quinta-feira, 12 de julho de 2012

LUGARES ESQUECIDOS: CARDOSO DE ALMEIDA EM RELATOS

O casarão em dezembro de 2010. Fotos minhas.

Os lugares esquecidos: esquecidos pela história, pelo tempo, pela vida.

Nas minhas peregrinações pelo interior do Estado de São Paulo, à procura de material para minha pesquisa sobre ferrovias, encontrei vilas ferroviárias e fazendas em situações de todos os tipos: cidades-fantasma, colônias de fazenda prestes a serem demolidas para se plantar cana, como se fossem salgar as edificações em ruínas tal quel se fez em Cartago mais de dois mil anos atrás. Não é fácil entender o motivo do abandono de pequenas construções que, com arquitetura na maioria das vezes muito simples, continuam a ser belas em suas ruínas, quando numa época em que várias pessoas não têm casa para morar ou terras para cuidar.

Um dos maiores crimes contra a humanidade cometidos no século XX é pouco percebido e comentado: o êxodo rural. Em 1930, 70% da população brasileira vivia nas áreas rurais. Hoje, 2012, esse número caiu para cerca de 20% ou até menos. Ninguém ganhou com isso, Pobreza e violência extrema nos centros urbanos são uma consequência desse êxodo que incha as cidades. Mesmo cidades pequenas, com menos de 10 mil habitantes estão sofrendo hoje com esses tristes fenômenos. Os governos, tanto o federal, como os estaduais e municipais fazem questão de fingir que isso não existe e em alguns casos até incentivam a migração para centros com maior densidade populacional.

Nos lugares esquecidos, locais que um dia já tiveram muito mais vida e esperança, a história se confunde. Vilas misturam-se com fazendas, fazendas com outras fazendas por divisões por motivos de herança ou venda de propriedades. Sua história é passível de inúmeros erros e de situações que se mesclam com outras, tornando tudo às vezes muito nebuloso.
A parte traseira do casarão em dezembro de 2010.

Um exemplo é Cardoso de Almeida, em Paraguaçu Paulista. A vila nasceu em 1915 com o nome de Caramuru, sendo no início apenas uma estação de trem da Sorocabana num lugar em que não havia nada. O nome foi logo alterado para Cardoso de Almeida. Em 2002, a estação foi demolida, sobrando o armazém e uma casa de turma. O lugar todo está abandonado. Não se vê ou ouve alma viva ou voz alguma. No local existe um enorme casarão, totalmente abandonado.

Paulo Leuzzi, neto de José Giorgi, construtor da Sorocabana e do casarão por volta de 1908, lembra que ela era a sede da Fazenda Pouso Alegre, dos Giorgi. Em 1924, o casarão foi tomado e incendiado pelos homens da Coluna Prestes que se retiravam de São Paulo após a expulsão pelas tropas governistas. A partir de Botucatu, roubaram e saquearam diversas estações e cidades até chegarem a Porto Epitácio, no rio Paraná. Desde então, José Giorgi, desiludido, abandonou a casa. Ainda pertence à família. No final de 2010, quando lá estive, uma parede estava no chão.

Fábio Vasconcelos ficou tão impressionado com o casarão que seu primeiro impulso foi se aventurar dentro dele. O casarão estava totalmente abandonado e até um velho Karmann-Ghia estava lá dentro. Pela sua imponência, imaginou que o local já havia sido bem movimentado. Somente depois de quase uma hora surgiu um senhor meio desconfiado, dizendo ser o dono do local. Ele confirmou a demolição da estação, disse que o casarão havia pertencido a seu avô e que havia sido atacado na Revolução de 24, tendo ficado abandonado desde então.

Douglas Razaboni soube que na casa de turma nascera um seu tio, Pedro Figueiredo, já falecido. Seu pai, João Figueiredo, fora ferroviário e outro tio viera a ser telegrafista da ferrovia. Um pouco antes da morte do tio, seus primos o levaram para Cardoso de Almeida, e ele te-lo-ia reconhecido como a casa de sua família.

José David de Castro afirma que Cardoso de Almeida pertencia à família de José Giorgi. Seu avô, David Ferreira de Castro, fora gerente (capataz) de 1924 até se aposentar em 1969, tendo ali um pequeno pedaço de terra. "Vivi aí todas as minhas férias de infância até meus 15 anos, em 1965. Residiam na fazenda, que ficava cerca de 500 metros atrás da estação: meu avô e avó, quatro de meus seis tios (muitos deles aí nascidos), além de primos e primas. Somente um morava em Assis nessa época, uma tia em Registro e meu pai que desde os 13 anos trabalhava na EFS, começando como telegrafista em Mairinque, depois São Roque e também algum tempo na Mairinque Santos, vindo depois para a ex-Ytuana onde se aposentou como chefe de movimento. Claro que evoco essa época com muitas saudades: caçadas, pescarias - existia aí um manancial que formava um lago bem pertinho de um pontilhão da linha da EFS, por onde os bois transitavam pelos pastos e muitas brincadeira de por pedras nas linhas para ver o trem passar por cima.

