terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O RAMAL DE PASSOS FAZ CEM ANOS

Locomotiva que inaugurou o ramal de Passos, de Guaxupé a Guaranésia, em 23/6/1912

O ramal de Passos, construído pela Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, completa cem anos neste ano da graça de 2012. Na verdade, o que faz centenário em junho é a abertura do primeiro trecho dessa linha que ligava a cidade mineira de Guaxupé - na divisa com São Paulo - à cidade de Passos.

Esse trecho inicial tinha cerca de quinze quilômetros e unia Guaxupé a Guaranésia. A Mogiana tinha diversas linhas em território mineiro, tendo sido a primeira delas a linha de Caldas, que ligava Cascavel (hoje Aguaí) a Poços de Caldas, também na fronteira paulista, seguida da linha do Catalão (estação de Jaguara, junto ao rio Grande, até Araguari). Quase ao mesmo tempo, a linha Casa Branca-Guaxupé. Logo depois, o ramal de Itapira, que chegava a Sapucaí, pequeno vilarejo pertencente ao município mineiro de Jacutinga. Finalmente, as três linhas que partiam de Guaxupé rumo a Biguatinga, Muzambinho e esta, de Passos.
Locomotiva diesel na estação de Guaranésia, anos 1970

As linhas de Guaxupé foram construídas com um empréstimo que a Mogiana recebeu no final da primeira década do século XX com a finalidade de construir sua linha para o porto de Santos. Com grandes empecilhos criados pela São Paulo Railway, tal qual em 1891, a Mogiana desistiu do projeto e optou por usar o dinheiro na construção de ramais "cata-café" na região mineira junto à paulista Mococa. Esta foi a origem dos três ramais construídos com ponto de partida nessa cidade.
A estação de Itiguaba em 2011

O ramal de Passos foi sendo prolongado aos poucos. Em setembro de 1912, chagou a Catitó, pequena estação de fazenda. Dois meses depois, a Itiguassu. Mais quatro meses e já estava na estação central da cidade de Monte Santo. Em agosto de 1913 avançou duas estações e chegou a Posses (hoje Itamogi, depois de se chamar também Arary), passando por Vicente Carvalhaes. Como se pode ver, todas estações de coleta de café em fazendas, com exceção das duas centrais.

Em setembro de 1914, abriu um novo trecho de trinta quilômetros, com três novas estações: Tapir, Ipomeia e São Sebastião do Paraíso. Esta última era estação de cidade, construída a alguns metros de onde já estava, havia quatro anos, outra estação da E. F. São Paulo a Minas. Como aconteceu em diversas cidades brasileiras, as ferrovias preferiam, em lugar de juntarem forças e dividirem estações, construir cada uma delas a sua própria, nem sempre unindo as linhas para complicar a vida do rival - e, indiretamente, a sua.

Plataforma da estação de Pratápolis em 2006

Somente cinco anos depois a Mogiana avançou mais sua linha. Em agosto de 1919, foi inaugurado outro trecho de trinta quilômetros: a vila de Espírito Santo do Prata era a estação terminal provisória, que recebeu o nome de Pratápolis, dado pela Mogiana. Havia mais uma estação intermediária: Itaguaba. A Guerra Mundial certamente interferiu nos gastos para o término do ramal. E mais: apenas em abril de 1921 foram abertos mais vinte quilômetros até Itaú de Minas, onde depois se instalou a fábrica de cimento Itaú, que por sua vez foi o berço do Banco Itaú, ali aberto depois como o braço financeiro da fábrica.

Finalmente, em dezembro desse mesmo ano, oito meses e vinte e seis quilômetros depois, a ferrovia chegou ao seu final planejado inicialmente: a cidade de Passos. Ali foi construída a maior das estações da linha, já com um estilo que começava a ser o preferido das estações da Mogiana erigidas até os anos 1940. Um grande pátio e armazéns a acompanharam para receber o café que chegaria das cidades além do terminal. Aliás, fala-se que um prolongamento até a cidade de Piumhy (com u em som nasal) teria sido rasgado pela ferrovia, existindo até hoje diversos cortes à frente de Passos feitos com este objetivo.
Estação de Passos em 2006

Com relação à arquitetura, nota-se que as primeiras estações construídas no ramal de Passos, até Ipomeia, ou seja, as que foram abertas até 1914, conservam o estilo arquitetônico das pequenas e médias estações da Mogiana do princípio do século: duas águas, frontão triangular dos dois lados e tijolos à vista. A partir de 1919, o estilo já se altera e Passos é a sua melhor caracterização, segundo Julio Moraes: "O formato e decoração das janelas, a decoração dos panos das fachadas, enfim, toda a 'cara' das fachadas foi intensamente copiado na arquitetura civil, exemplificando a influência que a arquitetura ferroviária exerceu sobre o 'gosto', a referência estética que criou para toda a população. Isto é apenas mais um dos muitos aspectos em que a ferrovia definiu muito do caráter da nossa cultura, e nesta estação percebemo-lo muito bem".

Por sim, pouco depois da finalização do ramal, em data incerta, foi aberto um posto telegráfico de nome Morro do Ferro, entre as estações de Itaguaba e Pratápolis, cuja função seria embarcar minério de ferro ali existente para a Usina Metalúrgica de Ribeirão Preto, utilizando, para isso, a linha da São Paulo-Minas a partir de São Sebastião do Paraíso. Com a falência dessa indústria em 1930, o posto ainda seguiu funcionando até 1958, quando fechou.

Em 1968, a São Paulo e Minas passou para a administração da Mogiana. Em novembro de 1971, as duas ferrovias, com outras três, formaram a FEPASA e isso unificou de vez as duas linhas. Bastante deficitária na época, o trecho construído entre 1912 e 1914 foi extinto não muitos anos depois, unindo-se o trecho de São Sebastião do Paraíso com o da ex-SPM através de uma variante por fora da cidade, que fechou as duas estações existentes. Os trens de passageiros em todo o ramal e na ex-SPM foram extintos todos em 1976. Aliás, desde a falência da usina de Ribeirão Preto e logo depois a queda vertiginosa do transporte do café, os trechos já não eram atrativos, restando pouco o que carregar. Em data que parece ter ocorrido por volta de 1980, o trecho entre Itaú e Passos foi abandonado e os trilhos, retirados. Havia apenas cargas de cimento de Itaú para São Paulo. A partir dos anos 1990, nem isto.

Hoje, não há nada a comemorar além de trilhos velhos abandonados no meio do mato e velhas e bonitas estações largadas ao longo da linha. Pelo menos três não existem mais. As únicas que conheci pessoalmente, há cerca de seis anos, foram as de Pratápolis, Itaú de Minas e a de Passos. Valeram a pena.

3 comentários:

  1. Olá Ralph, é por isso que eu sigo você por mais de 10 anos!

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  2. Como mineiro, filho distante e ausente a muito tempo de Pratápolis, não teria como não comentar sobre esta ferrovia. Infelizmente não tive a oportunidade de ver trens passando pela estação da cidade. Mas a estação está lá, firme e forte como centro cultural.
    Parabéns pelo blog e pelo site Estações ferroviárias.
    Abcs e suce$$o
    Cesar Vieira

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  3. boa lembrança ralph.

    ABRAÇOS DO CANTOR ANTONIO BORBA.

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