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sábado, 24 de março de 2012

AUXÍLIO-ALIMENTAÇÃO: UMA VERGONHA


Quando eu era garoto, pegava o jornal que meu pai comprava e abria direto na seção de esportes. Que notícias poderia ter? O meu time ter ganhado ou perdido na noite anterior. Grande coisa. Eu mal lia ou me importava com o resto do jornal.

Eu fui crescendo e a situação mudou. Já de há muito tempo a parte de esportes é a última que leio, quando leio. Eu leio os outros cadernos e, como isso sempre acontece de manhã bem cedo, leio as notícias geralmente muito ruins, no meio de outras notícias totalmente irrelevantes, como "capas para celular ganham novos desenhos".

No resto, desgraças e absurdos. "Dilma assume negociação para aprovar lei ambiental". Sem entrar no mérito da lei, isso significa não que isso sginifique que ela vá divulgar aos deputados e senadores a defesa de seu ponto de vista, mas sim que, para defendê-lo, ela irá ter de prometer vantagens e benesses para determinadas pessoas e partidos. Ou seja, a função de um congressista hoje em dia é tirar vantagens pessoais de "negociações" como esta e não votar uma lei conforme a sua opinião a respeito dela de acordo com o que seu eleitorado deve querer. Para piorar as coisas, mesmo que ele fizesse isto, o seu eleitorado em grande parte não pensa absolutamente nada a respeito do assunto.

Mas entre as notícias absurdas e em alguns casos quase inacreditáveis, existe sempre a pior do dia. A de hoje é a que tem a manchete "TJ-SP estende a todos os juízes verba de alimentação". Quer dizer então, para um sujeito ingênuo, que os juízes e desembargadores - 2.360 ao todo - deste Estado ganham tão mal que não têm dinheiro nem para comer? Ou, pior, talvez trabalhem tanto que nem têm tempo para comer?

Não é bem isso. Juízes não dão nem conta do serviço que têm. Há pilhas e pilhas de processos nas varas e outros nomes que se dão aos lugares onde eles trabalham. Não diminuem com o tempo: só aumentam. Os juízes que já ganham muito bem e têm um regime salarial muito diferente - e melhor - do que os trabalhadores comuns não conseguem dar conta do serviço e isto já há anos. E agora, vão encarecer mais ainda a folha de salários do Estado com um salário-alimentação.

Se há dinheiro para isso, não haveria também para todos os outros trabalhadores públicos e das empresas privadas? E para os aposentados? E olhe - tem de ser no mesmo valor para cada um deles, pois todos comem igual, todos têm necessidades iguais em termos de pôr comida no estômago, independentemente de serem pobres ou ricos.

É uma vergonha que uma determinada classe tenha vantagens em relação a outra - especialmente quando, no caso citado, é essa própria classe que decide isso. Ora, quero também uma classe de "outros trabalhadores" - ou seja, os que não fazem parte do Judiciário - que tenha o poder de também legislar em causa própria. Nessa classe de "outros", que deverá ser um quarto poder na República (esta já tem três e, como o Judiciário é uma delas, o "outros" também deverá ser uma, a quarta) também há gente que trabalha muito, gente que trabalha pouco, gente que não dá conta do serviço, gente que dá conta do serviço e gente que come - neste último caso, todos. Então, também terão direito ao "auxílio-refeição", que certamente serã muito maior do que aquela esmola a que chamam hoje de salário-família, pago a quem tem filhos.

Porém, como somos todos uns frouxos, tudo vai continuar a ser do jeito que é. Já estou muito velho para estudar para ser juiz. Se eu tivesse hoje dezoito anos, porém, certamente iria fazer um curso de Direito e no final estudar muito para ser juiz, para ter direito ao que todo brasileiro deveria ter e não tem - só juízes, inclusive aquela parte que não dá conta do serviço que tem.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

VERGONHA NACIONAL


Os brasileiros, que ontem à noite em Belém do Pará cantaram tão bem o hino nacional (surpreendente saber que tanta gente conhece a letra) no estádio antes do jogo Brasil e Argentina, ainda têm muito a aprender. Seria bom aprenderem antes que o país acabe.

Mas, acabar? Por quê? Não, não se trata do problema do calendário azteca no final do ano que vem. Trata-se de um possível esfacelamento em alguma época futura, que pode estar próxima ou mais longínqua, causada pela falta de vergonha na cara. Ou seja, eventuais áreas com mais vergonha na cara do que outras tentarem e conseguirem se separar das outras justamente por terem mais (ou menos, sei lá!) vergonha de serem brasileiros.

