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sábado, 11 de fevereiro de 2017

SÃO PAULO: ESTE PONTILHÃO NÃO DUROU VINTE ANOS

Foto recebida como tendo sido tomada em 1952. Autor desconhecido.

Deparei-me outro dia com o anúncio da inauguração, no dia 15 de novembro de 1952, de um pontilhão sobre "a passagem de Moema". Sobre esta passagem, passavam os trilhos do saudoso bonde de Santo Amaro.
"O Estado de S. Paulo", 15/11/1952

Mas, afinal, qual seria esta "passagem de Moema"? Onde estaria localizada? Eu conheci a chamada "linha do bonde" que seguia pelo retão das hoje avenidas Ibirapuera e Vereador José Diniz, ligando a Vila Mariana a Santo Amaro, e, além dos pontilhões sobre alguns córregos, entre eles o da Traição e o das Águas Espraiadas, o único pontilhão sobre uma via transitável que existia era justamente o que estava próximo à antiga junção da avenida Ibirapuera e rua França Pinto e que é mostrado nesta bela foto, cuja data citada por quem a postou era 1952 - exatamente o ano da inauguração da tal passagem.

Seria esta da fotografia acima?

Por um lado, só pode ser, porque é a única - por outro lado, ela era, sem dúvida, uma passagem para Moema, mas a rua que foi feita sobre ela, que, na época, era a Professor Ascendino Reis (antiga rua Nova), não era a avenida Indianópolis, citada pelo jornal (veja a reportagem mais acima). Sem querer aqui ser o "dono da verdade", o jornal errou o nome da rua, realmente.

Situação hoje das ruas no local do pontilhão - que não existe mais. Lembrar que a av. Quarto Centenário era uma continuação da rua França Pinto e que tinha o nome desta rua antes de 1954. (Google Maps, 2017)
Curiosamente, porém, a avenida Ascendino Reis era, na época, segundo mapas dos anos 1940, uma espécie de continuação da avenida Indianópolis, sim - se for considerado que ela começava (hoje não é mais assim), pelo mapa, exatamente onde a avenida Indianópolis fazia (e ainda faz) uma curva para a direita, logo depois de cruzar a alameda dos Anapurus, sentido Ibirapuera-Jabaquara.

Enfim, se alguém quiser contradizer o que escrevi, que se sinta à vontade para tal.

O tal pontilhão, sob o qual lembro-me de ter passado de carro inúmeras vezes, foi demolido no final dos anos 1960, quando da modificação daquele sistema viário causado, em parte, pela retirada dos trilhos do bonde, que encerrou suas atividades no mês de março de 1968. Não durou nem vinte anos a pontezinha.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

ENGANOS EM FOTOGRAFIAS NA INTERNET: UM PROBLEMA PARA A HISTÓRIA

Fotografia tomada no trajeto da antiga linha de bondes de Santo Amaro, em São Paulo (autor desconhecido).

Recentemente uma pessoa postou num grupo do Facebook uma fotografia a qual eu não conhecia.

Tratava-se de um bonde elétrico da Light. A mesma pessoa escreveu que a fotografia era de 1968 e que havia sido tirada na avenida Conselheiro Rodrigues Alves em 1968. Pode ser, realmente. O local não é tão fácil de ser identificado. A fotografia está no topo deste artigo.

Na verdade, eu não sei onde foi tirada: se tivesse de opinar, diria que o local da foto seria no cruzamento da atual avenida Vereador José Diniz com a rua dos Brasões, no Alto da Boa Vista (notem que na avenida, havia somente a linha do bonde e pouco espaço para tráfego local). O local citado por mim hoje é bastante diferente. Porém, pode ser outro local, até próximo do Parque Ibirapuera, onde a avenida por onde o bonde passava se chamava avenida Ibirapuera (e ainda se chama hoje) - se alguém quiser opinar, esteja à vontade.

Algumas pessoas disseram, então, que a fotografia teria sido tomada na avenida citada, mas junto do largo Ana Rosa. Esta era uma opção não válida. Motivo: a rua não era calçada. Os trilhos realmente passavam em trechos não calçados da avenida Ibirapuera e da Conselheiro Rodrigues Alves. Portanto, como o bonde era típico dos que passavam pelas duas avenidas no sentido de Santo Amaro, a foto teria sido tirada em algum lugar nessas vias.

