sexta-feira, 27 de setembro de 2013

O TRAMWAY DA CANTAREIRA, O METRÔ E O TÚNEL DO MORRO DE SANTANA

Folha da Manhã, 26/6/1959

A maior parte dos usuários do metrô paulistano de hoje, incluindo, claro, a linha 1, a mais antiga, que ligava originalmente Santana ao Jabaquara e hoje liga o Tucuruvi ao Jabaquara, nunca ouviu falar que, até 1964, boa parte do trecho da atual linha era percorrida pelo Tramway da Cantareira (1893-1965).

Este trenzinho, que começou como transporte de materiais para a construção da represa da Cantareira e que em pouco tempo tornou-se um trem de subúrbios, foi extinto em 1965 pelo fato de ser "anti-econômico" (termo muito utilizado na época para ferrovias), largando com sua extinção diversos usuários ao léu quando se falava no difícil trajeto a ser percorrido para quem morava lá pelos lados do Tremembé, do Horto Florestal e da Cantareira.

Como a linha 1 do metrô somente te ve a construção iniciada em 1968, mesmo estando sendo discutida havia já décadas (com outros trajetos) e terminou em 1975, quem morava em Santana somente pôde voltar a pegar um trem - agora mais confortável e mais rápido - dez anos depois. Podiam ter feito tudo mantendo o trem antigo provisoriamente, mas não.

Até que os usuários tiveram sorte, pois a maioria das linhas que fecharam no Brasil não deram lugar a nada, inclusive a rodovias.

De qualquer forma, o metrô chegava no morro de Santana e parava. A estação de Santana era a estação terminal e assim ficou por mais de vinte anos. O prolongamento para o Tucuruvi levou mais de uma década para ficar pronta. Começou por volta de 1980 e somente foi entregue no ano de 1998, depois de quase vinte anos de cobstrução.

Para se fazer esse prolongamento, houve de se cavar um túnel sob o morro de Santana, de forma a que se alcançasse as atuais estações Jardim São Paulo, Parada Inglesa (próxima, mas não no mesmo local da velha Parada Inglesa do Tramway da Cantareira. O nome se conservou porque o bairro tomou o nome da velha parada e a estação do metrô, do bairro) e Tucuruvi (esta, praticamente no mesmo local, embora com uma área muito maior, da antiga estação com o mesmo nome do tramway).

Porém, o interessante é que pouquíssima gente sabe que o túnel pronto em 1998 já era una sugestão real e provável para o próprio Tramway em 1959, sugerido pelo engenheiro Orlando Murgel da Sorocabana, dona da linha. O recente aumento das passagens de ônibus da CMTC havia transferido muita gente para o tramway, e a volta para o Tremembé e Cantareira era muito grande e cheia de curvas. Com o túnel, diminuir-se-ia o número de curvas na linha de doze para apenas três. A desvantagem é que se teria de eliminar as estações de Santana (na esquina da Voluntários da Pátria, depois que o trem fazia uma curva de 90 graus para sair da Cruzeiro do Sul, onde hoje está o metrô e seguir para oeste, para depois voltar para o norte contornando o morro), Parada do Quartel, na Alfredo Pujole a de Santa Teresinha. A inclinação da rampa desceria de 3,5 % para apenas 1,5%.

Quem conhece bem o antigo traçado do Tramway, verá que o traçado seria bem diferente do que o metrô faz hoje. A velha linha, depois ou mesmo dentro do túnel, seguiria para oeste ou noroeste, para dirigir-se ao Tremembé, Horto e Cantareira, ao passo que, hoje, o metrô sgue até o Tucuruvi, que ficava no ramal de Guarulhos do tramway, bem como a Parada Inglesa. Mas o interessante é o fato de a ideia do túnel veio da Sorocabana em 1959 e não foi realizada pelo metrô nas obras de 1968-75. Somente ficou pronto em 1998.

4 comentários:

  1. O seu texto está muito bem escrito e eu aprendi muito com ele. Contribuição: Houve uma palavra digitada errada "estinção"

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    1. Erro que não pode ocorrer. Má revisão. Já consertei.

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  2. meus pais se conheceram no trem da cantareira em 1960, namoraram por 6 anos e são casados a 47 anos

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  3. Essa era a linha do "Trem das Onze", do Adoniram Barbosa: "Moro em Jaçanã, se eu perder esse trem, que parte agora às 11 horas, só amanhã de manhã".

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