Afinal, o brasileiro vem sendo escorchado durante anos a fio - mais de um século, quase dois, e isto contando-se somente o tempo de independência em relação ao império português - pelos seus governantes e diversos poderes sem protestar contra nada.

Quando foi a última vez que os brasileiros realmente protestaram? Revolução de 1932, em São Paulo? Revolução de 1930? Foi o povo ou setores do exército que promoveram essa agitação? Que não lembrem dos caras-pintadas, que me pareceu mais uma brincadeira de jovens do que um protesto real. Ou das "diretas~já", promovidas pelos políticos da oposição. Não me parecerem grandes protestos.

Já desde o governo daquele nefando maranhense, cujo nome não quero citar para não lhe fazer mais propaganda ainda (pois até no governo militar um escândalo geralmente fazia cair um ministro, um governador) que não adianta a mídia publicar escândalos - o governo nem liga. Itamar ligou? Fernando Henrique? Lula? Dilma?

Ah, mas há um mês o povo se revoltou contra Ricardo Teixeira no Twitter. Grande coisa. Por pior que Teixeira possa ser, ele preside uma associação que todos dizem corrupta e voltada para interesses pessoais que - notem - é uma entidade privada. Vai mudar a vida de alguém a queda de Teixeira? Só mesmo a dele. Ora, que se dane a CBF e quem os sustenta - as federações de futebol estaduais, também entes particulares. Que protestemos contra o que realmente nos interessa!

Enquanto isso, ninguém protesta contra o escândalo das verbas da Prefeitura e do Estado para um estádio paricular em Itaquera, nunguém liga para os escândalos dos ministérios e do Judiciário, fora os da Câmara e das Assembleias estaduais, e das prefeituras - quais escândalos? Quais Câmaras, quais Assembleias, qual Judiciário(!?), quais ministérios? Ora, se você não sabe quais foram, é porque você não se importa com eles, pois eles foram graves e sérios e todos aconteceram nos últimos dois ou três meses.

Fora Ricardo Teixeira, mas não "fora ministro, fora deputado, fora vereador, fora prefeito, fora secretário"? Será que o brasileiro gosta de sofrer mesmo? É duro ler os jornais todas as manhãs. A seção de cartas dos leitores é terrível. Concordo com praticament tudo que os leitores escrevem em suas cartas decepcionadas e indignadas - mas adianta? Nada muda. Os governantes não lêem jornais e, se lêem, dão risada. Aliás, é sabido, alguns nem sabem ler, são analfabetos, ou semi.

As cartas enviadas para a seção de reclamações contra empresas e serviços públicos são inacreditáveis. Existem leis que protegem os consumidores e, na caradura, diversas empresas não ligam a mínima para isso. Muitas nem respondem ou, se o fazem, escrevem cartas-padrão que muitas vezes não respondem a nada que o leitor reclamou. E fica tudo por isso mesmo. Dizem os advogados e juízes: "procurem a Justiça". Para que? Para ficar esperando anos e anos para se decidir sobre coisas que nem de julgamento precisariam, bastaria conferir com o que dizem as leis? Processos se arrastam pelo judiciário por décadas, às vezes por questões mínimas.

A vergonha na cara está em processo de extinção. Os políticos e empresários já a perderam em sua grande maioria; o povo está perdendo-a também, por conivência. E tome pão e circo: Copa do Mundo, Rock in Rio, Olimpíadas. E que se pegue o escudo na camisa do seu time que o torcedor veste e beije-o, mostre para a televisão (nunca viu?). Para que? É como esconder a cabeça no chão como fazem os avestruzes.

Um amigo meu disse que eu estou rabujento e desesperançoso, que sinto um rancor tremendo atualmente. Bom, com 59 anos, quase 60 e tendo uma experiência de vida como a que tenho, devo sentir o que?

Mas que ele não se preocupe, já estou em alto grau de alienação. Meu humor vai melhorar a partir da hora em que eu aceitar tudo. Quem mandou meu pai me educar para ser um cidadão honesto? E quem mandou eu aprender? Devia ter sido um mau aluno e filho ausente.

Sinto saudades de meu pai. E graças a Deus ele não está vendo tudo isto. Hoje, com os 91 anos que teria, ele ficaria desiludidíssimo com a vida.