quinta-feira, 8 de abril de 2010

JARDIM ALFOMARES


No final da rua da Fraternidade, no Alto da Boa Vista, não muito afastado do centro do bairro e ex-município de Santo Amaro, hoje parte do município de São Paulo, existe um portão de ferro trabalhado (foto acima, tirada por mim em 7 de abril).

Ao lado direito dele, uma placa de cerâmica escrita: "Rua da Fraternidade". Ao lado esquerdo, outra placa, mas de folha-de-flandres, com o nome "Jardim Alfomares". Esta placa está pixada com outros nomes escritos. Ao lado esquerdo dela, uma placa enorme com várias explicações: que a construção de uma ou mais casas, bem como a remoção de algumas árvores, estão permitidas com aprovação municipal, dando os dados dos respectivos processos de aprovação para tais procedimentos. Todos datam de 2007.

Isso parece ser uma explicação para pessoas que possam vir a tentar, ou vieram a tentar, embargar tais obras. Isto porque, do outro lado do portão, existe um bosque, não sei se de mata nativa ou não, pois pouco se enxerga além do portão, pelos espaços em que se consegue enfiar os olhos. Pelo Google Maps também se vê que há uma mata naquele espaço, que ocupa uma área equivalente a um quarteirão e meio daquele bairro.

Dá para se ver também que do outro lado do portão ainda existem restos de duas guaritas, uma de cada lado, voltadas para o interior do terreno, mas já quase que totalmente destruídas. Não sei se houve um dia uma casa ali, ou se havia alguma casa de alguma velha chácara, em outro ponto e aquela mata seria remanescente de um largo pomar ou coisa que o valha.

De qualquer forma, é difícil de acreditar que esse velho portão com as suas colunas de sustentação tenham resistido até hoje. Não sei quem é o proprietário, mas sei o que ele deseja fazer ali, de acordo com a placa exposta. Espero que ele mantenha o muro e o belo portão de ferro, pelo menos.

Aliás, o nome da rua é interessante. Apesar de eu já ter visto essa rua com outro nome algum tempo atrás, parece que a mudança de nome foi revertida para o original — justamente rua da Fraternidade. Aliás, essa rua começa na avenida Santo Amaro, cruza a Adolfo Pinheiro e chega até esse ponto — o número no portão é 803.

No cruzamento com a Adolfo Pinheiro é exatamente o ponto em que também sai a avenida Vereador José Diniz, que até o final dos anos 1960 se chamou Conselheiro Rodrigues Alves e que era a rua por onde somente passavam os trilhos do bonde de Santo Amaro até março de 1968, quando ele foi extinto. Poucos anos depois a rua foi asfaltada. Ali naquele cruzamento os trilhos entravam pela avenida Adolfo Pinheiro e seguiam até o Largo 13 de Maio e em outras épocas até mais além, chegando ao largo do Socorro, do outro lado do rio Pinheiros.

A rua paralela a essa, no sentido do largo 13, se chamou rua da Liberdade — hoje se chama Irineu Marinho. A rua seguinte é Nove de Julho (não a avenida). Terá ela se chamado anteriormente rua da Igualdade? Se sim, essas três ruas teriam sido uma homenagem ao lema dos franceses: "Igualité, Liberté et Fraternité". E perdoem eventuais erros de francês, língua da qual não sei praticamente nada.

19 comentários:

  1. Pela foto de 1958 no Geoportal, havia um grande bosque e, próximo ao espaço entre a Irineu Marinho e a Visconde de Porto Seguro, um grande espaço com algo que parece ser uma casa, com o tereno cercado por uma grande fileira de árvores. Aliás, no Geoportal quando se escolhe a opção "Híbrido" do menu, que mostra o mapa e a a foto atuais, o último quarteirão da Irineu Marinho ainda aparece como Rua da Liberdade.

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  2. Eu ainda vi as placas de rua da Liberdade nessa rua. A mudança de nomes das ruas de Santo Amaro que estavam em duplicidade (por causa da existência do município de Santo Amaro até 1935) começou em meados de 1975, lembro-me bem disso, pois eu ia muito ao bairro nessa época. Mesmo assim, algumas mudanças reverteram (como essa), não sei se por chiadeira dos moradores de determinadas ruas, e alguns nomes nem mudaram - como a rua 9 de Julho, o largo 13 de Maio e outras.

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  3. Aliás, depois de escrever o artigo de ontem fui checar se existia algo sobre o Alfomares, e vi que as obras de construção de um prédio (ou de uma casa, ou de um condominio residencial - há várias versões) foram aparentemente embargadas pela Justiça, pois os moradores dali não querem saber de prédios e de destruição da mata ali. É provavelmente por isso que apesar das aprovações de 2007 as obras ainda não se iniciaram.

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  4. De fato, até há uns dois anos atrás, ao cruzar a região quando ia visitar meus pais, da Chácara Santo Antonio até a Rua Sócrates, às vezes eu passava por essa grande área verde. No início da década de 1960 essa região apresentava enorme concentração de terrenos desocupados, parecia uma ampla área campestre. Esse é un dos últimos resquícios daqueles tempos. Espanta saber que já faz dois anos que a construção nesse terreno ainda encontra embargada, sem que tenha sido tomada qualquer decisão a respeito.

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  5. E mais: se v. comparar a área de mata de hoje no Google e no Geoportal (1958), em 50 anos ela pouco mudou. Espantoso.