Acontece que, até 1974, existiam duas avenidas Conselheiro Rodrigues Alves: uma na Vila Mariana (começa no largo Ana Rosa e termina na confluência das ruas Joaquim Távora, Tangará e avenida Ibirapuera) e outra em Santo Amaro (começa na confluência da avenida Adolfo Pinheiro e rua da Fraternidade e termina na avenida dos Bandeirantes). E a linha de Santo Amaro passava nas duas avenidas com o mesmo nome.

Anúncio publicado em 4/12/1974 mostrando que a avenida já havia trocado de nome (jornal O Estado de S. Paulo).
Em outubro de 1974, a avenida que ficava em Santo Amaro teve o nome alterado para o de Vereador José Diniz - nome utilizado até hoje.

Anúncio da morte do vereador, falecido em 5 de janeiro de 1973, quase dois anos antes da mudança de nomes em homenagem a ele (O Estado de S. Paulo, 21/1/1973).

Explica-se a confusão entre quem vê uma fotografia que cita o nome de avenidas com o mesmo nome: faz mais de quarenta anos que a avenida Conselheiro Rodrigues Alves de Santo Amaro mudou o nome. Somente quem conheceu esse fato vai se lembrar destes nomes iguais. Sem querer entrar em maiores detalhes, não é uma coincidência. Historicamente existe uma razão para que as duas avenidas por onde passava a antiga linha de Santo Amaro tivessem o mesmo nome.

Notícia da morte do vereador, falecido em 5 de janeiro de 1973, quase dois anos antes da mudança de nomes em homenagem a ele (O Estado de S. Paulo, 6/1/1973).

O que me preocupa é que informações erradas sejam disseminadas no Facebook e na Internet por causa de teimosia de certas pessoas que parecem não se preocupar em saber qual é a realidade não somente dessa foto em particular, mas em várias outras que são colocadas na rede.

sábado, 23 de agosto de 2014

BONDE DE SANTO AMARO: UMA GRANDE TRADIÇÃO QUE JAMAIS DEVERIA TER DESAPARECIDO


A fotografia acima, apesar de sua péssima qualidade - foi tirada do site da Folha de São Paulo, da edição de 18 de março de 1966 - me mostra uma das fotografias mais bonitas que já vi de uma velha São Paulo, de um velho bairro do Campo Belo, que não existe mais.

Ela foi publicada no dia 18 de março de 1966. Dois anos e quatro dias mais tarde e a linha de bondes de Santo Amaro, talvez a mais carismática que São Paulo já teve seria extirpada sem que, no duro mesmo, se tivesse pensado que ela sempre seria indispensável. Ela o é até hoje.

Em parte do seu caminho, constrói-se hoje a linha cinco do metrô, quase cinquenta anos mais tarde. A linha correrá, na verdade, pelo trecho final da velha linha de bondes (entre o largo 13 de Maio e a rua da Fraternidade e num trecho da avenida Ibirapuera, mais para a frente, para depois desviar para a região da Vila Mariana ali na região da rua Pedro de Toledo).

A linha original de bondes elétricos de Santo Amaro foi aberta ocupando parte de uma outra linha de bondes a vapor que ligava a rua São Joaquim, na Liberdade, até o largo 13 de Maio. Com a compra da Light da velha ferrovia, esta empresa começou sua pronta recuperação, utilizando-se de outro percurso, que originalmente não seguia pelo seu caminho total inaugurado em 1913.

Este novo caminho percorria agora, com bondes elétricos, desde a praça João Mendes, seguindo pela avenida da Liberdade, rua Vergueiro, entrando pela Domingos de Moraes e no largo Ana Rosa fazia uma curva à direita em 90 graus tomando a avenida Conselheiro Rodrigues Alves. Aí, depois de fazer outra curva de noventa graus e mais uma logo ao lado do Biológico, seguia numa imensa reta até o Largo 13 de Maio, sem que a Conselheiro jamais mudasse de nome, exceto no trecho final entre a rua da Fraternidade e o largo, onde a reta acabava e os trilhos entravam pela avenida Adolfo Pinheiro. Lembre-se que há três anos atrás, quando escavaram um quarteirão desse trecho final, "encontraram" (ninguém se lembrava mais deles?) os trilhos dos bondes elétricos, que nunca haviam sido arrancados até ali.

Com o tempo, o nome "Conselheiro Rodrigues Alves" deixou de ser contínuo. O trecho entre a curva do Biológico e a córrego da Traição passou a se chamar avenida Ibirapuera. No início dos anos 1970, o trecho entre a Traição e a rua da Fraternidade teve o nome alterado para "Vereador José Diniz", nome que permanece até hoje.

