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segunda-feira, 12 de setembro de 2016

A HISTÓRIA DA PONTE DE FERRO DA RUA BUTANTAN (1865 - c.1943)

A ponte do rio Pinheiros na enchente de 1929

Em 1864, já existia uma ponte sobre o rio Pinheiros. Era, quase que certamente, de madeira, como praticamente todas as pontes da época, e ligava os dois lados da rua do Butantan (a parte do outro lado do rio chama-se, desde os anos 1940, rua Lemos Monteiro). Pelo visto, esta ponte estava em péssimas condições nesse ano, tanto que pelo menos dois empreiteiros foram chamados para consertá-la: Marcellino Gerard, que recebeu 880$000 (oitocentos e oitenta mil réis) para isso em maio desse ano e, posteriormente, Francisco Corrêa Cepellos, mais 20$000 em outubro. Notem a diferença de valores. 880 mil réis era muito dinheiro na época.

Os consertos, ao que se descrevia, não foram suficientes para resolver os problemas, pois, mesmo depois disso, o Presidente da Província, em novembro de 1865 o Sr. João Carlos da Silva Telles, pedia que novos reparos somente fossem feitos se fossem absolutamente necessários para que o transporte sobre ela não sofresse interrupções, porque a nova ponte estava para chegar. Essa ponte, afinal, era considerada fundamental para o tráfego da que era a mais importante estrada da Província e levava para cidades como Cotia e, principalmente, Sorocaba.

Uma nova ponte já havia sido encomendada por um Presidente anterior, Vicente Pires da Mota. Vale ressaltar aqui que os presidentes mudavam muito rapidamente durante o Império, sem eleição, mas indicados pelo Imperador. Uma lista aqui facilitará um pouco quais foram os ocupantes do Palácio desde que a ponte foi pedida até o final de 1866: Pires da Motta (16/10/1862 a 3/2/1864); Manoel Joaquim do Amaral Gurgel (3/2 a 8/3 1864); Francisco Ignacio Marcondes Homem de Mello (8/3 a 24/10/1864); Joaquim Floriano de Toledo (24/10 a 7/11/1864); João Chrispiniano Soares (o Conselheiro Crispiniano, 7/11/1864 a 18/7/1865); Joaquim Floriano de Toledo (18/7 a 3/8;1865); João da Silva Telles (3/8/1865 - 3/3/1866) e, pela 3a vez, Joaquim Floriano de Toledo (3/3 a 8/11/1866). Todos se tornaram nomes de rua em São Paulo.

A nova ponte veio de Londres e quem intermediou sua compra pelo Governo da Província foi o Sr. John James (ou Jacques) Aubertin, um inglês que, na época, parecia ter como principal trabalho um cargo na São Paulo Railway, que estava em construção. Ele, no entanto, também estava participando como consultor ou algo do tipo na instalação dos imigrantes americanos que estavam se mudando para a cidade de Santa Barbara, na época, ainda parte de Piracicaba. São aqueles americanos do sul derrotados na Guerra Civil e que se mudaram para o Brasil, em grande parte para um longínquo rincão no município de Campinas, mais tarde chamado de Villa Americana e, hoje, município de Americana.

Outro detalhe: o nome de Aubertin era escrito como John James ou John Jacques - James e Jacques têm a mesma origem e são, basicamente, o mesmo nome. Dependendo da língua, os reis James da Inglaterra eram chamados de reis Jacobos também.

Aubertin não somente fez o processo de importação da ponte de ferro, como também tratou para que ela fosse dispensada de impostos, "pagamentos de direitos alfandegários". A ponte, que veio desmontada em 117 peças, pesava 38 toneladas - não se sabe, aqui, se eram toneladas métricas ou toneladas curtas, que equivaliam a 2.000 libras. A diferença entre uma e outra não era tão grande assim, no fim das contas. A ponte saiu, para a Província, 6:593$680 (seis contos, quinhentos e noventa e três mil e seiscentos e oitenta réis). Pelo menos foi isto que Aubertin recebeu, O valor era a soma do preço da ponte em si, mais a sua comissão e o frete para trazê-la da Inglaterra.

A ponte chegou no navio "Loto" em 11 de novembro de 1864. Em outra nota, o navio seria o "Santa Maria" e a chegada da ponte teria sido em 12 de dezembro, portanto, um mês depois. Por que as diferenças de informações? Agora, teria de seguir para São Paulo - Joaquim Luiz Pisarro, coletor em Santos, foi incumbido de providenciá-lo. E o transporte demorou. Acabou acertado em 1:800$000 (1 conto e oitocentos mil réis) e começaria em 14 de fevereiro de 1865, feito por Joaquim Antonio da Silva. A ponte deveria estar em São Paulo no final desse mês.

