Os trens de passageiros no Brasil acabaram. Todo mundo sabe disso – ou quase todo mundo. Sobraram somente os trens metropolitanos em algumas capitais, os trens da Vale – Carajás, Vitória-Minas e Drummond-Ipatinga –, o trem da E. F. Amapá (sim, existe e funciona!) e os trens turísticos, sendo diários o Curitiba-Paranaguá e o da E. F. Campos do Jordão.E agora? Eles voltarão? Muita gente me pergunta isso e os jornais às vezes debatem a matéria. Muita gente sente saudades do tempo em que podia andar de trem, culpando o governo pelo seu fim – mas ninguém se lembra que a reação dos usuários pelo final desses trens foi praticamente nula.
Eles foram acabando a partir dos anos 1960 e terminaram de vez – fora as exceções citadas acima – em março de 2001, em São Paulo. Aliás, desde meados de 1998 que somente São Paulo os possuía. Em meados de 1996, existiam as seguintes linhas de passageiros regulares no Brasil, todas em São Paulo (repito, as exceções citadas acima funcionavam): Júlio Prestes-Presidente Epitácio, Santos-Juquiá, Luz-Barretos, Luz-Panorama, Campinas-Araguari e Luz-Santa Fé do Sul. Ou seja, as linhas-tronco das antigas Sorocabana, Paulista, Mogiana e E. F. Araraquara, mais a “linha do litoral” da Sorocabana.
Eram trens em mau estado de conservação e serviço cada dia pior. Aos poucos todos foram se acabando. Quando acabaram de vez em 2001, eram apenas três das linhas citadas acima e, mesmo assim, não com o percurso completo que tinham ainda em 1996.
Quem se utilizava desses trens eram gente muito simples e andarilhos, além de uma minúscula parcela de fanáticos por trens, gente que teimava em viajar para ainda sentir o restinho do que eles foram até vinte, trinta anos antes. Passagens baratíssimas, com preços irreais. E este é o problema hoje.
Quando se pergunta para as pessoas que morrem de saudades dos trens se elas voltariam a usa-las, elas dizem que sim, principalmente porque “eles sempre foram um meio de transporte barato”, comparando com as passagens de ônibus. E aí o problema pega. Se reativarmos qualquer linha, ela terá um preço muito mais caro do que antes, pois não se reativariam as mesmas porcarias que existiram no “fim dos tempos”. E aí, as pessoas usariam mesmo os trens, caros?
Outro dia vi um incauto reclamar do preço do trem turístico São Paulo-Jundiaí que corre todos os sábados pela CPTM desde o mês de abril. 28 reais. Caro? Se 28 reais é caro para fazer esse percurso, imagine-se quanto custaria para fazer São Paulo-Barretos, por exemplo.
A retomada dos trens regulares de passageiros, em qualquer ponto do País, não significaria apenas reformar linhas, locomotivas e carros, ou mesmo comprá-los novos. Significaria também a restauração de inúmeros pontos de embarque – leia-se estações ferroviárias – no seu percurso. Locais que hoje estão em sua grande maioria completamente deteriorados (mesmo que o prédio da estação em si tenha sido reformado) e que afugentam, por razões de segurança, as pessoas interessadas em tomar os trens para fazer suas viagens. Tais condições não afugentavam pessoas simples e andarilhos, mas com certeza seriam um empecilho para as pessoas mais abastadas que agora se disporiam a utilizar um trem mais caro do que ele era.
Enfim, as condições para se restaurarem as linhas que jamais deveriam ter sido abandonadas pela FEPASA e RFFSA não são fáceis de serem cumpridas. Por isso, a enorme dificuldade em se reativarem essas linhas – fora a falta de empenho do Governo em oferecer condições para tal.