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  6. Quando cruzei a região, há uns dois anos atrás, fiquei espantado em ainda encontrar tanta área verde em Santo Amaro, uma região devastada pela especulação imobiliária. Mas aquele bairro é meio especial, possui muitas casas de boa qualidade e a Chácara Flora ao lado... Eu me lembro ainda que, em 1972, havia um enorme mirante na região, basicamente uma torre com uma cabana em cima. Algo bastante incomum de se ver. Devia ser alguém fascinado pela bela vista que se tinha do local - próximo ao bairro chamado, apropriadamente, Alto da Boa Vista. Há quarenta anos atrás ele merecia o nome, já que então a região além do rio Pinheiros (nas cercanias do atual cemitério do Morumbi) era praticamente mata virgem - será que SP terminava ali naquela época? Às vezes suspeito que sim. Mas hoje é outra história.

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  7. Bom, eu conheci o Brooklyn e o Alto da Boa Vista em 1967,68, quando visitava a alemãozada do Porto Seguro que morava tudo por lá... já era bem povoado, S. Paulo não terminava ali, não, já terminava muito depois.

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  8. Acho que não me expressei bem - misturei as estações! Na verdade, eu achava que SP, na década de 1960, e ao menos naquela parte da cidade, terminava no rio Pinheiros, junto ao atual hipermercado próximo ao cemitério do Morumbi (esse hipermercado foi inaugurado em 1988 como Paes Mendonça mas deve ter outro nome hoje...), pois a região era praticamente mata virgem.

    Agora, voltando ao Jardim Alfomares, uma consulta ao GoogleEarth mostra que essa área se integra perfeitamente a outras grandes regiões ainda verdes do bairro, como a Chácara Flora e a Escola Suíça. No site há várias fotos do portal e também de um pretenso desmatamento. É quase um milagre haver tanta área verde na região. E é tentador regulamentar seu uso, principalmente para quem não é dono da gleba...

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  9. A história do Jardim Alfomares é longa, mas, ao que sei, pode ser resumida da seguinte forma:

    Tratava-se de uma grande chácara, na qual havia uma linda casa-sede que, após ficar por muitos anos fechada (morte do proprietário? Espólio em divisão?), teve parte de sua área desmembrada e transformada em um condomínio fechado de edifícios de altíssimo padrão. Anos depois, o restante da propriedade foi parcialmente desmatado, tendo sido lançado um grande loteamento para a construção de um condomínio de luxo. Uma enorme quantidade de árvores foi derrubada e removida, tendo sido apresentados documentos que estariam autorizando esta derrubada (a placa mencionada no texto acima estaria citando estas autorizações). entretanto, ao que parece, a associação de moradores do bairro e de bairros vizinhos aparentemente descobriram que havia uma enorme série de irregularidades, tanto no que dizia respeito ao loteamento em si como e principalmente na derrubada das árvores. O loteamento foi embargado e segue assim até hoje.

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    1. Até a década de 1960 existia o Banco Alfomares. Será que o Banco era dono da área ou Alfomares era sobrenome do dono do Banco e também da chácara?

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    2. Alfomares são as primeiras sílabas do nome Alfonso Martin Escudero, um espanhol que, em 1955, fundou o Banco Alfomares (que em 1968 foi comprado pelo Banestado do Paraná).
      Falecido em 1992 deixou seus bens para a Fundação beneficente que levava seu nome, mas o testamento foi contestado por sua filha adotiva que mora na Espanha. Parece que o processo ainda não terminou. Maiores informações no blog:
      http://carlosfatorelli27013.blogspot.com.br/2012/08/jardim-alfomares-fronteira-do-poder.html

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  10. E olhe que essas divisões de terrenos ocorreram antes de 1958. Neste ano, a extensão da mata do Alfomares era exatamente igual a hoje. Ou seja, em 52 anos, não diminuiu, o que já é um milagre. Para comprovar o que digo, acesse o Geoportal.

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  11. Essa área hoje remanescente foi a antiga Chacára do Francês, formada no início do século XX por Desire Contier e seu filho Julio Contier (hoje ambos deram nomes de ruas de Sto. Amaro) Sou bisneto deste último. Muitas arvores frutíferas, segundo consta, ainda lá permanecem. A área foi vendida sucessivamente, até ser comprada pelo último proprietário, um espanhol, segundo consta.

    Tomara seja tombada e vire um parque.

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    1. Interessante seu comentário! De onde você ouviu falar sobre a Chácara do Francês?
      De fato, é a mesma história que meu pai conta, porém não sei sobre a venda sucessiva da propriedade.

      Abs,

      Edgar

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    2. Aliás, o fato de ali ter existido uma "chacara do Francês" pode explicar o nome das ruas: Liberdade, Fraternidade e (talvez) Igualdade.

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    3. Conheço uma senhora que nasceu há 80 anos no Alto da Boa Vista que insistiu que esse portal era dessa Chácara do Francês, seu ancestral. Teria sido esse portão o acesso original à hoje Chacara Flora? Tem mais informações para eu passar para essa senhora? Grata pelas informações!

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  12. Fui morador por 30 anos da vila vizinha a grande área com eucaliptos enormes, onde meus pais ainda residem. Quando era

    pequeno costumava pular o muro e andar pela área. Quando cortaram a maior parte dos eucaliptos que la existiam fiquei bem

    chateado. Por outro lado notei que a ação foi um tiro no pé. Após o corte dos grande eucaliptos as outras espécies de

    árvores que não cresciam tanto se desenvolveram, arvores frutíferas nativas que para serem cortadas necessitam de

    autorizações mais Difíceis de serem obtidas junto a prefeitura. Acho difícil algum condomínio ser registrado neste local.

    Ainda bem ...

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  13. Achei um texto esclarecedor do historiador Carlos Fattoreli que dá algumas respostas para as incógnitas. http://carlosfatorelli27013.blogspot.com.br/2012/08/jardim-alfomares-fronteira-do-poder.html

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