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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

A SÃO PAULO DE 1966 (CINQUENTA ANOS ATRÁS)


A fotografia acima (Construção da Câmara Municipal e em primeiro plano a Praça das Bandeiras, ainda longe de ser urbanizada, vinte anos depois da demolição do antigo Largo do Piques) e todas as outras deste artigo foram publicadas no jornal Diário Popular nos meses de agosto e setembro de 1966. Os textos abaixo de cada uma delas, escritos aqui em outra fonte, são as notas que as acompanhavam.


"O fato é que, se houve tempo em que os bondes representavam um dos meios de transporte mais importante para os cidadãos paulistas, agora a coisa mudou muito. Os barulhentos veículos deixaram de constituir qualquer coisa imprescindível. Pelo contrário: aos poucos, estão sendo retirados. Antes, das artérias mais importantes, onde atrapalham o trânsito normal da cidade. Depois, dos lugares secundários, onde ônibus vão tomando seu lugar na preferência do público. A cena foi na Praça João Mendes. O veículo, que já transportou tanta gente, está sendo carregado por um caminhão. Progresso chegou e mudou o destino do bonde."


"O tradicional meio de transporte dos paulistanos vai desaparecendo como necessidade para escoamento do tráfego na Capital. Agora, chegou a vez dos bondes da Avenida São João, que hoje fazem sua derradeira viagem."


"O aspecto urbanístico da Capital vem sofrendo constante transformação com o alargamento de antigas ruas. As obras da Amaral Gurgel, já em fase final, emprestaram nova fisionomia ao local."


"Duzentos homens estão empenhados, das 7 às 22 horas, nos trabalhos de abertura do primeiro quilômetro da Avenida Vinte e Três de Maio, ex-Itororó, cuja extensão deverá ser de aproximadamente dez quilômetros, iniciando-se no Viaduto Dona Paulina e indo até o Ibirapuera. Antes de começar a construção, foram feitas algumas desapropriações e demolições. O trecho em questão, que vai até a Rua Pedroso de Morais [sic], tem seu custo calculado em um bilhão e meio de cruzeiros. A avenida deverá ser uma das mais modernas da Capital, tendo quatro pistas laterais e metrô no centro."


"Quem precisa chegar ao centro da cidade em hora certa nunca deve tomar ônibus procedente da Zona Leste e que trafega pela Avenida Celso Garcia. A obrigatoriedade imposta pela DST de os coletivos permanecerem sempre à direita nessa avenida está provocando a formação de extensa fila, resultando em um deslocamento extremamente lento dos ônibus (foto). Os usuários se veem obrigados a abandonar os coletivos em pontos distantes dos pretendidos e empreender longa caminhada para atender seus compromissos, pois a pé é mais rápido."


"Para os transeuntes obrigados a atravessar a Praça Clóvis Bevilacqua no princípio da Avenida Rangel Pestana, essa pedraria que se vê na foto já faz parte da paisagem. Antes, era mureta. Até que um carro resolveu ver se, batendo, ela continuava de pé. Não houve vítimas: nem mortos nem feridos. Mas a mureta caiu. E ficou por lá mesmo. Não atrapalha o trânsito de automóveis, não. Nem o de pedestres, que têm bastante espaço para dar a volta e prosseguir em seu caminho. Mas, uma vez mais, fica provada a displicência com que as repartições competentes tratam a nossa cidade. Afinal, o 'lixo' está para ser retirado há mais de um mês, e até agora ninguém se mexeu. Agora, duas coisas poderão acontecer. Se alguém resolve tomar providências, logo os 'restos mortais' da mureta serão retirados. Senão, ficarão à espera de desintegrar-se em átomos nos próximos séculos."


"A grande e moderna avenida que levará uma pessoa, em quinze minutos, do centro da cidade ao Aeroporto de Congonhas, está sendo construída vagarosamente. É que está faltando asfalto no mercado. A informação é de um engenheiro da obra."