A partir daí, o Presidente da Província encarregou o engenheiro Prudent de orçar as depesas de instalação da ponte de Pinheiros e também da ponte Grande de Santana (teria esta chegado junto no navio?). Prudent teria de inspecionar os pegões e pilares da ponte velha, pois eles seriam usados também para a ponte nova (a de Pinheiros e a de Santana) e fazer a licitação para a colocação já considerando alvenaria, empedramentos, entulhos, aterros e carpintaria.

Somente em 9 de maio de 1865, o Presidente João Chrispiniano Soares e o empreiteiro João Rheinfrak assinaram o contrato para a construção da ponte. Rheinfrank teria de fazer a superestrutura da ponte, adaptar os pegões e pilares já existentes, providenciar madeira para o assoalho da ponte e também construir uma ponte provisória ao lado da nova para que o trânsito entre os dois lados do rio não fosse interrompido durante a obra.

Apesar de alguns problemas no transporte entre o porto e São Paulo que acarretaram atrasos, desde 26 de abril a ponte já estava entregue em Pinheiros, com atraso de quase dois meses.

Em 15 de agosto, o engenheiro fiscal da São Paulo Railway, Ernesto Diniz Street, atesta que a obra da ponte está indo bem. Marcellino Gerard é contratado para construir três bueiros pontilhões de esgoto em alvenaria de tijolos para substituir os velhos pontilhões de esgoto que estavam no aterrado de Pinheiros (que dá caminho para a ponte). Seriam estes bueiros a origem dos emissários que ainda nos anos 1930 existiam nesse aterrado (e que daria origem nos anos 1940 a uma série de ruas, sendo as principais a continuação da avenida Rebouças e a avenida Eusebio Matoso, que seguiria até a ponte de Pinheiros reconstruída nos anos 1940)? Até hoje há uma pequena rua ali que se chama rua do Emissário e que foi construída nos anos 1940 exatamente sobre o caminho desse emissário.

Como curiosidade: Marcellino Gerard também construiu a capela de Pirapora do Bom Jesus que existia nessa cidade em 1875.

Em 16 de setembro de 1865, a ponte estava pronta. Faltava somente alguma pintura e igualar os pranchões do assoalho.

A ponte ficou boa. Boa o suficiente para aguentar diversas inundações do rio, inclusive a grande inundação de fevereiro de 1929. A ponte foi desmontada e retirada do local, depois de substituída por uma nova, em ano não determinado, mas que deve ter sido por volta de 1943. Sabe-se, por uma nota no jornal, que em fevereiro de 1940 a ponte já estava em construção. E mais: um mapa dessa época (1940-43) mostra as duas pontes no local: a de ferro e a de concreto, cuja data de inauguração jamais consegui encontrar. Também é importante ressaltar que a ponte velha ligava os dois lados da rua Butantan e a nova ligava a avenida os dois lados da então novíssima avenida Eusebio Matoso. Portanto, elas terem convivido por algum tempo não era nada estranho.

(Atualizado em 18/8/2018)

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

COMO ERA SÃO PAULO EM 1378 D.C.?


Eu estava aqui, pensando... sempre lendo sobre o Brasil, a Europa (principalmente) e ainda outros lugares, continentes, países...

A Europa sempre me impressionou, li e leio muito sobre ela, mas quantas vezes estive lá? Tenho sessenta e dois anos e fui à Europa apenas duas vezes em minha vida, onde passei não mais do que duas semanas por vez. Os países em que mais tempo estive, pela ordem, foram Itália, Alemanha, Inglaterra, Holanda, Austria e Espanha. Nenhum outro. Em média, foram 2,7 dias em cada país.

É pouquíssimo, considerando a área da Europa, pouco maior do que a do Brasil, e o número de países que a formam. Fui muito mais aos Estados Unidos, mas não me impressiono tanto com a história deles.

A última vez que estive nos Estados Unidos foi em 1994. Na Europa, em 1995 e neste caso sempre a serviço.

Depois disso, por uma série de fatores, não saí mais do Brasil. Meu passaporte expirou em 1993 e somente renovei-o na semana passada. Foram onze anos sem precisar de passaporte. Porém, agora, tenho uma filha morando na Itália, então... falta só o dinheiro e tempo para ir.

Não saindo mais do Brasil a partir de 1995, comecei a viajar por ele, a serviço ou não. Ainda estou longe de conhecer todo o Brasil e provavelmente nunca o conhecerei. Mas posso dizer que gostei da maioria dos locais que conheci nestes últimos dezenove anos.

O que me impressiona na Europa é a civilização, bem antiga. Há inúmeras cidades que são mais do que centenárias, até milenares.

E por aqui? As cidades mais antigas têm pouco mais de 500 anos e mesmo assim há dúvidas sobre essas datas. (Itanhaém, Cananeia, São Francisco, em Santa Catarina, por exemplo). O primeiro município brasileiro criado pelo governo português tem menos de 500 anos. É São Vicente, em São Paulo, de 1532. A cidade já existia antes. E olhe - como se caracteriza uma cidade, vila ou povoado? Difícil, não?

