domingo, 26 de janeiro de 2014

O FUTURO DOS TRILHOS NO CEARÁ

Estação abandonada em Umarituba, no Ceará (Foto Panoramio/Paulo Regis)

No dia 17 de janeiro, escrevi aqui um artigo versando sobre o fechamento da estação Professor João Felipe, a estação central de Fortaleza. Três dias depois, o jornal Diário do Nordeste, de Fortaleza, publicou seu editorial falando do mesmo assunto.

Achei muito bem escrito e, além do mais, feito por um escritor que é do local e conhece a situação bem melhor do que eu. Transcrevo-a abaixo. Como sempre em termos de ferrovias, o teor é pessimista.

Editorial: O futuro dos trilhos 20/01/2014

Diário do Nordeste

 No ano em que o Brasil celebra os 160 anos de sua primeira ferrovia, a Estrada de Ferro Mauá, no Rio de Janeiro, o Ceará desativa seu mais emblemático símbolo dos trilhos, a Estação Ferroviária João Felipe, no Centro de Fortaleza.

Nos últimos dias da principal estação da capital cearense, 8.000 passageiros passavam diariamente pelo local. Entretanto, mesmo com a movimentação, o ambiente já era cercado por uma atmosfera de abandono. Não só físico, mas imaterial e subjetivo. Uma passagem pelo entorno denunciava o problema.

A Praça da Estação, repleta de mendigos, nos últimos anos transformou-se em retrato da precariedade social. Não apenas devido à presença dos moradores de rua, mas por conta da insegurança instalada, dos pontos de transporte coletivo irregular e devido à feira que ocupou o espaço público e só foi retirada com aparato policial.

Diante do quadro formado e da desativação, não é de admirar que há pelo menos 15 anos se fala em transformar a estação em área com equipamentos de lazer, inclusive museu, praça e restaurantes. Mas não há sequer data para esse projeto ser posto em execução.

A primeira estação ferroviária cearense foi a Estrada de Ferro de Baturité, cuja obra foi iniciada em 1871. A estação movimentava e abastecia a economia do Maciço de Baturité e da Região Metropolitana de Fortaleza. Hoje o local é um ponto turístico praticamente esquecido até dos festivais culturais da serra.

No interior, há dezenas de estações em situação semelhante ou pior. Muitas foram compradas por empresários na época de desativação da Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima (RFFSA). Sinos, bancos, caixas registradoras e móveis ganharam destino desconhecido. Poucas ainda são lembradas ou utilizadas. Municípios cuja economia dependia da malha férrea cresceram e desvincularam o desenvolvimento aos trilhos.

Nas últimas duas décadas, uma nova configuração vem-se formando. Com o crescimento das cidades, metrôs e veículos leves sobre trilhos (VLTs) ganharam espaço importante nas capitais como opção para transporte de massa urbano e de carga.

Hoje o discurso remonta à integração entre ferrovias e estradas. Especialistas apontam que, em uma década, Fortaleza usufrua totalmente da ampliação das linhas de metrô e VLT, como já acontece em metrópoles norte-americanas, europeias e asiáticas.

Enquanto isso não acontecer, o que se vislumbra para a região hoje em obras, no Centro, não é um quadro otimista. Uma série de contratempos, como desvios no tráfego, nas linhas de ônibus e prejuízos para o comércio são transtornos imediatos. Mas é uma situação provisória. Mudança cultural e de infraestrutura só será vista com o funcionamento pleno do percurso subterrâneo para a Linha Leste do Metrofor.

A obra é orçada em cerca de R$ 3,5 bilhões. Uma linha totalmente subterrânea, com 12,4km de extensão, interligará o Centro ao bairro Edson Queiroz, com uma estação de metrô no Fórum Clóvis Beviláqua. Para isso, é necessária ação entre as esferas federal, estadual e municipal.

Com custos elevados, obras demoradas e benefício a médio e longo prazo, antes de tudo é preciso empenho político, já que dificilmente uma obra dessa alçada é projetada, licitada, executada, inaugurada e liberada em uma única gestão de governo. Enquanto isso, espera-se que, no caminho, os trilhos não se percam na história.

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