sexta-feira, 9 de agosto de 2013

CANTAREIRA MORIBUNDA - 1958

Trem da Cantareira em Guarulhos - 1954. Autor desconhecido

Os mais velhos em São Paulo ouviam falar da Cantareira. Especificamente, do Tramway da Cantareira, nascido nos anos 1890 para transportar material para a construção da Represa da Cantareira, no norte do município paulistano. A empresa acabou cedendo trens de passageiros em finais de semana para transporte de paulistanos para fazerem piqueniques no novo parque.

Com isso, o sucesso foi grande e a Cantareira passou depois de pouco tempo a ser um trem de subúrbios. Ganhou até um ramal, em 1917, para Guarulhos. Inicialmente, ligava a estação de Tamanduateí, no atual Parque Dom Pedro II, à estação da Cantareira em bitola de 60 cm e depois també, a Guarulhos. A bifurcação se dava no meio da atual avenida Cruzeiro do Sul, na estação do Areal, que ficava próxima à saída da estrada do Carandiru, hoje avenida General Ataliba Leonel.

O tempo passou e no início dos anos 1940 a empresa acabou incorporada à Sorocabana, mesmo sem ter ligação ferroviária com esta ferrovia - aliás, com ferrovia alguma.

No início, a ferrovia percorria praticamente apenas uma grande zona campestre. Aos poucos, a vizinhança foi crescendo e criando diversos bairros, originários de loteamentos.

Acontece que a esperada melhoria dos serviços com a adoção pela Sorocabana não trouxe a melhoria que a população desejava. É verdade que em 1947 o ramal de Guarulhos ganhou bitola métrica desde a estação inicial - que, embora mantendo o nom e original, havia saído do Parque Dom Pedro II e se instalando num pátio na rua João Teodoro, muito próximo ao pátio do Pari, este da São Paulo Railway.

O trecho Areal-Cantareira somente ganhou bitola métrica em maio de 1958. Porém, os serviços continuavam muito ruins. Uma descrição de o que era a Cantareira foi dada pelo jornal Folha da Manhã, em agosto de 1958. Como sempre, há que se tomar cuidado com os dados - repórteres não são conhecedores de ferrovias e escrevem muitas vezes bobagens à bessa. Porém, eu não fui conferir estes dados em outras fontes, mesmo porque não é tão fácil assim.

Não havia nenhuma dúvida que os serviços eram ruins nessa época. Se de um lado o governo do Estado, dono da linha, afirmava para os meios de comunicação que a eletrificação estava próxima, de outro ele nada fazia para melhorar a situação. Era como se ele estivesse "fritando" a ferrovia, coisa que fez muitas vezes, com a FEPASA, nas décadas seguintes.

Na época da inauguração da bitola métrica na linha da Cantareira, em maio de 1958, foi anunciado pelos diretores da Sorocabana que a linha ganharia seis locomotivas diesel e que esse número dev eria rapidamente chegar a vinte e seis. Porém, a reportagem constatou em agosto que havia apenas quatro delas em tráfego. Enquanto isso, no ramal de Guarulhos, com bitola métrica havia muito mais tempo, somente trafegavam velhas locomotivas a vapor, funcionando com óleo combustível e com madeira - neste caso, eram duas locomotivas que apenas faziam manobras nos pátios.

Os carros de passageiros eram apelidados de "liquidificadores". Seriam (todos?) vagões da antiga bitola métrica da E. F. Araraquara que foram vendidos à Cantareira quando da adoção da bitola larga pela ferrovia do interior. Estes vagões foram modificados e convertidos em carros de passageiros para 40 pessoas sentadas. Havia ainda carros de madeira que haviam sido da Central do Brasil e que agora trafegavam com goteiras e nenhum conforto. Havia carros da "série 700" que não tinham iluminação, permanecendo às escuras nas viagens noturnas.

Havia carros melhores, produzidos nas oficinas da própria Sorocabana, metálicos, mas que eram pesados demais para serem puxados pelas locomotivas a vapor. Só eram usados com as diesel, que conseguia puxá-los.

Pois é, estes são alguns detalhes sobre a velha Cantareira seis anos antes de sua morte. Era previsível. Em parte do seu percurso, do início até a estação de Santana, ela foi substituída pelo metrô. Parte do velho ramal de Guarulhos também recebeu, na região do Jardim São Paulo e em Tucuruvi, metrô. Até a estação Parada Inglesa manteve seu nome de Cantareira, embora seja completamente diferente na aparência e também no local.

Mas seria interessante ver o que seria hoje a Cantareira se houvessem mantido os velhos percursos substitundo-os por linhas com as da CPTM e mantendo as velhas estações restauradas.

2 comentários:

  1. "Mas seria interessante ver o que seria hoje a Cantareira se houvessem mantido os velhos percursos substitundo-os por linhas com as da CPTM e mantendo as velhas estações restauradas."
    Desejaria o mesmo se o traçado fosse mantido. É muito estranho hoje ver Guarulhos sem uma linha férrea.

    Abraços,
    Adrianno

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  2. Seria maravilhoso ver restauradas as linhas férreas e principalmente as estações,sou apaixonada por trens e fico lhe muito grata por suas postagens . Cosegui varias foos e seu nome em Soledade de minas, Muitíssimo obrigado.

    Romilda S. de Souza

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