Comento aqui sobre uma crônica publicada no jornal O Estado de S. Paulo no dia 12 de setembro de 1906 - portanto, pouco mais de oitenta e nove anos atrás.
Nessa época, essa região - no caso, o oeste que começava a ser desbravado para além da cidade de Cerqueira César - era o início da "terra desconhecida e povoada por índios", que aparece nos mapas do final do século XIX e início do XX.
Desde 1896, os trilhos da Sorocabana terminavam ali, na estação dessa cidadezinha, que, por todo esse período, cresceu muito, como costumava acontecer com as "bocas de sertão", que recebiam todas as mercadorias que vinham de além dela, por estradas e picadas horrorosas e que eram embarcadas nos comboios puxados por locomotivas a vapor que trafegavam, em quase todo seu trajeto até São Paulo, entre matas pouco ou nada exploradas.
Somente no final desse ano de 1906 os trens avançaria, por linhas recém-construídas e que seguiam para o lado de Piraju e de Santa Cruz do Rio Pardo. Dali em diante, a ferrovia avançaria bem mais rápido e chegaria em 1922 a Presidente Epitácio.
O que me chamou a atenção foi exatamente o fato de que não existem tantas histórias assim daquele território misterioso. A história não é tão curta e está colocada no fim de minha postagem.
De início, achei que o artigo era de autoria de um tal Frei Manuel, pela forma que seu nome estava colocado no início do texto. Não era. Era, realmente, o título. Fala de Cerqueira César e de Três Ranchos - este último, um nome que começava a desaparecer, pois era o nome primitivo de Cerqueira César. Quem sabe hoje onde ficava ou o que era Três Ranchos?
Fala também de animais e plantas que hoje, se lá ainda existem, já serão decerto raridades, com o avanço da civilização para dentro de um espaço que era dominado exatamente por eles. Fala também de outros nomes quase esquecidos, como o Araquá, São Manuel do Paraíso, fala das aventuras e desventuras de um certo Frei Manuel. E, no fim, o nome do autor de tudo isto, Valdomiro Silveira. Enfim, vale a pena ler.
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sexta-feira, 4 de dezembro de 2015
domingo, 13 de maio de 2012
TRILHOS EM MANDURI, SÃO PAULO
A estação atual de Manduri. Foto de 2010 (Douglas Nascimento)Diversas cidades pelo Brasil tiveram suas estações ferroviárias deslocadas do local original. A construção de variantes que corrigiriam antigos erros de traçados de projetos originais, de forma a aumentar a velocidade dos trens e reduzir o índice de acidentes em pontos cruciais das linhas, foram sempre feitas à medida que a evolução tecnológica favorecia essas alterações.
Uma dessas cidades foi a pequena Manduri, localizada entre as cidades de Avaré e de Ourinhos, na linha-tronco da E. F. Sorocabana. A linha original por ali passou em 1908. Nos anos 1960, uma nova modificação foi feita, principalmente para facilitar a eletrificação da linha, que já havia alcançado Avaré e deveria seguir pelo menos até a cidade de Assis. Para isso a redução de curvas era essencial.
Manduri, final dos anos 1930 (Emilio Tozoni Neto/O Diário de Manduri). Ainda passava pela cidade a linha original (assinalada como Sorocabana), que vinha de Cerqueira Cesar (da esquerda da foto). A estação estava na avenida Brasil.Não se sabe a data exata em que isso ocorreu, mas foi na primeira metade da década de 1960. No caso de Manduri, a modificação da linha foi grande. O leito da linha velha cruzou o leito da linha nova na entrada da cidade perpendicularmente. A estação velha, que ficava atrás do que hoje é a igreja matriz estava situada numa rua que, hoje, é perpendicular à rua que acompanha a linha atual.
Manduri, anos 1940. Local da velha estação. (Instituto Geografico e Cartografico). A rua Nhonho Braga é a atual avenida Brasil.A estação original era um prédio bem típico da Sorocabana no início do século XX. Durante algum tempo, nos anos 1950, esse prédio parece ter sido substituído por um de madeira (provisório? não há explicação de porque nem quando houve essa modificação), aparentemente ainda no mesmo local. Em meados dos anos 1960, na linha nova, a estação nova e atual, bem maior, foi construída na nova linha da cidade.
