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Se as mortes ocorridas em todas essas construções, que se deveram em grande parte à malária, ataque de índios e seca (no Nordeste), e os problemas de pagamento dos funcionários (principalmente no trecho paranaense da SP-RG) tivessem ocorrido hoje, provavelmente nenhuma estrada de ferro teria sido construída – logo no início, a construção teria sido suspensa em regiões em que era (pelo menos naquela época) impossível de se evitar a presença da malária, dos índios e da seca. Já a falta de pagamento era sem-vergonhice mesmo.
O caso mais conhecido, inclusive em escala mundial, é o da Madeira-Mamoré. Já houve livros e uma minissérie (esta demasiadamente fantasiosa, citando diversos fatos totalmente inverídicos) na TV que trataram do assunto. Já os da Noroeste, da Baturité e do trecho catarinense da SP-RG são bem menos conhecidos, com textos até hoje pouco divulgados. O menos conhecido é a construção do trecho paranaense da SP-RG, que envolveu um capitalista de família francesa de Petrópolis que recebia dinheiro do Governo Federal e não repassava para os operários da estrada, que sabe Deus por quê, continuaram trabalhando, tendo entregado a ferrovia pronta em 1905.
Não foram os únicos casos de construções com grande número de mortes e mal administradas, mas vou me ater a somente estas nestas poucas linhas. A pergunta que faço é: seriam as construções dessas ferrovias viáveis se não fossem feitas da forma que foram e com tão poucos cuidados e garantias aos funcionários? E é sempre bom lembrar que, apesar de serem tempos bem diferentes, não faltaram na época denúncias do que estava acontecendo em todas essas frentes. Poucos ligavam para o que estavam sofrendo esses trabalhadores, vindos de todos os cantos em busca de trabalho. Talvez até considerassem tudo isso lenda, pois, afinal, o que tinham com isso?
Então, considerar Farquhar, Teixeira Soares, Roxo Roiz, Hector Legru (houve outros nomes, só nesses casos) e seus capatazes, estrangeiros ou brasileiros, culpados de morticínio por terem construído essas ferrovias é inútil: quando elas foram abertas, trecho a trecho, as notícias no jornal retratavam festas e júbilo por parte das populações, que estavam, sim, muito contentes por ter sido tiradas do isolamento secular a que estavam segregadas.
Os trabalhadores que se danassem. Afinal, foram para lá porque quiseram e não eram certamente masoquistas. Eles provavelmente sabiam que tudo era mata virgem, ou terra árida (no Nordeste), que havia índios, que havia malária — ou talvez nem quisessem saber, pois precisavam de emprego para poder viver. Se sobreviveriam ao emprego, era outro problema.
Hoje esse tipo de denúncia certamente pararia e inviabilizaria as obras. Naquele tempo, se parassem, teriam atrasado o desenvolvimento do país, que deveria vir ao custo dessas mortes, dos cortes da mata e da matança de bugres. Toda esta desgraça justifica o desenvolvimento do Brasil? Está aí uma pergunta cuja resposta mostrará o quão hipócritas ou realistas cada um de nós é.
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