Mais alguns detalhes interessantes: até o fim dos bondes em 1968, havia trechos da reta em que somente bondes passavam ali - não havia espaço para carros. Esse era o caso do trecho entre a curva do Biológico e a avenida Indianópolis. A partir daí existia uma pista lateral para autos - o bonde corria pelo canteiro central. Porém, a partir da avenida dos Eucaliptos o bonde voltava a ser exclusivo - em alguns quarteirões, até o Alto da Boa Vista, havia estreitas ruas de terra laterais que permitiam a passagem de carros para chegarem às casas que ali havia. E em muitos pontos essas "marginais" tinham um desnível grande entre elas e a linha férrea, para cima ou para baixo. Isto é visto até hoje na avenida duplicada que substituiu esse trecho entre a avenida dos Eucaliptos e a rua da Fraternidade.

A atual avenida que acabou com a linha do bonde Santo Amaro foi inicialmente duplicada apenas entre a avenida dos Eucaliptos e a rua Joaquim Nabuco, no Brooklyn. O trecho seguinte até a rua da Fraternidade comente foi duplicado há cerca de cinco anos mais ou menos. Os desníveis laterais obrigaram à construção de algumas curvas e de pistas mais estreitas. O trecho entre o Biológico e o parque Ibirapuera jamais foi duplicado, embora o trecho entre o chamado "Cebolinha", no cruzamento com a avenida Rubem Berta (originalmente, o bonde passava por um viaduto sobre a pista de automóveis, ainda estreita, que existia no Ibirapuera naquele ponto) e a avenida Indianópolis tenha sido duplicado desde a retirada dos trilhos no final dos anos 1960.

Voltemos à emblemática fotografia. Uma enchente daníficou o pontilhão do bonde e a subadutora de água que existia ali que levava água do reservatório do Alto da Boa Vista e a rua França Pinto, na Vila Mariana no dia 6 de março de 1966, embora a reportagem só tenha sido publicada no dia dezoito. A tragédia, que não matou ninguém, aconteceu para os estudantes que moravam no Campo Belo e que precisavam ir para a as escolas no Brooklyn - e vice-versa.

Originalmente, como se vê na notícia logo acima, falam "entre Indianópolis e Santo Amaro", oq eu é meio vago; depois, disseram em outro ponto que o acidente ocorreu entre as paradas Frei Gaspar e Volta Redonda. E, finalmente, falam que se deu no pontilhão perto à Frei Gaspar. Esta rua é a atual Gabrielle D'Annunzio. A parada de bondes deveria ser bem próxima a ela, mas onde? O pontilhão era sobre o córrego das Águas Espraiadas (hoje canalizado no centro da avenida Roberto Marinho e por sobre o qual está sendo construído o monotrilho Morumbi-Congonhas). Quando fizeram a avenida sobre a linha dos bondes, construíram um viaduto que toma vários quarteirões). Evidentemente, as casas nas marginais mais altas e baixas ficaram com uma pista estreita segregada.

Na rua Frei Gaspar, o nível da linha e da marginal se cruzavam ali (não me lembro se automóveis tinham ali uma passagem sobre a linha), passando de baixa para alta para quem olha do lado de Santo Amaro. Em minha opinião, essa foto foi tirada do lado de Santo Amaro. Há um bonde parado ali, ponto do qual ele não podia continuar no sentido da cidade por causas das obras. Vejo uma pista lateral bem alta à direita ao fundo, depois das obras: é a marginal entre a Frei Gaspar e a rua seguinte (Edison, que não teve o nome alterado).

As quatro meninas estão andando sobre a linha vindo da região do Campo Belo (a rua Vieira de Moraes está lá em cima). Segundo a reportagem, boa parte dos estudantes fazia o trecho interditado a pé para pegar o bonde do outro lado ou irem direto para a escola. O trecho interditado ia mais longe no início, depois teria diminuído. Os estudantes seguiam às vezes tudo a pé, pois não teriam dinheiro para pegar os ônibus na avenida Santo Amaro e na alameda dos Maracatins, "mais caros".

