terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

OS BONDES DE SÃO PAULO (1966)


Diario Popular, 10/6/1966

Difícil saber o que exatamente se passava na cabeça dos prefeitos de São Paulo, principalmente a partir do início dos anos 1960, para acabar com os bondes elétricos na cidade.

Eu me lembro de andar de bondes a partir de 1957 e 1958. Andava neles, mas somente em algumas linhas. Na linha dos meus sonhos, que eu conhecia por cruzar seus trilhos (com meu pai dirigindo, claro) quando ia para a Vila Mariana, Moema, Campo Belo, Alto da Boa Vista) e que era a linha de Santo Amaro, linha que não era original da Light, eu jamais andei. Pena.

Outras linhas por onde eu andei: avenida Paulista, rua Domingos de Moraes, avenida Doutor Arnaldo... todas na zona sul e oeste. Havia outras linhas que eu conhecia por passar por onde elas corriam, mas não por nelas trafegar de bonde, como a rua Pamplona e rua Veneza, rua Teodoro Sampaio, as linhas no centro da cidade, rua da Consolação (nesta trafeguei, lembro-me agora), rua Guaicurus, rua Cardoso de Almeida, avenida São João, rua Augusta (embora os bondes tenham sido retirados em 1952, seus trilhos ficaram lá por um bom tempo e eu perguntava para meu pai: "porque esta rua tem trilhos, mas não tem bondes?"

E outras linhas que vi e andei, mas das quais provavelmente não me recordo mais hoje.

Andei de bonde aberto na Domigos de Moraes e vi aqueles cobradores que andavam no estribo e com notas dobradas entre os dedos. Andava muito de bonde com minha saudosa tia Angelica (1897-1993).

Quais foram os critérios para esses prefeitos (principalmente Prestes Maia) acabarem com essas linhas num período tão curto de menos de dez anos? Bom, Prestes Maia vivia dizendo que bondes, trens (de qualquer tipo, suburbios ou no interior) e até metrô - que a cidade ainda não tinha "eram coisas do século passado (no caso, o XIX). As constantes obras de alargamento e construções das sonhadas superavenidas dos sonhos de Maia também eliminavam os trilhos; no início, eram recolocados depois das obras - a partir de um dado momento, eram retirados e jamais devolvidos aos seus leitos.

Nos anos que se passaram desde o extermínio, foram surgindo trilhos debaixo do asfalto, como na avenida Ibirapuera, rua Teodoro Sampaio, rua Veneza, avenida Adolfo Pinheiro e a imprensa noticiando como se fosse algo totalmente esquecido pelas pessoas A última linha fechada foi a lendária São Paulo-Santo Amaro, que, por ironia do destino, foi a primeira linha construída em São Paulo que usava tração não animal (as linhas eram puxadas a burros, no período de 1862 até 1905) . A Light, quando entregou as obras do primeiro bonde elétrico em São Paulo em 1900, quase que ao mesmo tempo comprou a linha da E. F. São Paulo a Santo Amaro, conhecido como Tramway de Santo Amaro, então um município na época (foi anexado por São Paulo em 1935). Ela utilizava bondes a vapor que foram aos poucos sendo convertidos em elétricos pela Light.

A Light, que tanto xingam, alguns com razão, outros sem, ah, se não fosse ela, não teríamos tido bondes elétricos ou, no máximo, por muito tempo ainda teríamos tido bondes a burros ou uma miríade de outras linhas independentes, talvez uma pior que as outras... Os bondes precederam bairros, em alguns casos: Moema, Campo Belo, Cidade Jardim, Bosque da Saúde, entre outros.

Bom, afinal, quais foram os reais motivos da retirada dos bondes até o final dos anos 1960? Simplemente a preferência pelos ônibus a diesel (ou até elétricos) nas superavenidas construídas e que jamais conseguiram realmente resolver os problemas do trânsito de São Paulo? Afinal, os trilhos prejudicavam o asfalto ou paralelepípedos? Os ônibus davam realmente menos manutenção neles e nas ruas por onde passavam? Não poderiam eles terem convivido com os bondes?

No final, teria sido tudo um problema de dinheiro e eventuais proponas dentro e fora da CMTC, empresa municipal criada em meados dos anos 1940 para coordenar o trânsito? As ruas ficaram com menos buracos que sem os bondes? Fora tudo simplemente um problema de se economizar em manutenção de ruas e veículos que jamais melhorou?

Joguem suas fichas, senhores.

2 comentários:

  1. Olhando hoje, vi que andei muito pouco nos bondes de SP... a linha era mais distante do que as avenidas por onde passavam os ônibus para Sancto Amaro (principalmente) ou para a Cidade (como o Centrão era então chamado). As poucas vezes em que andei foi por insistência minha e pela paciência de meu pai em me atender. Ainda assim, só me lembro da linha de Sancto Amaro.

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  2. Bom dia meu caro Ralph , sou usuário diário do metrô do Recife e passo todo dia pelo trajeto da lendária estrada de ferro Recife ao São Francisco que atuamente opera com TUEs atravessando a cidade do Recife e Jaboatão , sendo o restante do trecho, da cidade Jaboatão ao Cabo de Santo Agostinho operado por VLTs da empresa bom sinal.

    Uma coisa interessante a se notar é que enquanto as estações de metrô são verdadeiras fortalezas, as estações de vlt se encontram em estado de semi-ruína, em muitos pontos não existe protenção alguma dos trilhos e as pessoas simplesmente sobem na plataforma e usam o serviço sem pagar nada por isso.

    Essa evasão de renda que observo diariamente junto ao meus estudos recentes sobre a história ferroviária do Brasil me fizeram questionar se a evasão de renda também não possa ter sido um fator determinante para o declínio do transporte ferróviário de passageiros no Brasil.

    Hoje estações ferróviarias por mais simples que sejam ainda parecem ser mais seguras em termos de evasão de renda do que as estações antigas que em sua maioria eram simples casebres com plataformas baixas que qualquer pessoa poderia pular.

    Nos próprios bondes era comum que as pessoas se pendurassem e fizessem todo o trjeto sem pagar um centavo por isso e ainda sobrecarregavam as sistemas de suspensão dos mesmos acarretando em quebras frequentes e encarrecendo o cultos da operação dos mesmos por conta de manutenção.

    Queria saber sua opnião sobre esse tema, já que você tem anos de estudo e vivência em tudo que tange o tema de transporte ferroviário.

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