domingo, 18 de maio de 2014

TRENS QUANDO MORREM VÃO PARA O CÉU? OU: A MORTE DE UMA CONSTELAÇÃO

O Estrela vira sucata na semana passada
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A frase do título deste artigo pode ser polêmica e até imbecil, mas o fato é que a São Paulo Railway, depois E. F. Santos a Jundiaí transportaram, durante entre 30 e 40 anos na linha de 140 km atualmente dividida entre a CPTM e a cargueira MRS, TUDs (Trens Unidade Diesel) de nomes Cometa, Planeta, Satélite e Estrela passageiros entre São Paulo e Santos.

O primeiro deles, o Cometa, chegou em 1933 e no mesmo ano foi inaugurado. A intenção era proporcionar uma viagem mais rápida entre as duas cidades para concorrer com os ônibus que já então existiam e que se utilizavam da Estrada Velha de Santos, ou Caminho do Mar.
Satelite, Cometa, Planeta, Estrela
As vias Anchieta e Imigrantes ainda eram então sonhos distantes.

Veículos mais leves, rápidos e ágeis, livravam-se das curvas de até 180 graus existentes na velha rodovia que descia a serra do Mar, a única estrada de rodagem até então asfaltada em todo o Estado paulista.

Esses trens formaram uma tradição e uma história. Tinham, como visto acima, nomes de astros do céu. Com a deterioração dos serviços, melhoras das estradas, construções de novas (as duas citadas, Anchieta e Imigrantes) acabaram com essa ligação ferroviária em 1996, mas os quatro "asteróides" terminaram bem mais cedo.

Foram abandonados e sucateados. Sobreviveram até a semana passada dois deles: o Satélite e o Estrela. Ete último, no entanto, foi cortado e removido para ser vendido como sucata há poucos dias, revoltando todos os preservacionistas e ferreo-fãs com discussões intermináveis na Internet.

O Satélite ainda existe, mas em péssimas condições. Suas chances de restauração são próximas de zero, tal sua condição precaríssima, enferrujado e podre.

A situação do Estrela era pior, se é que isto era possível. Ele estava exposto há anos no pátio de Paranapiacaba. Se era para ser restaurado, deveria tê-lo sido há pelo menos duas décadas. Hoje teria de ser constru;ido um novo, apenas seu motor pode - e vai - ser restaurado e preservado para exposição apenas.

Por que ninguém se mexeu? Ou melhor, por que muita gente acha que isso aconteceu - ou seja, o descaso de entidades de preservação ferroviárias?

Na verdade, a históri é muito mais complexa do que ficar jogando culpa em fulano ou beltrano.

Existem inúmeras entidades preservacionistas de ferrovias neste país, assim como indivíduos cidadãos interessadíssimos na preservação desses itens. Eu sou um deles. Há entidades sérias e entidades não sérias, com interesses particulares prevalecendo sobre a preservação em si, que serve apenas como fachada. Há entidades que preservam a história e não têm experiência e conhecimento das pessoas certas para se apossar desses carros com boas intenções.

Boas ou más, todas elas têm algo em comum: a falta de dinheiro.

Do outro lado, todo esse material com raras exceções, são de propriedade do governo, geralmente o governo federal - mais precisamente através da antiga RFFSA, hoje dividida em Inventariança da RFFSA, DNIT, ANTT, IPHAN e algumas Prefeituras. Todas estas entidades, teoricamente representantes do povo brasileiro, representam, na verdade, em quase todos os casos - há pessoas que são exceções entre elas - seus interesses próprios e políticos: não o povo.

Há também uma imensa maioria da população que pouc se importa com trens e qualquer outro tipo de objeto histórico ou com tradições. Muitas são até contra: "tirem estas porcarias de nossas vistas".

É por isso que nem mesmo a ABPF - a mais bem-sucedida associação preservacionista ferroviária brasileira - conseguiu salvar o Estrela e muitos outros trens. Falta de dinheiro, falta de interesse político em ceder ou até mesmo vender esse material, falta de interesse do povo em geral em cobrar isto de seus dirigentes.

