Estações e ferrovias sofrerem com o excesso de chuva. Aqui, a estação de Entroncamento, em Jardinópolis, às margens do rio Pardo, ficou debaixo d'água
Falei em enchentes na minha última postagem (dia 1o de janeiro), mas sempre é interessante lembrar da enchente de janeiro e de fevereiro de 1929, possivelmente a maior do século na Capital e no Estado - inclusive Rio, Minas e Paraná.
A enchente jogou o leito dos rios Tietê, Tamanduateí e Pinheiros para fora de seus leitos. Praticamente todos os bairros ribeirinhos sofreram com as inundações. No interior, as ferrovias pararam durante dias em diversos pontos, dificultando a comunicação.
Na Capital, a saída para Itu era impossível, já que a estrada estava inundada a partir do km 18 em Osasco - hoje, nas imediações da estação ferroviária de Comandante Sampaio (que, na época, não existia). No km 21 também havia problemas, pela enchente do rio Carapicuíba. Esta estrada hoje é o eixo Corifeu de Azevedo Marques - Autonomistas e que segue até Jandira.
Para Campinas, a estrada era a Estrada Velha, que, em Pirituba, estava inundada. Para Santana de Parnaíba, ambos os acessos estavam inundados - a hoje avenida Mutinga ("estrada de dentro") e a própria Estrada de Itu ("estrada de fora").
No Bom Retiro, as ruas Anhanguera e a Cruzeiro viraram rios - vejas as fotos aqui postadas.
Na Casa Verde, famílias deixavam o bairro procurando locais para se mudarem, carregando o que podiam.
Na região do Pari, a cheia tomou ruas como a Santa Rosa e a Senador Queiroz.
Rua Senador Queiroz
Rua Santa Rosa
Na Ponte Pequena, a situação não era muito diferente.
Enchentes na Ponte Pequena.
Em Santo Amaro, ainda município, a região do Socorro ficou debaixo d'água.
Santo Amaro. Locais irreconhecíveis, mas junto ao rio Pinheiros.
Corria o boato que a cheia havia sido provocada pela Light, que não havia fechado o fluxo de água para o rio Pinheiros. Qual a vantagem que ela teria? Ora, estava estabelecido no contrato de retificação e canalização do rio (que seria construído no final dos anos 1930 e nos anos 1940 e 50) que a faixa a ser entregue à empresa para tal seria a linha máxima de enchente histórica. Tirem as conclusões.
O interessante foi a "guerra dos terrenos" que apareceu nos jornais de fevereiro, à medida que a cheia aumentava: loteadoras vendendo terrenos em locais que "não inundavam". Este anúncios podem ser vistos abaixo. Pelo nível das construções que hoje existem na maioria destes bairros, dá para ver que somente quem tinha bastante dinheiro poderia usufruir desta "garantia de não-inundação".
Os terrenos em Gopoúva eram mais baratos, pois ficavam em Guarulhos, divisa com São Paulo. Mesmo assim dizia claramente que estava livre de inundações.
As fotografias que aqui aparecem foram conseguidas nos jornais "Folha da Manhã" de fevereiro de 1929. Apesar da baixa qualidade das fotografias, elas dão uma boa ideia dos estragos.
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domingo, 3 de janeiro de 2016
sexta-feira, 1 de janeiro de 2016
BRASIL: ENCHENTES URBANAS HÁ 500 ANOS
Uma das inundações recentes no Jardim Rochedale, em Osasco, SP (Jornal Pagina Zero)
O ano novo começou com muita chuva no sul do País. Em muitos dos locais atingidos por elas isto significa tragédia.
Em muitas das inundações causadas por elas nos últimos dias, não houve mortes. No entanto, houve-algumas, o que já é suficiente para enlutar brasileiros que, para piorar a coisa, perdem muitas vezes a quase totalidade dos seus bens.
A quem culpar por tudo isto? Os governos? Bom, sempre há sua parcela de culpa, mas, em muitas das situações, esta culpa pode remontar há décadas. Estes culpados já estão, em muitos casos, mortos. Culpados de terem aprovado (ou de nada terem feito para impedir) loteamentos legalmente constituídos ou clandestinos em áreas que já sofriam alagamentos constantes.
Algumas das inundações são inevitáveis. Algumas podem ser raras onde apareceram, mas nada poderia evitá-las.