"Também era fantástico o embarque do gado. A boiada vinha para o piquete e o trem encostava de costas no travessão, onde o gado era embarcado nas gaiolas pela porta traseira delas. E eram muitas ou assim me parecia. Como o travessão era relativamente curto, algumas gaiolas ficavam na linha 2 e conforme as gaiolas iam lotando, havia um remanejamento entre as lotadas e vazias. E isso tomava bastante tempo. Quanto ao casarão, ele era a sede da fazenda mas realmente ninguém morava lá e já na época de minha infância, o aspecto era sombrio, meio cinza ou avermelhado sujo escuro, em quase que total abandono, pelo menos a mim assim o parecia. A parte de baixo (era um sobrado) era utilizada pelo meu avô como depósito de materiais da fazenda (enxadas, etc...).

"Curiosamente, nunca subi aqueles degraus nem nunca vi a casa por dentro. Mas recordo-me das grades de ferro fundido e todo trabalhado que cercava a escada e a varanda na parte de cima. A explicação para não conhecê-la é simples: meu avô era extremamente rígido e não permitia brincadeiras de criança naquele espaço.
A igreja e o coreto em dezembro de 2010

"Em algum momento ouvi comentários que a fazenda ia de Cardoso a Santa Lina, o que, se for confirmado, dá uma certa importância a ela. Somente meu avô e um tio moravam em Cardoso em casas de alvenaria (lado a lado, no final da única rua de terra, também a rua da sede da fazenda). As poucas outras casas da rua eram todas de madeira, cedidas pela EFS mediante pagamento. Eram todas iguais. Entre as primeiras casas de madeira e a sede da fazenda havia um bebedouro para os tropeiros que constantemente por lá passavam dessedentarem seus animais.

"Não sei se isso ainda existe ou se ficou algum vestígio disso. Sei que a igreja do local que não tinha padre fixo no local, nem um caminho definido, estava constantemente aberta e ficava mais ou menos 500 metros atrás da casa de meu avô cujo quintal não era pequeno. Lembro-me da criação de suínos e patos/gansos (estes tinham uma área alagada especial e também uma fonte, só para eles), do pomar (limite posterior da casa), da horta e do paiol, onde era armazenado o milho. As casas de meu tio e de meu avô eram separadas em parte por uma cerca de madeira em ripas e em parte por uma sebe, onde frutificavam carambolas e outras frutas silvestres - amoras e uvaias. No meio disso, um portão de madeira, que abrigava constantemente sob o arco, aquelas abelhas que pegam nos cabelos - as irapuás. Eu fui vítima delas algumas vezes, mesmo tomando as precauções necessárias.

"Meu avô, apesar de rígido, bronco e muitas vezes estúpido, nunca permitiu que derrubássemos aquela colméia. Ele tinha já nessa época um cuidado especial com a natureza. Em nossas caçadas, que eram permitidas, a recomendação era: não matem mais do podemos comer. As caçadas normalmente eram feitas em 5 pessoas: dois tios, meu pai, eu e um primo. Lembro-me da espingarda que era destinada para mim: uma Pipper Bayard. Não sei o calibre, mas era de cartucho. A caçada normal que eu podia acompanhar era de pássaros (normalmente nhambú e codorna) e sempre diurnas. As noturnas ou mais perigosas (capivara etc...) eu e o primo não tomávamos parte. Só ficávamos na expectativa.

"Os meses de férias eram de festa, já que todos apareciam por lá: meu pai, o tio de Assis com a família e a tia de Registro, também com a família. Também apareciam durante as noites as famílias das namoradas dos outros tios e ficava-se jogando truco até tarde da noite. Apesar de casas de alvenaria, existiam apensos de madeira. Na casa de minha avó, a cozinha era interna, mas com fogão de lenha. O pão era feito uma vez por semana na cozinha de fora de madeira que tinha além do fogão de lenha, um forno de barro e que tornava o pão delicioso. O bule de café de ágata verde era mantido o dia inteiro no fogão, para quem chegasse, não importando se fosse ou não da família. O café era torrado e moído na fazenda.

"O arroz era separado em peneiras de palha, onde com o atrito de jogá-lo constantemente para cima, perdia a casca, que era constantemente assoprada, idem para o amendoim. E isso (assoprar) também era uma de nossas (netos) atribuições. Outras atribuições: salgar (sal grosso) o couro do porco abatido e pendurá-los em trapézios que ficavam em cima do fogão do apenso de fora. Além de salgados eram defumados.

"Mais outras: ajudar na confecção do sabão (soda cáustica - isso não era exatamente nossa, gordura de porco e cinzas do fogão), desempalhar o milho e aguar no final da tarde a horta. O restante do dia era ocupado com brincadeiras, caçadas ou pescarias, ou até mesmo colheita de guabiroba. Para quem não conhece, muito semelhante à jaboticaba, porém verde e sabor peculiar. Quando gelada, era ótima. Isso em memórias. Hoje não saberia dizer que gosto tem. Só que os dias naqueles tempos eram compridos. Fazíamos tudo, felizes e divertidos, sem imaginar o quanto a vida mudaria. O quanto hoje esses dias passam rápidos, sem termos a sensação de termos feito algo produtivo. A vida acelerou por demais."

2 comentários:

  1. Preciso, Ralph, preciso! A vida de fato acelerou por demais. Parabéns pelo post. Um abraço. Machado

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  2. Parece até que a parte posterior do prédio sofreu um bombardeio. Verdadeira pena que se encontre assim.

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