A ABPF de São Paulo, através de um de seus dirigentes, Carlos Alberto Rollo, explicou - e nem tinha obrigação disto, pois a culpa nunca foi da ABPF por este crime contra o patrimônio nacional. O que ele escreveu foi:

"Acho que muitos (de nós, admiradores de trens) merecem uma justificativa pelo fato da composição ferroviária Estrela da SPR/Santos a Jundiai ter sido retirada e cortada em Paranapiacaba.

Atendendo a uma resolução do DNIT/ANTT e por determinação do Ministério Publico Federal, em sentença proferida pela justiça federal, a ABPF, o DNIT, a SPU, o IPHAN, a MRS e a Prefeitura de Santo André, tiveram que entrar em acordo e definir a situação dos diversos materiais que estavam denegrindo a imagem do meio ambiente e colocando em risco as pessoas que violavam a segurança local e adentravam nos locais aonde estavam esses materiais.

Em reunião de campo feita por todos esses envolvidos mais a AMA e representantes de monitores da vila, ficou decidico que todos os materiais rodante que não tivessem mais valor histórico devido o seu aspecto, devido ao risco, devido a imagem representativa para a vila, teriam que ser retirados do local para que fosse dado um destino. De acordo com a anuência de todos decidiu-se que o Estrela, os carros e ps vagões conveniados que foram cortados por engano pela MRS seriam definitivamente subtraídos dos locais, cortados e destinados como sucata.

No lugar da composição Estrela, que estava perto do Largo dos Padeiros, será erguido um painel memorial com fotos e informações do trem e junto também ficara o motor que esta enferrujado mais intacto, e que sera restaurado pela MRS Logistica.

Infelizmente não foi possível a restauração e preservação desse trem, pois pessoalmente entrei e verifiquei que havia muito perigo para pessoa desavisadas que poderiam entrar e sofrer sérios acidentes, ja que o mesmo nem chão tinha mais.

De resto, conseguimos em substituição aos cortes por engano da MRS, um vagão fechado, o primeiro antes das gondolas pelo do transformador, um hopper que está por último atrás das gôndolas e uma gôndola, a 2ª da fila, sendo que as demais também serão cortadas por força da resolução de limpeza de patios do DNIT, junto a esse materiais a MRS ira colocar a Pão de Forma dentro da area do Museu do Funicular, irá refazer toda a linha que adentra ao museu, e com isso a ABPF passa a ter acesso ao museu por via férrea, já que após a concessão o AMV foi retirado e estamos negociando mais alguns item com eles que assim que forem sendo cedidos vou informando.

Peço minhas sinceras desculpas a todos os railfans dos materiais da SPR, por não ter conseguido salvar o Estrela, bem que tentei, mas não havia como sequer desloca-lo do local, iria se desmanchar todo, havia árvores crescendo dentro, as linhas estão interrompidas, mesmo que a MRS restaurasse não havia jeito de sequer uma lambreta entrar naquele espaço para rebocá-lo até a area do museu, conforme determinação do MPF, que não quer os materiais conveniados espalhados pelo pátio de concessão.

Enfim, algumas coisas boas estão para acontecer, se não houver nenhuma reviravolta governamental, em breve teremos excelentes noticias".

Ele terminou de forma otimista. O que é bom.

Já o Renato Gigliotti, um dos "autônomos" e uma das pessoas que mais se esforçou nos últimos quinze anos para salvar e promover Paranapiacaba, escreveu, como resposta à ABPF e a outro colega lutador: o "Comandante":

"Acompanho as palavras do Comandante (Wanderley Duck), entendo que o problema deste país é muito grave, totalmente controlado dessa forma por puro interesse de muitos. Com isso a estrutura denominada governo acaba sendo usada para outros fins totalmente opostos a sua função original, pois não existe a cobrança do que tem que ser realmente observado por pura alienação.