E é nisto que eu "estava aqui, pensando"... São Paulo foi fundada em 1554. Foi mesmo? Os jesuítas chegaram aqui no planalto em 1554. Há quem diga, burocraticamente, que São Paulo foi fundada mesmo em 1553. Como? Ora, em 1553 João Ramalho, aquele português que andava com os índios do litoral havia décadas foi quem resolveu subir a serra e fundar Santo André da Borda do Campo (nada a ver com a atual Santo André)..Só que, em 1560, a sede do município (caracterizada pela forca e pelo pelourinho) foi mudada de Santo André para São Paulo (municípios nessa época eram chamados de villas).

Ora - o raciocínio é "lógico": se São Paulo passou a ser a sede de uma vila fundada em 1553, então ele teria um ano a mais! Está bem, vamos aceitar a teoria. Mas, podemos?

São Paulo estava num ponto estratégico, no alto de uma colina de onde se via o rio Tamanduateí e até, ao longe, o Tietê. Tinha-se uma boa vista da planície por onde chegavam os inimigos - outros índios. Daí o nome da rua da Boa Vista, que somente tinha casas do lado esquerdo de quem seguia do Colégio para a aldeia do Cacique Tibiriçá (Largo de São Bento). A partir da hora em que começaram a construir casas do lado direito, e mais recentemente, prédios encostados um nos outros, a Boa Vista acabou - ficou o nome da rua. Milagrosamente não o trocaram, como fizeram com tantas ruas mais do que centenárias de São Paulo.

Os meus pensamentos, no entanto, vão mais além - Tibiriçá não era nenhum mocinho quando foi encontrado ali em sua taba. Já estava ali havia um bom tempo. Ele também estava na parta alta, olhando o rio Anhangabaú lá em baixo, esperando os inimigos. Quantos deles Tibiriçá terá derrotado? Ou nenhum, por que eles talvez nunca tenham aparecido?

Se a taba de Tibiriçá não estava isolada, e não deveria estar, aquilo não poderia ser considerado um povoado, uma cidade? Teria um nome? Piratininga, talvez? Há quanto tempo estavam ali a família, os antepassados de Tibiriçá? Dois anos? Trinta anos? Cem? Quinhentos? Os guaianazes, chefiados por Tibiriçá, eram nômades? Ou já havia povoações ali faria tanto tempo quanto as havia nas cidades europeias?

O modo de vida era completamente diferente de um europeu e de um guaianá, mas a verdade era que ambos eram seres humanos e ambos precisavam de um teto para se proteger do frio, do calor, da chuva.

Sabe-se que a rua da Consolação passou a ser o caminho para Pinheiros a partir da época em que esta aldeia foi fundada, em 1560. Depois, para Sorocaba, pois ia-se por ali também. Mas a trilha Tupiniquim, parte da rede de estradas chamada Peabiru, já existia desde... quando? A Trilha Tupiniquim, dizem historiadores, era a própria rua da Consolação - sem a largura de hoje, sem as construções de hoje, sem os trilhos de bondes que vieram e foram embora, sem canteiro central. Depois, o caminho seguia pela atual Rebouças, depois pela rua de Pinheiros, depois pela rua Butantan, Vital Brasil, Corifeu e depois estrada de Itu, que depois se bifurcava para Cotia e Sorocaba... e para o Paraguai, para o Peru.

Não tirei o que escrevi aqui da minha imaginação. Tirei de literatura que li durante décadas. Podem estar corretas ou não - mas não podem estar tão erradas.

Então, nós, que hoje levamos a pé umas duas horas para ir do centro a Pinheiros, mas não fazemos isso porque temos de subir uma enorme ladeira na ida e porque temos automóveis e preferimos ficar parados no trânsito - talvez até em mais de duas horas, dependendo do dia, de qual é o protesto do dia - nós, que hoje podemos pegar o metrô, que segue o Peabiru até a igreja de Pinheiros, ou o corredor de ônibus da Rebouças e Consolação, que a partir do rio Verde (esquina da Rebouças com a Brasil), deixa de seguir o Peabiru, pois não segue pela rua de Pinheiros, nós, que precisamos percorrer hoje uma cidade monstruosa que tem doze milhões de habitantes e que, se existisse no ano 1000 (será que não existiria?) teria quantos habitantes?

Impossível calcular. Quantas aldeias desaparecidas podem ter ocupado a área entre o ano 1000 e 1554? Quantas respostas jamais teremos? É até frustrante, mas nada podemos fazer, a não ser que alguma surpresa apareça de forma surpreendente (juntamos aqui duas surpresas) e nos revele como era São Paulo na primeira metade do segundo milênio depois de Cristo.