vigilantes. A luta (e a indignação) continuam! com um abraço, Jorge Machado

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