terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O FIM DO TREM MINEIRO

Fritz Utzeri (Jornal do Brasil, 5/2/2013)
Outro dia li uma notícia sobre a morte de um jornalista de nome Fritz Utzeri. Morreu dia 4 de fevereiro no Rio. Alemão do Schleswig-Holstein, viveu a vida quase inteira no Rio de Janeiro, onde trabalhou por muitos anos no Jornal do Brasil. Nunca havia ouvido falar dele.

Porém, hoje chegou-me às mãos um artigo desse jornal, publicado na edição de 22 de setembro de 1980, enviada por meu amigo Hugo Caramuru, lá das Minas Gerais, escrito pelo Fritz. O cara era bom. Só por essa reportagem, ganhou minha recomendação para o Prêmio Nobel.

Ela é sobre trens, naturalmente. Um mar de lágrimas, mas também uma descrição de como estavam as ferrovias brasileiras - pelo menos a Leopoldina - trinta e três anos atrás. Nós sempre ficamos com a ilusão de que o abandono das estações, edifícios e via permanente somente se iniciava quando os trens de passageiros eram suspensos em determinada linha, mas - ledo engano. A situação já estava ruim mesmo com os trens funcionando.

A reportagem ocupa uma página inteira do jornal, incluindo fotografias. Claro que não vou transcrevê-la. Vou, no entanto, ater-me a certa afirmações nela contidas e a comentá-las. Mesmo assim, o texto deste artigo não será curto.
O único carro do Trem Mineiro, fotografada nesta viagem
O trem que ele tomou era o último que corria naquela linha, alguns dias antes. Ele não disse a data. Pode ter sido no dia anterior ou alguns dias antes. Ele faria o trecho de Barão de Mauá a Recreio, MG. Um bom trecho desta linha eu conheci há poucos meses atrás numa viagem à Zona da Mata mineira. A viagem começou bem cedo em Barão de Mauá. O bilheteiro, acrodado pelo chefe da estação, abre a portinhola e pergunta se Fritz quer bilhete de primeira ou de segunda, mas isto tanto fazia: havia um carro somente e o trem era misto, já havia muito tempo não era de passageiros puro, o que significava que o tempo de viagem era impossível de ser previsto - embora o velho aviso sobre a portinhola dissesse que a hora de saída era 5 horas e a de chegada a Recreio, 18h16m - uma viagem de automóvel, naquela época, já seria feita em, no máximo, quatro horas entre as duas estações. De ônibus, naquela época, tinha-se de tomar três e o preço subia a quase três vezes o do trem, que, pelo menos, ia direto.

O trem era o MK-1, M de misto, K de seja lá o "ke" for. O carro, sujo e fedido, começava a mover-se, "rangendo e estalando". Ainda era noite quando o trem chegou a Duque de Caxias, às 5h55. "Já somos sete (pessoas)". Depois, o chefe do trem chegou para picotar a passagem, que custou Cr$ 134,00 até Recreio. O equivalente, talvez, a uns dez reais, hoje. O trem chegou a Japeri às 7:50. Ia começar a subida da serra. Um senhor no trem dizia que ele andava nesse trem havia quarenta anos e que antes o mesmo era trem expresso, não era misto, tinha até carro-leito e restaurante. Belo contraste. O trem parou em seguida nas estações de Arcadia e de Conrado. Nesta ainda existia um relógio em "oito", típico de ferrovias, e um quadro do Comendador Conrado (Niemeyer).

Na serra, muitas curvas e paisagens bonitas, repetidas com as curvas. Parada em Vera Cruz, onde o sino de partida ainda tocava. Na estação, a conversa de ferroviários versava sobre o mau pagamento da RFFSA ("só paga na justiça") e sobre o fim do trem. Logo depois, o alto da serra. Em Miguel Pereira, Fritz notou que havia 24 pessoas no trem e que a velocidade média até ali havia sido de 23 km/hora. Depois, passa ainda por  estações e paradas como General Zenóbio, Xisto, Cavaru e Werneck. O autor do texto não dizia se parou ali ou não, mas em Paraíba do Sul parou. Finalmente, chegou a Três Rios às 12h51, "105 minutos atrasado", segundo o chefe.