Em outros casos, no entanto, e aí se incluem geralmente as áreas urbanas no meio de cidades grandes, esses alagamentos são evitáveis. Ou melhor, teriam sido, se as áreas não estivessem em áreas que se tornaram alagadas por causa da imensa impermeabilização do solo em volta, da mal-feita canalização de córregos e rios na região e da quantidade de lixo amontoada nas ruas e em áreas públicas, que incluem lixo jogado nas ruas e córregos e lixo que ainda não havia sido recolhido pelos caminhões da Prefeitura.
Esqueci de algo?
O fato é que, em muitas situações, não há outra solução, além de se evacuar o bairro e reflorestá-lo, deixando ali um mínimo de impermeabilização, para constituir um parque, por exemplo. Se isto não for feito, o sofrimento constante continuará. Piscinões podem ser a solução, mas não em todos os casos. Mais: o equipamento precisa passar por manutenção constante, o que não é um procedimento comum em terras brasileiras.
Apesar de tudo o que tem ocorrido desde tempos coloniais e imperiais, povo e governantes não aprenderam.
Um exemplo muito recente: o tal Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, inaugurado nos últimos dias de 2015. Sem entrar na existência do museu em si, há uma série de erros que foram feitos em sua construção, sendo o principal deles, o concretamento do piso entre ele e o prédio do antigo jornal "A Noite", uma vasta área que, de verde, tem apenas uma ou outra árvore plantada no meio de pequenos círculos no concreto. O correto, e mais que óbvio tendo em vista os problemas citados mais acima neste artigo, seria deixar a área gramada e bastante arborizada. Claro que não seria fácil manter a grama; porém, ainda assim, seria melhor arriscar ter esse terreno apenas com terra (e as árvores) a céu aberto, por mais absurdo que isso possa parecer.
Vemos que nossos governantes não aprendem, mesmo.
O ano novo começou com muita chuva no sul do País. Em muitos dos locais atingidos por elas isto significa tragédia.
Em muitas das inundações causadas por elas nos últimos dias, não houve mortes. No entanto, houve-algumas, o que já é suficiente para enlutar brasileiros que, para piorar a coisa, perdem muitas vezes a quase totalidade dos seus bens.
A quem culpar por tudo isto? Os governos? Bom, sempre há sua parcela de culpa, mas, em muitas das situações, esta culpa pode remontar há décadas. Estes culpados já estão, em muitos casos, mortos. Culpados de terem aprovado (ou de nada terem feito para impedir) loteamentos legalmente constituídos ou clandestinos em áreas que já sofriam alagamentos constantes.
Algumas das inundações são inevitáveis. Algumas podem ser raras onde apareceram, mas nada poderia evitá-las.
Em outros casos, no entanto, e aí se incluem geralmente as áreas urbanas no meio de cidades grandes, esses alagamentos são evitáveis. Ou melhor, teriam sido, se as áreas não estivessem em áreas que se tornaram alagadas por causa da imensa impermeabilização do solo em volta, da mal-feita canalização de córregos e rios na região e da quantidade de lixo amontoada nas ruas e em áreas públicas, que incluem lixo jogado nas ruas e córregos e lixo que ainda não havia sido recolhido pelos caminhões da Prefeitura.
Esqueci de algo?
O fato é que, em muitas situações, não há outra solução, além de se evacuar o bairro e reflorestá-lo, deixando ali um mínimo de impermeabilização, para constituir um parque, por exemplo. Se isto não for feito, o sofrimento constante continuará. Piscinões podem ser a solução, mas não em todos os casos. Mais: o equipamento precisa passar por manutenção constante, o que não é um procedimento comum em terras brasileiras.
Apesar de tudo o que tem ocorrido desde tempos coloniais e imperiais, povo e governantes não aprenderam.
Um exemplo muito recente: o tal Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, inaugurado nos últimos dias de 2015. Sem entrar na existência do museu em si, há uma série de erros que foram feitos em sua construção, sendo o principal deles, o concretamento do piso entre ele e o prédio do antigo jornal "A Noite", uma vasta área que, de verde, tem apenas uma ou outra árvore plantada no meio de pequenos círculos no concreto. O correto, e mais que óbvio tendo em vista os problemas citados mais acima neste artigo, seria deixar a área gramada e bastante arborizada. Claro que não seria fácil manter a grama; porém, ainda assim, seria melhor arriscar ter esse terreno apenas com terra (e as árvores) a céu aberto, por mais absurdo que isso possa parecer.
Vemos que nossos governantes não aprendem, mesmo.
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