"Moradores da Avenida Aeroporto, no Brooklin Novo, estão protestando porque a Prefeitura paralisou as obras de canalização do Córrego da Traição, naquele bairro. A conclusão da obra é esperada com grande interesse por aquelas pessoas, cuja situação atual é de desespero, em razão das péssimas condições de higiene a que estão submetidas, com ratos, pernilongos e animais podres atirados às águas do riacho. (…) A canalização do Córrego da Traição ensejará à Prefeitura a construção da Avenida Aeroporto, da qual atualmente existe apenas um trecho, sendo o restante uma imensa cratera, onde há toda espécie de detritos. (…) Casais de maloqueiros postam-se às margens do córrego para a prática de atos indecorosos à vista de quem quer que passe pelo local. (…)" (nota deste autor: Avenida Aeroporto seria o que se chamaria mais tarde de Avenida dos Bandeirantes)


"OS CÃES DO PALÁCIO — Lumumba e Tiquinho (foto), os cães de estimação da família do governador, saíram furtivamente do Palácio dos Campos Elíseos, na quarta-feira, a fim de conhecer a vida noturna da cidade. Seus ilustres donos, preocupados, recorreram às estações de rádio, de televisão e aos jornais, solicitando a quem os localizasse dar informações aos Campos Elíseos. Na manhã de ontem, o 'poodle' Lumumba retornou, só, à fidalga residência. À tarde, Tiquinho, o pequinês, foi entregue à família Natel por um menino que, como recompensa, recebeu uma gratificação de vinte mil cruzeiros e foi convidado a passar o domingo no palácio, onde assistirá a um filme em companhia dos filhos do governador."


"Está sendo construída, ao nível da pista do viaduto de Vila Matilde, moderna bilheteria para a estação ferroviária do bairro. A construção, cuja concretagem será concluída ainda nesta semana, terá acabamento de primeira ordem, diversos guichês e escadas de cimento armado para acesso à plataforma. Com isso, os passageiros da Central do Brasil poderão adquirir suas passagens tranquilamente, sem o problema das enormes filas. Isso já é alguma coisa, porque os comboios… bem, isso é outra história…"


"FRIO E CHUVA — Começou anteontem, ao cair da noite, com um friozinho aborrecido e já na madrugada chuva impertinente se abatia sobre a Capital. Pela manhã, incômoda garoa modificou o aspecto de São Paulo, e os guarda-chuvas ressurgiram. E assim foi durante todo o dia, com chuviscos intermitentes, cortantes, e temperatura baixa, fazendo o paulistano tiritar de frio, que o sol dos últimos dias parecia ter afugentado para o próximo inverno."

terça-feira, 30 de setembro de 2014

ONTEM E HOJE NO JARDIM PAULISTA (SÃO PAULO, 1966-2014)


A comparação em um mapa publicado na Folha de S. Paulo de 22 de dezembro de 1966 (reproduzido logo acima deste parágrafo) com um mapa extraído do Google Maps no dia de hoje mostra modificações entre a Brigadeiro Luiz Antonio e a 23 de Maio, no Jardim Paulista.

Apesar de estarem distantes apenas quarenta e oito anos, o mapa de 1966 - feito sem muita escala e preocupações com as ruas mais distantes dali, o que não invalida na comparação - mostra o porque do projeto de união das ruas Estados Unidos por uma rua que viria a ser a rua Stenio de Albuquerque Lima.

Quando o nome foi dado à rua aberta e quando ela foi efetivamente aberta ao tráfego, não sei. Nem consegui saber quem foi o Marechal (ele era marechal). Ele deve ter morrido nessa época, anos 1960-70. Encontrei breves referências a ele no Google, único lugar onde procurei. Sei que foi promovido a general em 1958, por exemplo. Portanto, já tinha alguma idade quando a rua foi aberta - ou já estava morto.

Olhando no texto sob o mapa de 1966, é interessante saber que a rua "passaria sobre" um boliche, divertimento bem popular na época. E ela é bem mais larga que a rua Estados Unidos. Vejam pelo mapa abaixo (do Google de hoje) que ela forma uma praça ao lado do Ginásio do Ibirapuera e depois se une à rua Curitiba, que manteve o nome.