Em Três Rios o trem ganha "novos vagões com sucata, tubos de ferro e minérios. O vagão (sic) de madeira é levado para a frente e para trás em manobras intermináveis". Alguns passageiros saíam do carro para comer, pois era impossível saber a que horas seria a partida. No fim, somente partiu às 2h55. O repórter notava que era difícil ler o nome de algumas estações que estavam quase todas em ruínas. O trem parou então na estação de Anta, onde esperou para que um pai fosse buscar água para o filho em um bar. Em seguida, Sapucaia, estação em sede do município do mesmo nome, espremida entre a cidade e o rio Paraíba do Sul. A cobertura era toda em ferro batido, construída em 1870, cento e dez anos antes. Ali, dez pessoas esperavam para embarcar no trem.
A estação de Simplicio, fotografada nesta viagem. Hoje, somente resta o prédio da esquerda e sem as coberturas da plataforma e também sem telhado. O resto foi arrasado.
Depois, passou pelas estações de Teixeira Soares, Benjamin Constant e Simplício. Nesta última, já abandonada, uma árvore crescia sobre seu telhado. Todas estações isoladas de tudo. Uma passageira comentava que "Pra nós o trem vale muito. Lá onde nós moramos tem umas 5 mil pessoas espalhadas pelas vilas e fazendas. Vamos ficar sem condução. Agora vou ter de andar 17, 18 quilômetros a pé. Não tem outro jeito, né?". Estas localidades estão separadas da rodovia (BR-393) pelo rio Paraíba (Nota: depois de Sapucaia, a linha cruza o rio e entra em Minas Gerais, mas fica espremida ali entre morros e o rio). O trem parava nelas, todas abandonadas e fechadas, algumas já ameaçando ruína. As professoras dependiam do trem para dar aula. Havia um ônibus, mas sem qualquer horário.

Todos ali diziam que estavam pedindo que o trem continuasse fazendo o trecho de Três Rios a Recreio, pois ali havia trens de minério diários (nota: os mesmos que existem até hoje, passando pela mesma linha). "Era só escolher dois e engatar este velho vagão no fim da fila. Não custa nada"). Como vejo hoje, pedidos recusados. O trem se aproximava de Porto Novo do Cunha quando já anoitecia, bastante atrasado, portanto. Dentro da estação já dava para ver que estava tudo abandonado; o piso do segundo andar de um dos prédios já havia ruído e havia portas e paredes suspensas no ar.Dessa época até hoje, só piorou. O prédio é de 1871.

Como está escuro e não havia no luz no carro, o chefe acendia uma vela. As sombras projetadas eram assustadoras. Às sete e quinze, o trem chegou a Volta Grande. Depois a Providência, onde "o trem parado faz tanto silêncio que é possível ouvir o bater das bolas de sinuca num bar, do outro lado da praça". Afinal, chegou a Recreio, sem apitar quando entrava na cidade, com chuva e com o chefe pegando a vela para acordar os passageiros. Eram 9h12. O fim dos trens do Rio para Recreio, chamado "Trem Mineiro".

Trinta e três anos se passaram. Fiz de carro o trecho entre Três Rios e Recreio no final de outubro do ano passado. Entre Porto Novo e Recreio, havia cinco estações, todas ainda em pé, uma delas somente em más condições: Providência. Nota-se claramente que a condução para o pessoal que mora nessas vilas e cidades é precária. O caminho é praticamente todo de terra e os ônibus continuam sem horário, fazendo uma poeirada que só vendo. O trem de minério, com cerca de 40 vagões, continua passando. Sem carros de madeira no fim, claro.

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