Por fim, vejam a placa de cruzamento de estrada de ferro no centro da fotografia, acima da cabeça da terceira menina da direita para a esquerda. Ali devia ser o sinal de cruzamento da rua Frei Gaspar. A vida seguiu, como sempre, mas o pontilhão para os bondes somente foi entregue pronto em 26 de junho daquele ano. A partir daí os bondes voltaram a circular no percurso todo. Numa época em que estavam sendo canceladas todas as linhas de bondes restantes, isso foi até um milagre.

Existem certas coisas em cidades que são tão tradicionais que jamais deveriam ser alteradas. O bonde de Santo Amaro jamais deveria ter sido retirado. As marginais deveriam ser asfaltadas, como o foram, mas os bondes deveriam ter sido mantidos nos canteiros centrais, gramados. Isto seria hoje uma das maiores tradições de nossa cada vez mais triste cidade de São Paulo.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

SÃO PAULO, 458 ANOS (OU 459?)

Avenida Conselheiro Rodrigues Alves, hoje José Diniz, por volta de 1966

Neste novo aniversário da cidade de São Paulo, lembro-me da cidade da minha infância, com o bairro do Sumaré já cheio de casas (final dos anos 1950 - início dos 1960) e com ruas de paralelepípedos, uma avenida Sumaré ainda de terra a partir das ruas Atalaia e Grajaú, inúmeras ruas de terra nas Perdizes e na Pompéia, bondes na Paulista e na Domingos de Moraes - sendo que, a partir da Sena Madureira e por toda a av. Jabaquara, eles corriam no canteiro central - bondes numa rua da Consolação estreita e de paralelepípedos, trilhos já sem bondes na rua Augusta, a FFCL da USP ainda de pé e funcionando (alive and kicking, como dizem os americanos) na Glette...

De meus colegas indo embora para casa ao meio-dia pegando ônibus e bondes (até a alemãozada rica que morava no Brooklin!), das festas em casas de amigos (e não em salões de festas) onde meu pai me levava e buscava, do guarda civil que durante mais de dez anos permanecia rodando a pé em frente ao colégio Porto Seguro na Praça Roosevelt, das feiras-livres na mesma praça toda quarta e sábado, de passear na cidade a pé quando havia aula à tarde...

Da Vila Mariana onde morava minha avó, do córrego do Sapateiro ainda a céu aberto em boa parte de seu curso, da Chácara Conceição na rua Domingos de Moraes, da rua Iguatemi estreitinha (onde hoje passa boa parte da Faria Lima), do meu amigo que morava numa chácara na Oscar Freire, de outro que morava na Vila Nova Conceição tendo à frente de sua casinha um circo montado permanentemente num imenso terreno baldio, do mesmo bairro sem um edifício de apartamentos sequer, da avenida Ibirapuera com bondes em toda a extensão, seguindo pela Rodrigues Alves (hoje José Diniz) e só existindo um leito de bondes (somente havia pistas para automóveis também, entre a avenida República do Líbano e a avenida dos Eucaliptos)...

Tudo saudosismo, sim. Mas era legal pacas!

Quanto aos 458 anos, serão 459 se considerarmos que a fundação de Santo André da Borda do Campo como município se deu no ano anterior (1553) e em 1554 a sede desse município foi transferida para São Paulo, Se ainda lembramos que o município de São Paulo somente foi instituído oficialmente (como vila) em 1560, então poderiam ser só 452 anos... e como a vila foi promovida a cidade em 1711, seriam somente 301 anos... Aspectos técnicos que são hoje mera curiosidade.

Para mim, são 60 anos e 2 meses, idade que tenho, pois nasci em São Paulo. Moro desde 1982 em Santana de Parnaíba, mas meu coração está na velha Paulicéia, onde trabalho todos os dias.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

70 ANOS DE DIFERENÇA

Em dias com excesso de trabalho, postagens no blog mais curtas. Gosto muito de escrever, mas em alguns períodos fica difícil de se concentrar e criar algo que preste.

Hoje, porém, tive a oportunidade de ter de realizar um serviço na Vila Clementino. Na volta pra Pinheiros, passei pelo local da foto que postei aqui dois dias atrás. Aquela do bonde fazendo a curva ao lado do Instituto Biológico. O local fica praticamente na divisa dos bairros da Vila Mariana e Vila Clementino.

Tirei então uma foto, com o celular - não fico andando com minha máquina fotográfica digital com muita frequência.

Notem os 70 anos de diferença no mesmo local.

terça-feira, 3 de maio de 2011

VELHOS BONDES


Eu hoje cedo recebi a foto acima, que pertence ao acervo do Museu do Transporte Público Gaetano Ferolla, também conhecido por "Museu do CMTC".