Quanto ao material SPR, ainda existe o Satélite, o guincho e mais algum material que pode ser restaurado... mas gostaria de deixar registrado uma coisa: se por questões diversas não existe condição de se manter ou se administrar o que resta, quer seja pela burocracia que conheçemos ou pelas condições em que se iniciou todo esse processo, que se levante toda essa problemática de vez e que se leve isso a onde possa ser efetivamente resolvido.

O fato é que muita coisa que existia no museu (de Paranapiacaba) está sendo literalmente dilapidado sem que se faça algo para impedir isso. Muitas peças do acervo foram subtraídas, e o conjunto do guincho está (exposto) ao tempo. Pelo menos que se coloque o guincho e o vagão madrinha para dentro do galpão novamente. As peças estão sofrendo forte oxidação e se continuar dessa forma, vamos ter novamente o mesmo problema com esses equipamentos tais quais temos com o Satélite, com aquela prancha gôndola que foi desmontada, etc. etc. etc.

Cada vez que vou em Paranapiacaba vejo que, apesar dos esforços realizados, temos mais problemas do que soluções. Se existe a necessidade de envolver os demais responsáveis, que se faça isso. A entidade (ABPF) não pode ficar sem se manifestar, caso contrário será conivente com todo esse processo.

Estou comentando o que vejo, na visão de quem está por fora do processo burocrático desse emaranhado todo. Tenho acompanhado os esforços da ABPF porém vejo que somente isso não vai resolver esse caso, é preciso levar isso para esferas superiores."

E o que havia dito o Comandante para ter a resposta do Renato? Foi:

"devo dizer que fiquei um tanto confuso com o tom de justificativa que você deu a aquilo que deveria ter um caráter apenas de relato.

Vocês da ABPF estão trazendo para vocês mesmos uma culpa que não lhes cabe, abraçando um fracasso que não foi de vocês.

Os sócios da ABPF, com o seu próprio dinheiro e com o seu próprio recurso, não tem a obrigação de preservar ou salvar coisa nenhuma, vocês salvam e preservam o que querem e o que podem, se quiserem e se puderem, mas sem ter nenhuma obrigação de fazer isso.

Se alguém tem alguma obrigação, se não legal, ao menos moral, de salvar e preservar a história do Brasil, é o governo, que desde sempre falhou nessa tarefa.

Não se trata de partido A ou B, não se trata de governo de direita ou de esquerda, essa é uma coisa que desde que eu me conheço por gente, acontece com todos os governos que vão se sucedendo.

É a ignorância em ação, a ignorância eleita por um povo que é mantido ignorante desde 1500, porque assim interessa aos senhores do poder.

É a eles que cabe qualquer culpa e qualquer responsabilidade, não a um punhado de abnegados de qualquer associação de preservação ferroviária, aeronáutica, naval, arquitetônica, literária ou seja lá do que for.

Já passou da hora do povo brasileiro entender que ou o Brasil é o país do futebol, ou é um país desenvolvido, porque as duas coisas ao mesmo tempo, não dá para ser."

E chega. Já foi. O problema é que este crime não deverá ser o último a acontecer. Concodo que o Brasil tem coisas mais importantes a resolver do que salvar um trem enferrujado. Porém, quando nem isso ele faz...

2 comentários:

  1. Busco há dias, em vão, alguma matéria, alguma declaração oficial a respeito disso. Eu, aqui de Manaus, que vi o desmanche via facebook, pelo perfil de um amigo morador da Vila. E nada. Nos jornais, apenas o silêncio. Por isso fico muito grata que o senhor tenha dividido aqui neste espaço as justificativas para o ocorrido. Mas não menos alarmada, frente ao descaso, do governo e da opinião pública, quanto a um lugar de tão grande importância histórica e beleza, como Paranapiacaba. Frequento a Vila desde de criança e tenho medo de que minha filha não tenha a oportunidade de conhecer este lugar que eu tanto amo.

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  2. Senti muito pelo desmanche...curto muito fotografia, e mesmo que aqueles trens não pudessem mais ser restaurados, eram um dos marcos de Paranapiacaba, presentes em fotos e na lembrança de muita gente...não vejo como simplesmente desmanchá-los e vendê-los para a sucata promoveu algum ganho à Vila... Triste...

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