Vejam que a 23 de Maio ainda não estava aberta naquele trecho entre o viaduto sob a av. Bernardino de Campos e o Parque Ibirapuera. Essa abertura arrasou vários quarteirões de ruas ali no bairro do Paraíso, na época. Eu me lembro vagamente disso - na verdade, eu passava pela rua Cubatão muitas vezes a caminho da casa de minha avó, mas ela mudou-se da Vila Mariana no início das obras, de forma que as obras da 23 de Maio naquele trecho estavam apenas começando então.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

VISÕES DE 40 ANOS ATRÁS


A fotografia acima foi reproduzida da revista VEJA, edição de 27 de janeiro de 1971. Quarenta e um anos atrás. São Paulo estava sofrendo uma de suas maiores modificações urbanas no século XX. Na foto, a avenida 23 de Maio.

Ela era relativamente nova. Foi terminada, entre a praça das Bandeiras e o Ibirapuera poucos anos antes. Creio que em 1969, não me lembro do ano exato, mas foi por aí. A chamada "Ferradura", construída já depois da avenida pronta, aparece ainda em obras. Ela hoje faz o retorno da pista que vai para a cidade para a pista do Ibirapuera, além de facilitar a passagem para a Radial Leste.

Ao fundo, no alto, a Praça da Bandeira. Uns dizem que é "o antigo Piques". Na verdade, o Piques era mais para a direita, próximo ao obelisco e do antigo chafariz da Memória. Notar também que a praça ainda não tinha o horroroso terminal de ônibus.

Difícil também saber quantos prédios surgiram no cenário, já com diversos edifícios, mas ainda com velhas casas em alguns pontos. Interessante também ver a avenida com abertura no canteiro central, em primeiro plano. Algo impensável hoje. O trânsito, ainda pequeno, antes do final daquela década já se tornaria bastante pesado.

Quanto aos dois viadutos, fora o da Ferradura, ainda estão lá com poucas mudanças: o da Brigadeiro e o dona Paulina. Entre eles, já havia sido demolido, poucos meses antes da foto, o famoso e chique edifício Columbus, construído em 1932.

sábado, 11 de setembro de 2010

CAVALOS, TRENS E BONDES

Meu trajeto em 1910 passaria por aqui

Hoje fui visitar meu filho em seu apartamento no bairro do Paraíso, em São Paulo, próximo à Brigadeiro Luiz Antonio com a rua 13 de Maio. Como sabem os meus fieis leitores, moro em Alphaville, Santana de Parnaíba, bem próximo à avenida Alphaville.

Saí de casa, segui pela Via Parque até a rodovia Castelo Branco, dali continuei pela Marginal do Rio Pinheiros até passar sob a ponte da avenida Cidade Jardim, entrei no túnel, peguei a Juscelino, tomei outro túnel sob o parque do Ibirapuera, virei na 23 de Maio, por ela segui até o viaduto da rua Pedroso e por esta rua entrei à esquerda para chegar ao meu destino. São cerca de 32 km.

Hoje, sábado, início de tarde, havia pouco trânsito. Tive de ouvir uma rádio pirata que tocava música caipira e tinha anúncios de medicações "naturais" e "infalíveis" contra todos os problemas que v. possa ter. Basta telefonar para um determinado número de telefone e fazer sua encomenda. Era isso ou ouvir propaganda política obrigatória que inclui sempre a daquele partido que fala o que Lênin pregava há cem anos atrás e que não deu certo na Rússia nem em nenhum país do mundo até hoje. Até Fidel tem confirmado isto nas suas últimas entrevistas.

Mas, voltando àquelas divagações de que gosto, como teria sido para visitá-lo há cem anos atrás, tendo como premissa (improvável) que tanto eu como ele morássemos nos mesmos pontos em que moramos hoje?

