sexta-feira, 21 de agosto de 2015

FEPASA, A FERROVIA DO DESESPERO

A estação de Inubia Paulista, 22 anos após seu fechamento, em 2006; Hoje está conservada para outro uso. Nem cargueiros passam por lá hoje - apesar de haver trilhos e a linha ser concessionada à Rumo/ALL. Foto Rafael Correa

Muito se fala da FEPASA. Hoje em dia, há muita gente sentindo saudades dela (até eu), pelo simples motivo de que ela era ruim, mas tinha trens de passageiros e tinha trens de carga em todas as linhas, tinha eletrificação, tinha muito mais linhas do que a ALL/Rumo tem...

Bom, e há gente que diz que a FEPASA veio para acabar com as ferrovias que a formaram. Não deixa de ser verdade... mas ela não destruiu tudo. Até fez novas linhas (todas, ou quase todas, completando obras iniciadas pelas suas formadoras).

O objetivo deste artigo é o de mostrar como a FEPASA agia quando fechava linhas e estações. Pelo menos, como era nos anos 1970.

Lendo sobre o assunto, a FEPASA formou-se oficialmente em novembro de 1971 e já recebera as linhas de Paulista, Sorocabana, Mogiana, E. F. Araraquara e São Paulo a Minas parcialmente mutiladas. Diversos ramais haviam sido extintos entre 1956 e 1969. Mesmo assim, sobravam ainda alguns, nem tão poucos assim, e supostamente deficitários. Os últimos ramais a serem fechados foram o de Jundiaí a Itaici, da Sorocabana (chamado de "Ituana"), e o trecho final da linha do rio Grande (entre Pedregulho e Rifaina), da Mogiana, em 1970.

E a festa continuou. Muitas estações passaram a ser fechadas. Em 1976, a empresa anunciou a intenção de fechar cerca de cento e oitenta estações pelo Estado todo. Num Estado onde várias linhas - e consequentemente estações - haviam sido desativadas nos últimos quinze anos, era uma quantidade realmente grande. Para se ter uma ideia, a empresa informava que havia apenas 250 estações ainda abertas no interior paulista e esperava que, com as desativações previstas, apenas setenta continuariam em funcionamento.

O fantasma do desemprego assustava os funcionários. O medo de perder a linha que passava pela cidade assustava o cidadão. A falta de estrutura embarcando e desembarcando em uma estação nem sempre dentro da cidade durante a noite assustava o passageiro.

Alguns exemplos podem ser dados dessa época. No mês de agosto de 1976, a FEPASA fechou duas estações no Tronco Oeste (Alta Paulista). Uma foi a de Inúbia Paulista, que, segundo o jornal O Estado de S. Paulo, foi, juntamente com Irapuru, as duas primeiras dessa linha a serem fechadas. Nesta última cidade, a decisão teria sido arbitrária e sem levar em conta o interesse da população. Outras estações da Alta Paulista deveriam ser fechadas após as eleições de novembro, para não prejudicar a ARENA, o partido do governo militar.

Os primeiros problemas que o fechamento de Irapuru causaram: havia encomendas e cargas para esta estação que, por haver sido fechada, foram descarregadas em Pacaembu e os seus donos não queriam pagar o frete rodoviário para retirá-las ali. Já Inúbia não possuía estradas de rodagem em bom estado. Os ônibus da região somente recolhiam passageiros no trecho rodoviário, a cerca de dois quilômetros da cidade. A estação já estava fechada e com todo o aparelhamento retirado do prédio. Tudo isso ocorreu sem aviso prévio.

Em Irapuru, a estação foi fechada sem que o trem houvesse retirado uma carga de café - duas mil sacas no armazém -, o que fez com que ela tivesse de ser retirada de outra forma, com mais custos. A estação foi totalmente abandonada, e os passageiros passaram a ter de embarcar e desembarcar esperando os trens ao relento: a sala de espera também foi fechada e lacrada. Não havia mais sanitários abertos (e estavam imundos) e nenhum funcionário para dar qualquer informação. Os táxis não seguiam mais para a estação, pois os trens atrasavam cada vez mais frequentemente. Não havia outra solução a não ser ir a pé para a cidade.

Dois anos mais tarde, a FEPASA acabou com o tráfego de trens de passageiros no ramal de Dourados, na Alta Sorocabana. Tal aconteceu exatamente em 30 de novembro de 1978. "Os velhos trens sujos, escuros e malcheirosos e sempre atrasados que faziam o percurso de 162 quilômetros entre Euclides da Cunha e Presidente Prudente foram recolhidos na semana passada", dizia o arito do O Estado de S. Paulo de 9/12/1978. Eram trens mistos que faziam a linha que levava passageiros sem outra opção na época ao Pontal do Paranapanema.

E foi fechada sem prévio aviso. Um belo dia, os chefes das estações de Euclides da Cunha e de Teodoro Sampaio receberam um aviso para cruzarem os braços e não venderem mais passagens. Todos os trens foram recolhidos no mesmo dia vazios para Presidente Prudente. No mesmo dia, os trabalhadores receberam ainda a notícia que seriam transferidos e começou-se a retirar todo o aparelhamento dos prédios. Somente duas estações permaneceram abertas: Euclides da Cunha e Pirapozinho, pois nela havia carregamento cargueiro, que também não duraram muito tempo mais.

Ali, os ônibus - quando existiam - eram mais caros que a viagem por trem. Muitos professores as usavam para irem lecionar em outras cidades. Na verdade, a maioria das estações já tinham sido fechadas ainda com o trem funcionando.

Era assim que a FEPASA tratava seus passageiros. Apesar disso, os trens de maiores distâncias sobreviveram por mais vinte anos até acabarem por falta de passageiros - na verdade, afastados pela própria ferrovia, que piorava o serviço a cada dia que passava.

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