O que mais me impressionou na fotografia, tomada da avenida Conselheiro Rodrigues Alves, na Vila Mariana, no sentido da avenida Ibirapuera (que começa ali e é na prática hoje a continuação da rua Joaquim Tavora), não são os trilhos dos bondes, que ali bifurcavam. Pela avenida Ibirapuera, seguiam para Santo Amaro. Seguindo pela própria avenida Rodrigues Alves, seguiam até perto do Matadouro pela rua Tangará, fazendo ali um balão e retornando.

O que me deixou espantado é que esta cena, do bonde fazendo a curva para seguir no retão de Santo Amaro - a avenida Ibirapuera ali somente dava passagem para o bonde, era um leito ferroviário - está viva na minha memória. Cansei de ver essa cena no final dos anos 1950 e nos anos 1960 (não necessariamente um bonde como esse, com reboque). Eu passava bastante por lá, com meus pais, nessa época.

Estou, realmente, ficando velho.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

PARA QUE ORIENTAR SE PODEMOS DESORIENTAR?

A rua Olimpíadas também inunda. Tão nova - foi aberta alargada em novembro de 2009 - e já enche de água (Jolevier/http://mais.uol.com.br/view)

Hoje lá fui eu procurar uma pessoa na rua Olimpíadas, 100, na Vila Olímpia. A questão era como chegar ali, visto que as ruas nesse bairro são estreitas, todas com mão única, sem lugares para estacionar e no caso da Olimpíadas, sem saber exatamente onde ela estava e onde começava - por causa do número. Conheço bem São Paulo, mas às vezes descubro que nem tanto assim, ainda mais num bairro que recentemente teve algumas ruas alargadas com canteiro central e tudo - e que tem algumas ruas que terminam no meio do quarteirão e de repente começa outra (ou seja, o nome muda sem qualquer motivo, a não ser histórico - falei sobre isso em uma postagem anterior).

A Olimpíadas é uma delas. Fui pela avenida Juscelino, vindo pelo túnel, mas não pude entrar na primeira rua, que era contra-mão. A rua seguinte era a Faria Lima. Tomei-a à direita, mas as primeiras duas ruas também eram contra-mão no sentido da Vila Olímpia. Entrei na outra rua e caí na que supus que fosse a Olimpíadas, já que meu filho havia me dito que ela é uma das ruas que foi alargada, que tinha o hotel Caesar Park, etc.

Não há uma placa de nome nessa rua - que é uma avenida, na verdade. A única que achei era uma placa com o nome de uma praça (para que? Só pra atrapalhar, pois a praça não tem endereços com o seu nome). Segui, passei em frente ao número cem e não vi, pois o número do outro lado da rua, que é exatamente o hotel, tinha escrito bem grande: 205. Ora, o 100 não pode ser em frente ao 205, numa numeração métrica como o é em São Paulo.

Mas era. Descobri isso depois de dar duas voltas no bairro. E incrível: havia um lugar para parar em frente ao prédio, na rua. Não era proibido (depois descobri que era, mas a placa confusa depois do ponto de onde estacionei me confundiu). Não fui multado, embora junto ao meu carro houvesse pelo menos dez motos em diagonal ocupando o espaço de pelo menos dois carros estacionados.

Portanto, mais três causas para a desorientação em São Paulo só nesta pequena aventura: rua sem placa, numeração errada e ilógica e praças sem razão de terem nome.

Mas aí me lembrei de outras coisas que alguns conhecidos meus comentaram outro dia: o Shopping Morumbi não fica no Morumbi, mas no Brooklyn, do outro lado do rio em relação ao rio Pinheiros. Na verdade, não fica nem junto à avenida Morumbi, que, saindo do bairro do mesmo nome, cruza o rio para terminar na avenida Santo Amaro, no Brooklyn (Sim, São Paulo tem um bairro - aliás, três - com o mesmo nome do bairro de Nova York, que, no caso, inventou o nome, corruptela de "broken land", terra quebrada). Também se chama Hilton Morumbi o hotel na Marginal, do lado da Berrini. Por que não Hilton Berrini? Para quem não conhece bem a cidade, isto atrapalha bastante.