Bom, eu teria de chegar à estação ferroviária mais próxima de casa (Barueri) e que fica a cerca de 8 km de onde moro. Para isso, teria de pegar a "estrada de dentro" ou "estrada velha de Parnaíba", que, aqui, passava no mesmo leito da atual av. Alphaville. Que opções eu teria? Não havia taxis (carros de praça) nem telefone naquela época, nem telefone (nesta região) para chamá-los. Ou eu iria a pé ou a cavalo. A pé, condução que, nessa época, na zona rural, era extremamente comum mesmo para longas distâncias, tomar-me-ia cerca de 2 horas e meia. Melhor teria sido pegar meu cavalo e fazer o trecho em cerca de meia hora a uma hora, a trote.

Precisaria ver também a que horas passava o trem da Sorocabana em Barueri. Nessa época, 1910, não existiam trens de subúrbio ainda nessa linha, chegaram somente 12 anos depois. Portanto, raros eram os trens para São Paulo e interior por dia, talvez dois ou três apenas. Teria de levar uma revista (A Cigarra?) para ler e apreciar o mesmo tipo de propaganda enganosa que ouvi hoje pelo rádio. Mais um quarenta minutos de trem e chegaria à estação São Paulo, lá na esquina da rua Mauá com a rua dos Protestantes - o trem somente parava nas duas estações que existiam, Osasco e Barra Funda.

Ali, eu teria de arranjar uma charrete ou um tílburi para chegar à Sé. Ou tomar o bonde e seguir para o centro e ali tomar outro bonde que subisse a Brigadeiro Luiz Antonio. Próximo à rua 13 de Maio, eu deveria descer e andar cerca de três quarteirões para chegar onde meu filho mora(va).

Demoraria bem mais do que os 35 minutos que levei hoje. Porém, fazendo isto num dia de semana, possivelmente o tempo de percurso em 1910 e hoje seriam iguais. Talvez 1910 ganhasse.

domingo, 20 de junho de 2010

EDIFÍCIO COLUMBUS

Revista VEJA, 30/9/1970 - o Edifício em pé, à esquerda, e, em 1970, já demolido, vê-se a avenida 23 de Maio, não existente na primeira foto, à esquerda.

Eu, realmente, jamais havia ouvido falar dele. Este edifício - o Columbus - foi construído e entregue no ano de 1932, projetado pelo arquiteto Rino Levi, para ser o primeiro edifício de luxo da Capital paulista. E cumpriu com o que havia se proposto.

Tanto cumpriu que, em 1970, foi demolido. Demolir um edifício de luxo, com nove andares, de apenas 38 anos? O motivo parece ter sido claro. Quando ele foi inaugurado, ficava a três quarteirões da Praça da Sé, na avenida Brigadeiro Luiz Antonio, na esquina com o viaduto Dona Paulina, local bem, na época. Em 1970, a avenida 23 de Maio, recém-aberta, já com trânsito pesado, passava nos seus fundos, encostando na sua parte traseira, enquanto o viaduto da Brigadeiro, agora à sua frente, descendo do largo de São Francisco, já apresentava grandes sinais de deterioração.

O curioso foi que a reportagem de sua demolição foi publicada na revista VEJA, edição de 30 de setembro de 1970. Eu tive acesso a essa reportagem há cerca de três semanas apenas, por coincidência. E hoje, domingo, o jornal O Estado de S. Paulo publicou uma nota sobre a existência do prédio (dizendo que a demolição foi em 1971, mas foi, na verdade, um ano antes). A VEJA dizia que ele foi demolido para dar origem a uma garagem. Na verdade, hoje, no local do prédio, existe apenas um local vazio, um barranco entre a Brigadeiro e a 23 de Maio.

Poucos prédios de apartamentos foram demolidos em São Paulo. Lembro-me de alguns: um na avenida Paulista, há uns 4-5 anos atrás e dois na construção da grande Praça da Sé durante o metrô: o Palacete Santa Helena e o Mendes Caldeira. Sim, houve outros... infinitamente poucos, se comparados com o número de habitações monofamiliares que foram postas abaixo nos últimos cem anos, para reconstrução de novas casas, estacionamentos, alargamento de avenidas ou edifícios de escritórios ou residenciais.

O fato é que o Columbus deve mesmo ter sido um excelente local para se morar: afinal, teve apenas trinta e oito anos de existência, foi demolido há quarenta anos e até hoje merece citações a seu nome.