A estação original de Manduri (Autor desconhecido).Hoje e desde sua desativação nos anos 1990, a estação está fechada e semi-abandonada. A linha tem pouca utilização - um ou dois cargueiros de combustível passam por ali por semana, no máximo.
Manduri nos dias atuais (Google Maps). Notar à esquerda da foto o leito não mais utilizado da linha velha. A linha nova vem do canto esquerdo superior para a parte inferior central da foto. A estação nova está próxima a onde se cruzam o leito da linha velha e a linha nova.A cidade pouco cresceu para além da linha nova. A cidade permanece pequena. A população não passa de 9 mil habitantes no censo de 1910. No local da antiga estação não há nada mais que lembre algum tipo de ferrovia. Há de se considerar que dali saía também um ramal para a cidade de Piraju, que deixou de funcionar em 1966. Diagramação das fotografias Adriano Martins.
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
PEQUENAS CIDADES
Para chegar a Bernardino de Campos a partir de Ipaussu, saí por volta de 11 horas e peguei a estrada. A um certo ponto existe a entrada para uma fazenda que visitei em 2004 com minha esposa quando estávamos a caminho de Londrina. É a Fazenda Palmeiras, que tinha ao lado uma bela estação de nome Luiz Pinto e que foi demolida ainda nos anos 1990. Muito interessante o local, mas desta vez não parei ali. Fica o relato para uma outra vez.
Cheguei a Bernardino de Campos. A cidade está bem cuidada, mas não exatamente ao longo da linha férrea, exatamente onde nasceu em 1908, a parti da estação que então havia recebido o nome de um presidente do Estado no final do século XIX. As construções não são muito interessantes, mesmo a estação tem um prédio certamente não o original. Este, dizem os registros, foi entregue em 1939 e tem a mesma tipologia arquitetônica da estação de Lençóis Paulista, construída na mesma época.
Ela fechou nos anos 1990; esteve semi-abandonada, estava bem mal cuidada quando ali estive em 1999, mas agora funciona abrigando órgãos da Prefeitura local. A pintura tem desemnhos infantis: isto tornou o prédio horroroso. Há ainda algumas casas em volta, inclusive o veho armazém. Como nas outras cidades na região da linha da velha Sorocabana, o tráfego de cargueiros é apenas eventual.
Saí da cidade, passando então por um vilarejo de nome Batista Botelho, sede de um distrito do município de Óleo. Este foi constituído no final do século XIX, mas jamais se desenvolveu: sua permanência como município já por mais de cem anos é uma verdadeira aberração. Nem Batista cresceu, embora esta sim estivesse junto à linha: a vila não tem mais do que meia dúzia de quarteirões, com algumas casas antigas e de madeira. A Óleo, nunca fui, mas fica longe da linha. A estação de Batista Botelho foi demolida nos anos 1980, sobrando somente a plataforma.
Continuei a viagem, passei direto pela saída para Piraju, por Manduri, pela saída para São Berto e cheguei a Cerqueira César, a antiga Três Ranchos. Esta estação, depois cidade, foi instalada em 1896 pela Sorocabana e permaneceu como terminal da linha-tronco por dez anos. Isto fez com que seu crescimento fosse grande nesse período, começando a decrescer quando à medida que a linha começou a avançar para os lados de Manduri, Piraju, Ourinhos e dali até o rio Paraná, onde chegou em 1922.
Com isso, Cerqueira César manteve muito de seus prédios mais antigos e não cresceu grande coisa. A estação, por seu estilo, aparenta ser a mesma dos tempos de sua fundação. Dois andares, janelas arqueadas... bonita. Hoje é sede, também, de órgãos da Prefeitura local.
De lá fui a Avaré, cruzei a cidade e segui pela rodovia que a liga com a rodovia Castelo Branco. A intenção era seguir por uma outra estrada, que a liga com Itatinga e somente ali chegar à Castelo; mas a sinalização omissa de Avaré fez com que eu acabasse mesmo chegando à estrada que eu não queria.
Pela Castelo Branco, um estirão só até minha casa, onde cheguei perto das cinco da tarde. Fim de uma viagem de dois dias pelo interiorzão, nas antigas "terras desconhecidas e povoadas por índios" de cem anos atrás. Era o dia 29 de dezembro da semana passada.
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