E ontem isso se provou: minha filha foi numa festa de fim de ano no Espaço Villa-Lobos. Endereço: rua Gonçalo Ferreira. Alguém sabe onde fica essa rua? Não, com certeza, a maioria não sabe (eu não sei, ela não sabia). Ora, o Parque Villa-Lobos e o shopping do mesmo nome ficam na Marginal Esquerda do Pinheiros. O tal "espaço" fica no outro lado do rio, na primeira paralela à Marginal... Direita. Resultado: minha filha (e outros convidados) se perderam, procurando a rua do outro lado do rio. Claro, hoje existe GPS, existe guia de ruas, mas pouca gente tem ambos nos carros. Para que dificultar?

O Shopping Ibirapuera não fica no Ibirapuera. Com este nome, aliás, não existe um bairro na cidade. O Shopping tem esse nome provavelmente por causa da avenida que tem esse nome, onde fica a frente do mesmo. Porém, há gente que acha que o shopping fica perto do Parque Ibirapuera, este sim, muito conhecido e nada perto dali. Afinal, para que ser lógico se podemos ser ilógicos?

domingo, 15 de agosto de 2010

BACIA DO UBERABA

Debaixo desta servidão passa a galeria do córrego Uberaba, entre as ruas Pinrassilgo e Graúna (esta ao fundo). Foto Ralph M. Giesbrecht em 3 de julho de 2010.

Mais uma vez falo dos córregos desaparecidos da cidade de São Paulo. Do norte para o sul, os córregos que desembocam no rio Pinheiros pela margem leste, a partir do das Corujas, que faz a foz no Pinheiros vindo pela Frederico Hermann Junior, seguem o Verde, que tem a foz junto ao Hebraica, depois o da Várzea, na Prof. Artur Ramos; o próximo é o Uberaba.

Pelo que consegui pesquisar, atualmente ele tem a foz não no rio Pinheiros, mas sim no córrego da Traição, junto à alameda Vicente Pinzon. Não, não espere ver nem um nem outro, está tudo canalizado... ou melhor, entubado mesmo. Só que a foz natural dele era junto à rua Pequetita, no exato ponto em que ela muda de nome para rua Funchal. Você sempre achou que não havia motivo para a rua mudar de nome naquela pequena curva? Historicamente, havia sim: não havia passagem ali, pois o riacho cortava as ruas de terra que, na época, não se encontravam.

O córrego Uberaba vem ali da avenida Ibirapuera, cruza-a entre as avenidas Ibijaú e Rouxinol, continua num trecho sob a Ibijaú, cruza as paralelas à avenida Ibirapuera até a rua Tuim, segue e entra pelo centro da avenida Helio Pelegrino. Dali, segue por ela até o seu fim, onde começa a Faria Lima. Entra pelo meio da Vila Olímpia, segue por dentro desta, até fazer uma curva para o sul junto à Vicente Pinzon e desembocar hoje no Traição, sob a avenida dos Bandeirantes. A mudança deste curso final pode ter ocorrido na época da retificação do Pinheiros, nos anos 1940. Veja na foz antiga que o rio fazia uma curva ali e encostava na rua Pequetita, coisa que não faz hoje.

Seu afluente é o córrego Paraguai, que vem do alto do bairro de São Judas, na avenida Jabaquara, desce hoje entubado debaixo da avenida José Maria Whitaker, cruza a avenida Ibirapuera junto à avenida República do Líbano, entra por Moema, segue até a avenida Juriti junto à Helio Pellegrino e cruza a Diogo Jacome, onde se junta com o Uberaba na esquina da rua Marcos Lopes.

E o Paraguai ainda tem seu afluente: o córrego das Éguas, que nasce na esquina das ruas Botucatu e Onze de Junho, no alto da Vila Clementino, desce até onde hoje está um dos viadutos da Rubem Berta, acompanha esta por um quarteirão, onde se encontra com o córrego Paraguai, este sob a José Maria Whitaker.

Enfim, um festival de rios canalizados e entubados que outrora fizeram parte de uma paisagem rural no meio de São Paulo. Disso tudo, cheguei a ver apenas parte do Uberaba, no cruzamento com a avenida Santo Amaro, a céu aberto por muitos anos debaixo de uma pequena placa escrita: "Avenida Uberaba". Esta era o que se tornou a Helio Pelegrino, na época um pequeno caminho de terra ao lado de um riozinho sujo. Isto até o início dos anos 1990. Também me lembro de pequenas pontes nas ruas que cruzavam o córrego ali na região onde hoje se encontram as avenidas Faria Lima e Helio Pellegrino.